Cúpula contra o «terrorismo» e outras notas do programa
Os EUA estão tentando convencer o mundo de que sua nova campanha para criminalizar a esquerda não é um «delírio febril» ou uma «conspiração fascista»
Grupos supremacistas brancos marcham em Washington no dia 4 de julhoPhoto: AP
Após várias semanas de anúncio, em 16 de julho, ocorreu em Washington a nada imprevisível Reunião Ministerial sobre o «ressurgimento do terrorismo político de extrema esquerda», supostamente uma ameaça transnacional, tendo o secretário de Estado Marco Rubio como protagonista, literalmente falando, do evento.
Essa plataforma tem sido usada para criminalizar tudo que remeta a uma alternativa ao estilo de vida MAGA, tanto dentro quanto fora dos Estados Unidos, e contribui para fortalecer as bases que justificam futuras ações violentas que a Casa Branca possa optar por desencadear. Contra quem exatamente?
Para esta nova sequência de uma saga já cansativa e longa, não há necessidade de ler nas entrelinhas, porque Rubio se mostrou, no mínimo, claro:
«A esquerda radical pode adotar vários slogans e ideologias, pode se autodenominar anticapitalista, anti-imperialista, comunista, anarquista ou marxista; mas sua natureza fundamental é um ressentimento disfarçado com a linguagem da igualdade, da justiça e da libertação», disse Rubio, «e incluiu pessoas transgênero em sua lista de perigos à "liberdade" — ou seja, a liberdade de quem».
O secretário insistiu que «sabemos o que devemos fazer e agora devemos fazê-lo», uma frase que imediatamente nos faz lembrar daquela usada pelo presidente na quarta-feira passada, 15 de julho, para defender os agentes do ICE, pouco depois de terem assassinado mais um imigrante no estado do Maine: «Os homens e mulheres do ICE estão fazendo um ótimo trabalho, um trabalho que precisa ser feito».
«A "grande imprensa", a academia e as instutuições foram indicadas como uma sorte de "ponto cego" da doutrina antiterrorista dos EUA. Rubio bem sabe daquilo do que poderia ser acusado e determinou dar o primeiro passo: «a mera ideia de que o "terrorismo da extrema esquerda" possa ser uma ameaça séria é tratada como um delírio da direita, ou pior, como uma perigosa conspiração fascista», reconheceu, preocupado.
Para esclarecer ainda mais, Rubio fez questão de estabelecer conexões diretas com a era da Guerra Fria e a política macarthista: «Nada do que acabei de descrever é novo», afirmou.
«Não podemos mais negar ou ignorar isso, porque chegou a hora de erradicar esse mal para sempre», declarou aos representantes de mais de 60 países presentes na sala.
Além disso, enfatizou que a principal responsabilidade de qualquer governo, independentemente de sua natureza, é a proteção de seu povo, a proteção de seu país. «Esta é uma obrigação sagrada que deve transcender todas as divisões políticas e ideológicas», explicou, como alguém que pede um incêndio florestal para salvar a biodiversidade, enquanto aponta para os três ratos, dois burros, o cachorro e a hera em seu quintal.
O conselheiro de segurança nacional dos EUA, Stephen Miller, também se dignou a falar, acrescentando mais do mesmo, com descrições como «câncer da civilização» e «ameaça mortal».
Essas pessoas não são dez lunáticos gritando em uma praça pública; elas estão à frente da maior potência militar do mundo. E, para que não restem dúvidas, não estão brincando. Nunca estiveram. São as mesmas, quase as mesmas, por trás da Operação Condor na América do Sul e do napalm no Vietnã, das bombas nucleares no Japão e das políticas de terra arrasada no Oriente Médio, aquelas que apoiaram — e muito mais — o apartheid no Cone Sul da África e aquelas que apoiam — e muito mais — o sionismo no Levante.
A PRÉVIA
Cerca de 24 horas antes da reunião em questão, o veículo de comunicação norte-americano CBS News vazou a informação de que, nas últimas semanas, o Pentágono vinha examinando uma série de supostas opções para uma possível ação militar contra Cuba.
As fontes, falando sob condição de anonimato, incluíram a possibilidade de um «ataque aéreo liderado pelo Exército, envolvendo milhares de soldados americanos da 101ª Divisão Aerotransportada, a única unidade treinada para a tarefa», especularam.
No entanto, as autoridades citadas pela plataforma salientaram que esses briefings não são provas concretas de que o presidente ou o ministro da Guerra tenham decidido realizar uma «operação».
Na segunda-feira, 1de julho, o Departamento de Estado anunciou o lançamento de uma grande campanha contra o Tribunal Penal Internacional, que acusa de representar uma ameaça intolerável à soberania dos EUA, negando ao tribunal jurisdição para investigar e processar militares e agentes de inteligência norte-americanos. Isso representa mais três passos no já avançado caminho rumo à impunidade para os Estados Unidos.
CUBA SE MANIFESTA CONTRA A «CÚPULA» E O BARULHO QUE ELA CAUSA
Na quinta-feira, 16 de julho, Bruno Rodríguez Parrilla, membro do Bureau Político e ministro das Relações Exteriores da República de Cuba, afirmou que esse tipo de informação, divulgada por altos escalões dos EUA através da mídia, não faz parte apenas de uma guerra psicológica.
«Com esses supostos vazamentos, o governo dos EUA está tentando avaliar a opinião pública sobre uma aventura militar que causaria um banho de sangue e carece de qualquer justificativa crível», comentou o ministro das Relações Exteriores.
Além disso, confirmou que Cuba não representa uma ameaça para a maior potência militar e nuclear do mundo, algo que, segundo ele, as agências de inteligência dos EUA já sabem.
O diplomata criticou a forma como os meios de comunicação do país vizinho se juntam à campanha de ameaças de agressão contra a Ilha e afirmou que «a fabricação de pretextos mentirosos contra Cuba a partir do sul da Flórida é o negócio perfeito para um grupo de políticos desacreditados e corruptos, que continuam lucrando com o sofrimento do povo cubano».
No dia anterior, Rodríguez Parrilla também se concentrou na reunião ministerial anunciada em Washington, que acusou de buscar restabelecer a perseguição e a repressão política contra aqueles que denunciam, discordam e lutam contra as medidas neoliberais, imperialistas, fascistas e de extrema-direita promovidas pelo governo dos EUA.
«Os meios para alcançar esse objetivo não importam, nem as vítimas, nem os dois pesos e duas medidas. Tudo o que é preciso é uma nova mentira de alguém que já tenha um histórico de criá-las, e uma boa máquina de propaganda que essa pessoa já controle», concluiu.
DISTRAÇÃO QUE DESVIA A ATENÇÃO?
Além de ampliar a margem de impunidade do governo dos EUA e criminalizar movimentos de esquerda, há outra possível motivação para a realização desta reunião ministerial: a incursão militar no Irã, iniciada em 22 de fevereiro, não terminou nem produziu os resultados esperados pelo presidente.
Pelo contrário, influenciou uma crise global de hidrocarbonetos, que está apenas começando, enquanto as bases militares ianque, que nos últimos 30 anos vigiaram a «segurança nacional» norte-americana no Golfo Pérsico, foram deixadas em ruínas após a resposta iraniana.
Será necessário mudar o foco para outro assunto? Talvez. O WashingtonPost acaba de divulgar que os resultados de sua última pesquisa não são nada favoráveis ao presidente do país.
O jornal explica que os americanos avaliam o presidente Donald Trump de forma majoritariamente negativa em relação à sua gestão de questões-chave. Eles afirmam, continua o texto, estarem estressados com o custo de vida e pessimistas quanto a resultados concretos das negociações com o Irã e suas implicações para os preços dos combustíveis ou o suposto desenvolvimento da tão discutida arma nuclear.
A CBS News, por sua vez, destacou que a guerra com o Irã expôs alguns atritos entre o presidente e Pete Hegseth, seu secretário de Defesa, já que o magnata expressou nos bastidores sua frustração com o andamento da chamada Operação Fúria Épica, cuja intransigência reacionária, aliada à pressão de Israel, desperdiçou oportunidades de sair do conflito de forma rápida e relativamente ilesa.
Enquanto isso, Hegseth propõe estudar os níveis de testosterona de soldados norte-americanos com mais de 30 anos para verificar, segundo seus critérios, se eles ainda estão à altura. À altura de quê? De todo esse grande espetáculo, que muitas vezes se cansa de ser apenas conversa e os envia para matar e morrer contra um inimigo que quase sempre, pelo menos na forma como eles o entendem, não existe.
O apoio à luta contra o bloqueio econômico, comercial e financeiro dos Estados Unidos, com desbordadas manifestações de solidariedade em cidades de todas as latitudes; o rechaço mundial à incluso na lista de países patrocinadores do terrorismo, e a profunda e coerente presidência do Grupo dos 77 mais a China, elevaram ainda mais o prestígio de Cuba em suas relações com o mundo