ÓRGÃO OFICIAL DO COMITÊ CENTRAL DO PARTIDO COMUNISTA DE CUBA
José Martí inspirou-se nas virtudes que encontrou no povo norte-americano e nas contradições e mesquinharias que observou em seus governos para construir sua visão do que uma Cuba independente deveria ser. Foto: Mario Ernesto Almeida.
Os laços e as diferenças históricas entre os Estados Unidos e Cuba foram abordados nesta quinta-feira, 2 de julho, no Centro Fidel Castro Ruz, no contexto do 250º aniversário da independência do país do Norte, a ser comemorado em 4 de julho.
 
O painel – «EUA: da revolução ao império» – foi composto pelo etnólogo Miguel Barnet, presidente honorário da União dos Escritores e Artistas de Cuba; Marlene Vázquez Pérez, diretora do Centro de Estudos José Martí; e René González Barrios, chefe da instituição anfitriã do encontro. 
 
Vázquez Pérez aprofundou-se nas opiniões do Herói Nacional de Cuba sobre as complexidades da sociedade norte-americana e a natureza dos poderes que a governaram desde o século XVIII. «José Martí foi o latino-americano que melhor compreendeu e interpretou os Estados Unidos no século XIX, e provavelmente até os dias de hoje», disse.
 
O pesquisador enfatizou a importância de revisitar artigos como Cenas da América do Norte e textos essenciais como Uma Reivindicação de Cuba ou A Verdade Sobre os Estados Unidos.
 
«Nessas linhas, emergem imagens de enorme relevância, apesar do intervalo de quase 150 anos, e revelam precedentes de acordos hegemônicos que foram desencadeados em Cuba desde então. Quase todos os problemas que vemos hoje estão destacados nesses artigos», afirmou.
 
Marlene Vázquez insistiu que José Martí sempre fazia uma distinção entre o povo e os governos dos Estados Unidos e que, a partir das virtudes que encontrava em um e das contradições e mesquinharias que detectava no outro, construía a ideia do que uma Cuba independente deveria e teria que ser.
 
Por sua vez, Miguel Barnet aludiu à sua experiência pessoal de infância e juventude ligadas a instituições de ensino norte-americanas e, apoiado pela trajetória política daquele país, enfatizou a ideia guevarista de que pouco ou nada se pode confiar nos poderes dos EUA, embora não se deva renunciar à construção de uma relação respeitosa.
 
Barnet confessou ter uma relação contraditória com o país vizinho. «Por um lado, grande admiração por figuras como Emerson, Mark Twain, Walt Whitman e todos os grandes escritores e artistas norte-americanos. Por outro lado, rejeição ao racismo, prevalente naquele país, que foi aplicado aqui quando Leonard Wood assumiu o cargo de governador militar da Ilha e discriminou, inicialmente, os negros».
 
Por sua vez, René González Barrios refletiu sobre três marcos históricos como base para continuar trabalhando na complexa relação histórica entre os dois países, contribuindo o máximo possível para que um dia ela seja normal e baseada no respeito mútuo: a contribuição de Cuba para a independência dos EUA, a participação de cubanos na Guerra Civil e norte-americanos que lutaram pela independência da Ilha.
 
O relato exaustivo de González destacou os laços entre os nossos povos, construídos com sangue derramado, na busca de causas comuns, nesta terra e na terra de lá. 
 
Encerrou seu discurso citando o Comandante-em-chefe Fidel Castro, que em 2005 fundou a Brigada Internacionalista Henry Reeve, cujos profissionais ofereceu ao governo dos EUA após o furacão Katrina, mas os norte-americanos não aceitaram:
 
«Expresso com isso a boa vontade do nosso povo; os sentimentos de amizade que sempre nutriram pelo povo norte-americano, demonstrados ao longo de 46 anos; um dos poucos países do mundo – Cuba – onde uma bandeira dos EUA jamais foi queimada, onde um norte-americano jamais se sente ofendido». 
 
«Essa é a garantia. Somos gratos às pessoas que apoiaram o retorno do menino Elián, às pessoas que, em números cada vez maior, apoiaram a justiça para nossos camaradas – os Cinco –, às pessoas em quem confiamos que um dia, junto conosco, construirão laços de amizade não apenas para se apoiarem mutuamente, mas, fundamentalmente, para ajudar os outros».