
A midiatização do femicídio ou assassinato de mulheres nas redes sociais acabou se convertendo em um dos recursos mais explorados pela maquinaria de meios digitais financiados pelos Estados Unidos, para a guerra comunicacional encaminhada a sociedade cubana.
Foi notável, nos últimos meses, o aumento da produção de histórias contadas aos leitores mediante o storytelling, um recurso que não expõe a ocorrência de um acontecimento através da informação, mas sim do uso da narração emotiva.
Mis refinado e subtil do que a crônica vermelha, o storytelling nos descreve igualmente os detalhes da arma com a qual foi cometido o crime, o lugar onde o vitimário deixou o cadáver de sua vítima, deixa escutar os depoimentos dos familiares, aprofunda nas intimidades do relacionamento entre o homem e a mulher. Fá-lo de uma maneira que não é menos morbosa, mas simplesmente mais sofisticada, em sua intenção de provocar reações.
Para este objetivo se articulam vários meios digitais: alguns deles abertamente reconhecíveis como parte da contrarrevolução e outros que contam com credenciamento como meios da imprensa estrangeira, junto aqueles que recebem financiamento, sob a camuflagem de «meios de jornalismo independente».
Enquanto um grupo de sites de elaboração simples reproduzem os impactos nas redes, com a combinação das palavras Cuba, violência de gênero, femicídio, feminismo, silêncio, assassinato, crime, nos quais, às vezes, chegam a incluir uma foto da vítima ainda viva ou morta, outras publicações colocam conteúdos mais elaborados, procurando o envolvimento de figuras acadêmicas.
Esta estratégia tenciona ser apresentada, sendo aceita assim por uma parte dos seus receptores, envolvida no interesse de «tornar visíveis» estas problemáticas, em contraste com uma necessidade, sem dúvida insatisfeita – em quantidade e profundidade – a partir de nossos meios de comunicação.
Mas midiatizar é precisamente o contrário de tornar visível. A midiatização – e ainda mais aquela que é feita com objetivos políticos – impede a análise, ignora as estatísticas e anula o trabalho dos verdadeiros especialistas. Substitui estes pela emotividade que é útil aos seus propósitos, tornando o público receptor não em um objeto de cultura e de informação, mas sim em alvo da propaganda.
Apela-se ao reconto dos casos que em Cuba chegaram a circular nas redes sociais, quando essa exposição não constitui uma estatística. Elaboram e promovem listas destes, tratando-os como indicadores sociais, quando na realidade se trata de histórias. Reais e dolorosas, indubitavelmente possíveis de evitar e necessitadas de maior atuação institucional, sem dúvida, mas cuja exposição midiática mal-intencionada, em vez de dar uma ideia da realidade própria de Cuba, em relação com ela própria, sua região geográfica e o resto do mundo, produz uma alienação emotiva que empurra a tudo o contrário. A midiatização não é estatística, mas também não é informação.
Segundo os dados oferecidos, em 2016, pelas instituições cubanas ao Observatório de Igualdade de Gênero da Comissão Econômica para a América Latina (Cepal), um número que, sem dúvida, requer ser atualizado, ainda que a realidade cubana não tenha mudado muito no tempo transcorrido, em Cuba se produziram 47 assassinatos de mulheres, os que classificam como femicídios, segundo a definição adotada pela ONU, que considera femicídio o assassinato pelo fato de ser mulher, o que implica que maiormente seja cometido por seus pares masculinos, como parte de um abuso continuado.
A partir das ideias expostas pela escritora estadunidense Diana Russell, nos anos 70, quem falou em femicídio, referido ao assassinato de uma mulher por motivos de ódio, desprezo, prazer ou senso de propriedade por parte de um homem, a antropologista mexicana Marcela Lagarde, introduziu, na década de 90, o termo femicídio, mais amplo, que contempla a ocorrência de um fato evitável propiciado por condições de ausência ou insuficiência da atuação do Estado. Embora essa visão definidora ainda não seja levada em conta na maioria das compilações de crimes no mundo.
Em 2019, como parte do Relatório Nacional para a Implementação da Agenda 2030 para o Desenvolvimento, apresentado na ONU, veio a público que a taxa anual de femicídios em Cuba – número ocorrido em cada 100 mil mulheres – é de 0,99%.
Poderia fazer-se uma comparação com a taxa dos países da América Latina, onde segundo os dados recopilados pela Cepal, oito países superam, e mais cinco duplicam ou mais, a taxa de Cuba. Porém para expor o dano da midiatização podem ser satisfeitos aqueles que teimam grosseiramente na ideia de que um arquipélago pobre e subdesenvolvido deve ser comparado com países do Primeiro Mundo.
Não é bem simples, pois os parâmetros de cálculo não são os mesmos do que os empregados pelo organismo latino-americano. Nos Estados Unidos e Canadá existe uma maior preocupação interna pela diferença abissal entre o volume de femicídios nas mulheres brancas e negras nos EUA e nas mulheres indígenas no Canadá, do que por um índice geral para a comparação com o restante do mundo. Segundo a União Europeia, mas de dez dos seus países não contabilizam os femicídios ou possuem dados que a organização não considera com valor comparativo, nem sequer dentro do próprio bloco europeu. Entre os países sem dados aparecem a Bélgica, Dinamarca, Polônia, Bulgária e a Irlanda. Por outro lado, Holanda, Áustria e a Grécia oferecem dados considerados incompletos.
Apesar de que os números variam segundo a fonte e o critério de classificação, na Alemanha se fala de 122 mulheres assassinadas em 2018, como parte da violência doméstica. Na França, nesse mesmo ano, foram 112, enquanto que em 2019 foram 137. Na Itália o número foi de 115, em 2018, e 94 em 2019. No Reino Unido, organizações referem o número de 146 mulheres.
Isso significa que, inclusive, se a maquinaria midiática anticubana chegasse a ter conhecimento de todos os casos de femicídio em Cuba, só poderia tirar vantagem deles a razão de um caso semanal, o qual também lamentamos, como que na Franca ocorra uma nova trágica história desta natureza, mas em cada dois dias. Na Alemanha, lamentavelmente, também cada ano poderia ser publicada mais de uma centena de histórias, com suas respectivas fotos, manchetes e o conseguinte impacto sobre o público.
Em comparação com a França ou a Alemanha, que têm taxas demográficas mais baixas, mas com o dobro ou o triplo de casos, o potencial midiático de Cuba seria menos de metade, mas simplesmente não existe uma guerra comunicacional contra esses países. Isso permite ter uma ideia da carga de subjetividade, manipulação e desfiguração que produz o uso da midiatização política sobre esses temas.
Uma das intenções é tornar invisível o papel que teve a Federação das Mulheres Cubanas – que vem tratando do tema da violência intrafamiliar, desde 1980, muito antes que outros países – o Centro Nacional de Educação Sexual (Cenesex), as comissões de trabalho da Assembleia Nacional, bem como qualquer projeto que provenha e funcione como parte da sociedade civil cubana.
Seria como pretender ignorar a realização de campanhas tais como Você é mais, Evolui e Una-se, entre outras, bem como o trabalho coordenado com a Organização das Nações Unidas, e o Centro Óscar Arnulfo Romero, entre outros. Seria extenso mencionar todas as pessoas e entidades sociais que em Cuba, de forma real e honesta, trabalham comprometidas com essa causa. São estas, apoiadas e juntamente com o Estado cubano, as que fizeram avançar os temas de gênero em Cuba. Não aqueles que fazem dele um espetáculo, superficial e politiqueiro, sob a etiqueta do «alternativo», quando os sucessos de políticas reais surgem, precisamente, da articulação com o «oficial».
A defesa dos direitos da mulher cubana necessita iniciativas criadoras, novas, pessoais de grupais, e de projetos de verdadeiro valor, que devem continuar surgindo e se multiplicando, de ativistas jovens, que não tem de concordar com todos os métodos e critérios, mas que trabalhem articulados com o Estado e as organizações existentes em prol de um objetivo comum.
Essa maquinaria midiática busca levá-los a um feminismo snob, fanatizado, superficial, assumido como um estilo de vida, e para alguns oportunistas, fonte de benefícios; assim como persegue aliená-los de todos os objetivos e capacidades práticas do que seria verdadeiramente transformador e revolucionário.
Fabricar uma imagem negativa, sob um absurdo e venenoso cartel de oficialistas, tenta confundir para não reconhecer as formas de trabalho e o vínculo com os que verdadeiramente conseguiram que em Cuba a violência de gênero seja objeto de uma política governamental ao máximo nível, algo ao que aspiram muitos ativistas em não poucos países.
A importação forçada de iniciativas surgidas em outros países ao estilo das campanhas estrangeiras Me Too e Yo sí te creo, para utilizá-las de maneira tóxica, como um linchamento, no acosso individual ou institucional, na destruição do prestígio de pessoas, e propiciar casos judiciais para convertê-los em shows, é o cenário cubano que alguns anseiam.
Tomar consciência acerca de sua verdadeira intencionalidade é a única maneira em que podemos evitar ser manipulados. Entender que quando vemos aparecer em nosso muro no Facebook, ou em outra rede social, um destes conteúdos, tanto os mais grosseiros quanto os mais sofisticados, estamos sendo testemunhas da conversão em vítimas, mais de uma vez, dessas mulheres cubanas: primeiramente vítimas daquele que lhes tirou a vida; e depois daqueles que as estão utilizando, como alvo de suas intenções.





