Nos laboratórios do Norte, naqueles centros de estudos onde homens de terno «brincam» com mapas e recursos alheios, descobriram há anos o segredo mais bem guardado da política: não há combustível melhor para derrubar um governo do que a dor genuína de seu povo.
E não estou falando de dor imaginária. Estou falando de necessidades que tornam a vida difícil, inflação que esvazia os bolsos, escassez que complica a aquisição de itens básicos. Essas feridas são tão reais quanto o chão que pisamos. O truque não está em criá-las — embora isso faça parte, porque o bloqueio e as sanções atingem onde mais dói — mas em cavalgar sobre elas como um jóquei no cavalo de outra pessoa, conduzindo-o para o abismo.
O método tem nome e sobrenome: Gene Sharp escreveu o manual, e a CIA e a OTAN o imprimiram. Mas o verdadeiro dispositivo explosivo não é o livro, e sim a receita que ele contém.
Primeiro, você identifica uma necessidade objetiva. Na Sérvia, foram as sanções que empobreceram o país; na Ucrânia, a corrupção que corroía o Estado; na Geórgia, eleições com forte indício de fraude. Todas essas eram demandas legítimas. Todos esses clamores mereciam uma resposta.
Em segundo lugar, o público-alvo são os jovens. Não ativistas experientes, nem quadros políticos. Jovens de classe média, despolitizados, movidos mais pela moda do que pela ideologia. Você lhes dá um logotipo atraente — um punho cerrado na Sérvia, uma rosa na Geórgia — e os envia às ruas com uma mensagem simples: «Queremos o que é certo».
Em terceiro lugar, você amplifica. As câmeras da CNN, os microfones da imprensa «livre», os holofotes das ONGs que brotam como cogumelos depois da chuva – USAID, NED, IRI, Open Society – são responsáveis por transformar um protesto de jovens, estudantes ou de um grupo minoritário, étnico ou social em um terremoto global.
E em quarto lugar, você está desviando a atenção. Porque o que começou como uma reivindicação por empregos acabou exigindo a cabeça do presidente. O que começou como uma reclamação sobre o custo de vida se transformou em uma «revolução pela democracia». E os jovens, sinceros em sua dor, nem sequer percebem que sua angústia legítima está sendo orquestrada a partir das embaixadas.
Parece familiar? É o mesmo roteiro de sempre. Os jovens de Otpor, em Belgrado, aprenderam com o coronel Robert Helvey, um oficial militar aposentado que os ensinou a convencer a polícia de que «todos somos vítimas». Depois, Srdja Popovic e seu grupo fundaram a Canvas e viajaram pelo mundo treinando outras pessoas: aquelas em Kmara, na Geórgia; aquelas em Pora, na Ucrânia; e os estudantes venezuelanos que receberam cursos intensivos em 2005, quando o financiamento da USAID aumentou.
O padrão se repete como um disco riscado. Eles procuram um país com recursos estratégicos — petróleo, gás, uma posição geopolítica desconfortável. Aguardam o momento de maior tensão e, quando o descontentamento real — aquele que realmente dói, aquele que deixa a geladeira vazia — se combina com a manipulação da mídia e o financiamento estrangeiro, então acendem o pavio.
Vimos isso na Ucrânia em 2004, quando a Revolução Laranja prometeu a Europa e trouxe oligarcas. Vimos isso na Geórgia, quando a Revolução Rosa instalou um presidente que abriu as portas para as multinacionais. Vimos isso no Quirguistão, quando as tulipas murcharam, deixando para trás a mesma corrupção de sempre. E vimos isso fracassar na Bielorrússia, no Irã e na Venezuela de Chávez e Maduro.
E é precisamente essa a lição que não se ensina nas academias do Norte. O manual de Sharp tem um ponto cego, uma fraqueza que os estrategistas de gabinete não conseguem compreender: quando um povo está consciente, a orquestra desafina.
Porque se os jovens forem educados na história do seu país, se conhecerem os rostos dos seus heróis, se conseguirem distinguir entre as suas próprias dificuldades e a agressão estrangeira, então o roteiro desmorona. A dor continua, as necessidades persistem, mas o cavaleiro estrangeiro fica sem cavalo.
Não é que Cuba não tenha problemas. Não é que o embargo não esteja se intensificando. Não é que a juventude viva numa bolha de felicidade enquanto o império ruge lá fora. Necessidades objetivas existem, e seria insensato negá-las. Mas a diferença — a enorme, a insuperável diferença — é que este povo aprendeu há muito tempo a distinguir entre aqueles que sofrem com eles e aqueles que querem usar seu sofrimento para enterrá-los.
Por isso, quando o império distribui seus manuais, financia suas ONGs e treina seus jovens com logotipos coloridos, ele se depara com uma barreira de memória. Porque aqui, a maioria dos jovens sabe que nenhuma cor emprestada vale tanto quanto o azul da nossa bandeira.
Não são tempos para ingenuidade. A estratégia é tão antiga quanto a ganância. Mas o antídoto — consciência, história, dignidade — também é.





