ÓRGÃO OFICIAL DO COMITÊ CENTRAL DO PARTIDO COMUNISTA DE CUBA
Díaz-Canel agradeceu aos Estados membros da Celac por sua exigência enérgica de que o governo norte-americano remova Cuba de sua lista arbitrária de países patrocinadores do terrorismo e levante o bloqueio. Photo: Estudios Revolución

Discurso proferido por Miguel Mario Díaz-Canel Bermúdez, primeiro-secretário do Comitê Central do Partido Comunista de Cuba e presidente da República de Cuba, na 7ª Cúpula da Celac, na Argentina, em 24 de janeiro de 2023, «Ano 65o da Revolução»

(Versões estenográficas - Presidência da República)

Estimado presidente Alberto Fernández;

Suas Excelências, chefes de Estado e de Governo e outros chefes de delegação;

Estimados amigos da América Latina e do Caribe:

Voltar a Buenos Aires para este encontro de nações é motivo de alegria, ainda mais depois dos dias de euforia coletiva que transbordaram suas enormes avenidas para um triunfo que sentimos como nosso na América Latina e no Caribe.

A alegria se completa e se honra com a plena reincorporação do Brasil por decisão de nosso amado Lula, a quem expressamos nosso total apoio e solidariedade diante dos atos violentos e antidemocráticos que procuraram gerar o caos e desrespeitar a vontade majoritária do povo brasileiro, que o elegeu presidente.

Estamos unidos e chamados juntos pela indispensável integração latino-americana e caribenha, neste mecanismo diversificado e inclusivo baseado em uma profunda vocação pela independência.

Washington persiste em seus esforços para dividir, estigmatizar e subordinar-nos a seus interesses, quase 200 anos após a promulgação da Doutrina Monroe. Isto foi evidenciado pela reunião hemisférica exclusiva realizada em Los Angeles onde, abusando de seu poder como anfitrião e fechando seus olhos e ouvidos às exigências da maioria, nos excluiu, fraturou e nos ignorou.

O fracasso político dessa reunião demonstrou o isolamento da estratégia de hegemonia e dominação, diante do sentimento de unidade e soberania que nossas nações compartilham.

Cuba vem reiterando em todas as reuniões internacionais a perigosa escalada de ações que buscam eternizar o hegemonismo imperialista, atacando o multilateralismo e a paz.

A realidade obstinada será sempre mais forte do que qualquer tentativa de nos dividir, pois compartilhamos desafios decorrentes de uma ordem internacional injusta, saqueadora e antidemocrática que nos impede de superar os níveis alarmantes de pobreza, desemprego, insegurança alimentar e exclusão que caracterizam o panorama econômico e social da região, ainda a mais desigual do planeta.

É urgente, portanto, cerrar fileiras e projetar uma visão estratégica, como aqui se exige, para uma integração econômica, social e cultural que nos permita avançar em direção ao desenvolvimento sustentável.

Devemos nos perguntar o que nos impede de nos complementarmos, estimulando o comércio intrarregional e impulsionando o investimento em áreas de interesse comum.

É urgente encontrar soluções justas para o problema da dívida externa e é essencial exigir o fim das medidas coercitivas, unilaterais e dos bloqueios ilegais.

Diante de um modelo cultural hegemônico, é necessário defender nossa ampla e rica cultura, fruto genuíno de séculos de tradição e miscigenação, e pedra angular do processo de emancipação e integração de nossos povos.

No complexo e desafiador mundo pós-pandêmico, que sofre globalmente as sérias repercussões econômicas, políticas e sociais dos conflitos militares e os impactos imparáveis das mudanças climáticas, a única possibilidade para aqueles de nós que vêm de um passado colonial e neocolonial comum é a unidade.

Neste sentido, Cuba apoia como um projeto interessante e útil a ideia de criar a Agência Latino-Americana de Medicamentos.

Queridos colegas:

O governo dos Estados Unidos insiste em destruir o modelo de desenvolvimento que nós cubanos decidimos soberanamente construir, através de uma política cruel, ilegítima, ilegal e imoral de asfixia econômica.

Este governo lança mão de sua hegemonia tecnológica e controle da mídia e das plataformas digitais para realizar operações de desestabilização, uma guerra sem precedentes na mídia e para promover a chamada «mudança de regime», com o respaldo de dezenas de milhões de dólares do Orçamento Federal.

Sua decisão infundada e unilateral de incluir Cuba na espúria lista de supostos patrocinadores estatais do terrorismo tem um impacto severo em nossas aspirações de desenvolvimento.

Agradeço mais uma vez a esta Comunidade e a seus Estados-membros por seu forte apelo para a retirada de Cuba dessa lista e o levantamento do bloqueio.

Cuba não se sentirá intimidada por tais agressões. Não trairemos a história de resistência, dignidade e defesa da justiça social que tornou a Revolução Cubana uma força emancipadora para os seres humanos.

Nós não nos limitamos à resistência. Cuba não parou de criar nos anos difíceis de enfrentamento da pandemia e do bloqueio intensificado por 243 medidas aplicadas pela administração Trump. Vacinas, dezenas de novos medicamentos e protocolos de tratamento de doenças, assim como novos equipamentos e tratamentos, confirmam o valor dessa resistência criativa.

Distintos colegas:

Somos encorajados pelas mudanças no cenário político regional orientadas para a justiça social e a busca da paz e da soberania.

Neste momento, o povo peruano merece nossa atenção e solidariedade, e cabe a nossos irmãos e irmãs peruanos encontrar soluções para seus próprios desafios.

Com os amplos argumentos que a história nos oferece, digo também que não reconhecemos e não reconheceremos qualquer autoridade na OEA, que é a organização que, a serviço dos Estados Unidos, tem apoiado e continua apoiarndo intervenções militares, golpes de Estado e interferência na América Latina e no Caribe contra governos populares e legítimos. A OEA é a organização que nada fez contra os assassinatos, torturas,desaparecimentos forçados e perseguição aos líderes sociais, progressistas e de esquerda da região, que permanecerão para sempre em nossa memória.

Cuba ratificou repetidas vezes, mas é evidente hoje, seu apoio e firme solidariedade com os governos legítimos da Venezuela, Nicarágua e Bolívia, que estão sendo submetidos a persistentes tentativas de desestabilização.

Da mesma forma, apoiamos as justas demandas de reparação pelos danos da escravidão e do colonialismo de nossos irmãos caribenhos, que precisam e merecem um tratamento justo, especial e diferenciado.

Sempre acompanharemos as nobres causas: a independência de Porto Rico; a estabilidade e a paz no Haiti, baseada no pleno respeito a sua soberania; o processo de paz na Colômbia; e o direito da Argentina sobre as Malvinas, as Ilhas Sandwich do Sul e Geórgia do Sul e os espaços marítimos vizinhos.

Repudiamos as ações e ameaças contra a delegação do presidente Nicolás Maduro, denunciadas pelo governo venezuelano.

E de nossa querida Argentina, cujas mulheres marcaram a história regional com heroísmo inigualável, transmito toda nossa solidariedade e apoio à vice-presidente Cristina Fernández de Kirchner.

Amigos latino-americanos e caribenhos:

Sob a liderança da Argentina e de seu presidente Alberto Fernández, a Celac experimentou um avanço notável em 2022 que devemos continuar consolidando. Estendemos nosso total apoio a São Vicente e as Granadinas e ao Irmão Ralph Gonsalves durante sua presidência da Celac em 2023, sempre guiados pela máxima unidade na diversidade, solidariedade e cooperação, em estrita adesão aos postulados da Proclamação da América Latina e do Caribe como Zona de Paz.

Vocês também pode contar com Cuba como presidente do Grupo dos 77 mais a China durante este ano, no qual trabalharemos incansavelmente para representar dignamente os interesses das nações do Sul.

Somos inspirados pelos ideais de integração dos heróis latino-americanos e caribenhos. A Celac é o trabalho de todos nós. Fortalecê-la é uma necessidade urgente e um dever compartilhado para alcançar a unidade e a integração daquela que José Martí chamou de Nossa América.

Muito obrigado.

(Aplausos prolongados).