ÓRGÃO OFICIAL DO COMITÊ CENTRAL DO PARTIDO COMUNISTA DE CUBA

Versões estenográficas–Conselho de Estado)

Photo: Juvenal Balán

Bruno Rodríguez.— Boa tarde.
 Peço desculpas se vocês tiveram que esperar uns minutos; mas é este um maravilhoso lugar. Não temos resistido a tentação de ver algumas fotos, algumas locações.
 Para mim foi muito grato dar as boas-vindas ao secretário do Estado John Kerry na sede da Chancelaria cubana, na ocasião de sua visita para assistir à cerimônia oficial de reabertura da Embaixada dos Estados Unidos de América em Havana, que ocorreu na manhã de hoje.
 Satisfaz-me também receber a excelentíssima senhora Roberta Jacobson, cujo esforço neste processo, igual que o do excelentíssimo senhor, encarregado de negócios, o embaixador Delaurentis, apreciamos.
 O secretário de Estado e eu tivemos um novo encontro, igualmente em um clima respeitoso e construtivo, no qual abordamos temas bilaterais de interesse, incluindo os passos que ambos os países devemos dar para avançar no processo rumo à normalização das relações uma vez coberta esta primeira etapa, centrada nos vínculos diplomatas.
 Ambas as partes coincidimos na importância de abrir novas áreas de diálogo, consolidar os mecanismos de cooperação bilateral já criados e explorar ou abrir outros em esferas diferentes desde o meio ambiente, a saúde, a ciência, o cumprimento e a aplicação da lei, entre outros.
 Como parte desta etapa que começa nos vínculos entre Estados Unidos e Cuba depois do restabelecimento das relações diplomáticas e a abertura de ambas as embaixadas, temos acordado na manhã de hoje estabelecer uma comissão bilateral para definir os temas que deverão ser abordados no imediato, incluindo os assuntos pendentes de solução, alguns deles muito complicados, que se têm acumulado durante mais de 50 anos.
 Nas próximas semanas, representantes de ambos os governos deverão manter os primeiros intercâmbios de trabalho para definir a maneira de avançar através desta comissão.
 Como o secretário de Estado Kerry disse em seu discurso na manhã de hoje, com efeito, temos concepções distintas sobre diversos temas e profundas diferenças. Por exemplo, em relação com o exercício da soberania nacional, a democracia, os direitos humanos, os modelos
políticos e as relações entre os Estados, no particular no exercício do direito internacional; e também podemos ter diferenças em nossa interpretação da história, incluída a história da última metade do século.
 Quero dizer que, tendo aberto um diálogo bilateral em matéria de direitos humanos e tendo acordado, inclusive, incrementar a cooperação do governo de Estados Unidos e do governo de Cuba respectivamente, com mecanismos universais, não seletivos, não discriminatórios da Organização das Nações Unidas, estamos em disposição de conversar sobre quaisquer destes temas, aceitando que em alguns deles será difícil concordar.
 Mas quero enfatizar que Cuba se sente muito orgulhosa de sua executória na garantia do exercício pleno dos direitos humanos indivisíveis, interdependentes, universais; liberdades civis e direitos políticos e direitos econômicos, sociais e culturais em igualdade de condições para cada cubana e cubano, e esperamos que para cada cidadão e cidadã deste planeta.
 É verdade que nós também temos preocupações em matéria de direitos humanos nos Estados Unidos.
 Cuba, por exemplo, tem um amplo padrão de adesão a instrumentos internacionais de direitos humanos; Cuba faz parte da Convenção de Direitos da criança ou faz parte inclusive da Convenção contra a Discriminação da Mulher, ambas das Nações Unidas, porque considera que é um princípio o do salário igual por trabalho igual para as mulheres e os homens, e se opõe a qualquer discriminação de gênero e de qualquer natureza.
 Não é Cuba um lugar onde haja fatos de discriminação racial ou brutalidade policial, ou se produzam mortes em fatos relacionados com estes temas, nem está sob a jurisdição cubana o território onde se tortura ou se mantém pessoas em um limbo jurídico.
 Igualmente temos a disposição de discutir francamente sobre a forma em que se respeita o direito internacional humanitário nas operações militares de outros países, a existência de baixas civis ou, inclusive, temos preocupação também com o deterioro de alguns sistemas políticos, a corrupção de sistemas políticos ou modelos eleitorais, por exemplo, a partir da existência de interesses especiais que, afortunadamente, não entram nas eleições totalmente participativas em nosso país.
 Em Cuba temos muitos exemplos de respeito e desfrute dos direitos humanos e também, modestamente, nos comprometemos aqui que continuará nossa cooperação internacional, tentando ajudar na medida daspossibilidades limitadas de um país pequeno, de uma economia bloqueada, de continuar contribuindo para o desenvolvimento de ações
em matéria de políticas sociais em terceiros países, particularmente no âmbito da educação e a saúde que para Cuba não são, em modo algum, um negócio, mas sim direitos humanos fundamentais.
 Tenho reiterado ao secretário de Estado que o levantamento total do bloqueio, em nossa opinião, é essencial para poder ter relações normais com os Estados Unidos, assim como a devolução do território que se usurpa a nosso país na Base Naval na baía de Guantánamo. Igual que consideramos necessário avançar no tema das compensações ao povo cubano, às cidadãs e cidadãos cubanos, pelos danos humanos e os danos econômicos que se têm produzido nestas mais de cinco décadas.
Igualmente aspiramos a que se respeite, de maneira absoluta, a soberania de Cuba e nossos assuntos internos.
 Nós apreciamos que o presidente Obama se tenha pronunciado a favor da eliminação desta política, e que continue adotando medidas executivas que permitam sua desmontagem.
 Confirmei ao secretário Kerry que nosso governo tem a vontade plena de normalizar as relações com os Estados Unidos, sobre bases de respeito e igualdade, sem afetar a independência e soberania de Cuba e sem ingerência em nossos assuntos internos, como estabelecem os
propósitos e princípios da Carta das Nações Unidas, o Direito Internacional e os princípios que nossa Comunidade dos Estados Latino-americanos e Caribenhos (Celac) tem tornado públicos através do Proclama da América Latina e o Caribe como Zona de Paz, assinada por todos os presidentes e chefes de governo há um ano aqui em Havana.
 O mais importante é que eu estou convencido de que apesar das diferenças entre nossos governos, as quais, obviamente, não vão desaparecer, é possível construirmos relações civilizadas, respeitosas, produtivas que, em minha opinião, serão seguramente distintas em sua natureza a todas as de nossa história anterior, de forma que possam nutrir-se, possam alimentar-se dos laços históricos, culturais e humanos existentes entre nossos povos.
 Sinto que temos a oportunidade de ampliar nossa cooperação em diversas áreas de interesse e benefício mútuo. Contamos para isso com o respaldo de nossos povos e dos países da região e da comunidade internacional.
 Cuba sempre tem estado aberta aos contatos e os intercâmbios com todo o mundo e neste espírito damos as boas-vindas aos cidadãos estadunidenses que querem conhecer a realidade cubana e relacionar-se com nosso povo. Poderiam conhecer este hotel que vocês e nós temos estado admirando nestes dias, sua bela vista ao Malecón havanense ao castelo dos Tres Reyes del Morro, a bela paisagem do mar azul, que hoje estava, precisamente, de fundo na cerimônia de reabertura da embaixada de Estados Unidos.
 E damos também as boas-vindas às empresas estadunidenses que querem aproveitar as oportunidades que nossa Cuba oferece.
Senhor secretário, pode usar da palavra.
 John Kerry.— Bem, muito obrigado, Bruno, muito obrigado, senhor ministro, e muito boa tarde tenham todos vocês.
 Eu acho que estava escutando não somente ao ministro dos Assuntos Exteriores, mas também ao ministro do Comércio, do Turismo (Risos), e obviamente, adoro estar aqui em Havana, e peço desculpas pois nos demoramos um pouco e se fez algo tarde. Trata-se deste hotel histórico e tomei um momento para ver as salas próximas, que contêm as fotografias de um número extraordinário de líderes, de personagens famosos nas artes, no cinema, que vieram a Cuba em muitas décadas. É uma grande história.
 

Photo: Ismael Francisco

Como todo mundo sabe se trata de um momento histórico. Hoje é um dia histórico aqui em Havana. Por fim depois de mais de 54 anos Estados Unidos ye Cuba têm restabelecido relações diplomáticas. Como mencionei no dia de hoje, tenho o privilégio de ser o primeiro secretário de Estado que vem a Cuba desde 1945. Creio que a reunião que acabamos de ter o senhor ministro e eu subjaz a este momento histórico pelo fato de que foi sumamente cooperativa e construtiva, e acho que ambos temos estado obrando em um espírito de concepção das possibilidades que surgem desta jornada de hoje.
 O restabelecimento das relações diplomáticas e a reabertura de nossas embaixadas constituem passos de importância crítica no longo processo de uma normalização plena de nossas relações bilaterais. E escutaram ao ministro dizer com certos detalhes como esperamos poder aproveitar ao máximo o dia de hoje para poder avançar plenamente rumo a uma normalização plena.
 O ministro disse que esta normalização dependerá, naturalmente, do levantamento do embargo e outros elementos. Esta administração e o presidente Obama já advogam pelo levantamento do embargo. Nós pensamos que seja algo importante. Quando fomos à normalização com o Vietnã um dos primeiros passos foi o levantamento do embargo que empreendeu o presidente W. Bush antes do presidente Clinton. Então esperemos que durante os próximos dias possamos criar uma rota com a qual vamos dar os passos necessários para chegar ao nível subsequente. Estou convencido de que os passos dos quais falamos no dia de hoje ajudarão a avançar e nos ajudarão a progredir nesta relação.
 Ante todo, o reatamento das atividades em nossa embaixada permitirá ao governo de Estados Unidos ter contato com o governo cubano pontualmente, com regularidade. De fato, hoje já dissemos estar de acordo sobre os próximos passos. Bruno acaba de anunciar a criação deste comitê bilateral, um mecanismo que utilizaremos para poder verificar que haja uma passagem, um caminho diplomático que seguiremos. O que queremos fazer é reunir-nos quase imediatamente na primeira ou segunda semana de setembro, uma delegação virá e começaremos o processo de ir elaborando e resolvendo uma série de temas.
 Também confio que o dia de hoje vai ser o início de uma oportunidade para os diplomatas cubanos em Washington D.C., os diplomatas norte-americanos em Havana de poder ter maior contato com os povos que constituem nossos países, e que os diplomatas norte-americanos e cubanos poderão compartilhar suas opiniões, conhecer cidadãos de todos os âmbitos da sociedade na nação onde estejam acreditados. E isto tem pleno sentido; mas não há ninguém que acredite mais na validez de suas ideias e deva, contudo, ter medo das ideias de outros povos.
 Quero que fique claro, e pensão que eu o disse no dia de hoje, que a normalização das relações não é um favor que um país esteja fazendo ao outro, é algo que nós desempenhamos juntos, porque ambos os cidadãos, ambos os povos temos determinado que podemos beneficiar-nos da relação como pessoas e do contato povo a povo, que aumenta. Nós acreditamos que a normalização contribuirá para dar maior empoderamento a nossos povos, ajudando à população cubana para que possa ser parte da economia global, que possa ter maior comércio, movimentar-se, viajar, melhorar sua vida, e, portanto, melhorar sua vida em termos gerais.
Também ajudará os cidadãos de Estados Unidos, incluindo os estudantes, o setor privado para que possam aprender mais deste país, para estabelecer conexões, amizades que durarão, esperamos, uma vida.
 Estados Unidos e Cuba no dia de hoje em nossa reunião, ambos disseram estar de acordo na determinação de olhar para frente, para essa resolução compartilhada que nos levou a abrir nossas embaixadas, é a resolução e é a determinação que nos levará à normalização.
 El Ministro e eu — repetirei algumas das coisas que disse ele também — falamos de algumas coisas que nos inquietam. Falamos dos direitos humanos, falou deles com certo detalhe; a segurança marítima, o tráfico de drogas, o tráfico de pessoas, etecétera. Temos acordado estabelecer este mecanismo para não simplesmente falar da relação, mas que é para começar realmente a adotar os passos necessários para ver que a relação vai amadurecendo. Estaremos vendo nosso programa comum, falaremos de uma série de temas, mais além dos que já mencionei: a aviação civil, um deles; um reclamo, a compensação de ambas as partes, por sinal, não só de um lado, e são coisas que temos que ver, temos que examinar, devemos estabelecer um processo. O caminho rumo à normalização plena nem sempre vai ser fácil, ambos compreendemos isso, mas confio que o estabelecimento de embaixadas fará com que seja fácil para que nossos diplomatas possam trabalhar quanto a estes temas difíceis. Não tenho dúvidas na minha mente de que vamos chegar a um entendimento recíproco.
 A normalização entre os Estados Unidos e Cuba eliminará uma fonte de irritação e divisão no hemisfério. Quando estivemos no Panamá, tenho que dizer quantos países chegaram, depois do anúncio do presidente e disseram que estavam tão contentes porque por fim os Estados Unidos e Cuba iam renovar seu relacionamento, porque todos eles queriam alentar e nos apoiavam nesse caminho. Portanto, isto é algo que nos importa em nível hemisférico pelo fato de que os países que vão do Chile ao Canadá, todos, poderão avançar em seus programas comuns para seus cidadãos. Este é um programa que tirará as pessoas da pobreza, salvaguardando o que é a saúde, lutando contra o crime e criando segurança energética sustentável, promovendo direitos humanos e fornecendo aos nossos jovens os conhecimentos e as destrezas necessárias no mundo moderno para poder alcançar o sucesso, viver vidas plenas e construir suas comodidades e aspirações.
 No dia de hoje com nossa cerimônia na embaixada estamos tomando una direção importante, é um passo importante, e temos a determinação de seguir avançando com a fé quanto aos povos de ambos os países rumo a uma era nova e emocionante para todos.
 Muito obrigado, Bruno, por suas cálidas boas-vindas, é um prazer poder estar de novo em Havana. Eu vi a beleza desta cidade, e o fato de ter podido fazê-lo de novo, posso dizer que este vai ser um dos lugares de maior turismo, as pessoas vão querer vir a este país, e, emminha opinião, entre mais rápido possamos chegar à normalização, melhor será.
 Muito obrigado.
 Moderador.- A primeira pergunta é da Reuters.
 Jornalista (Reuters).— Muito obrigado.
 Senhor secretário, esta administração considera outros passos administrativos para que haja maior normalização? Vocês têm a preocupação de que não possam agir rapidamente para chegar à normalização, que o seguinte presidente dos Estados Unidos possa desfazer tudo o que vocês têm construído? Há alguma inquietação por parte de Cuba de que quanto mais tarde seja este processo, pois mais perigoso podia ser, já que os Estados Unidos no ano próximo passará a uma nova atmosfera política?
 John Kerry.- Quero responder. No dia de hoje dissemos que estaríamos vendo alguns dos passos que poderíamos tomar e vamos avaliar, sem dúvida alguma, todas as possibilidades no âmbito de um processo recíproco e mútuo.
 Como disse em meus comentários durante a cerimônia na embaixada, o embargo é um caminho de duas vias, portanto durante as conversações que tive no dia de hoje eu me vi muito alentado, porque vamos poder realizar progressos com respeito a uma série de problemas, como são: o tráfico de seres humanos, os intercâmbios, com respeito à aplicação da lei, as reclamações, as compensações, os temas de saúde, a aviação civil, a segurança marítima. Há todo um leque de temas onde simplesmente um percurso de sentido comum pode proporcionar uma série de opções sobre as quais trabalhar se o fazemos eficazmente.
 Não imagino que outro presidente democrata ou republicano tire tudo ao lixo, eu não acho e simplesmente não o vejo. Creio que a gente entende que em 54 anos tivemos uma política que nos estava isolando, não estava mudando o mundo, e penso que o que devemos fazer é reconhecer essa realidade, como disse o presidente Obama quando fez o anúncio. Quando nos damos conta que estamos escavando um buraco e estamos dentro dele, é preciso deixar de escavar e depois sair do buraco, e é o que estamos fazendo. Creio que seja um passo importante e confio em que poderemos ter avanços.
 Não queremos definir em excesso esse processo, todos entendemos que vai haver pequenos obstáculos, haverá diferenças, porque há; contudo, temos aprendido, ao longo de muitas décadas de tratar com pessoas com as quais temos diferenças, que há maneiras de encontrar um caminho para avançar para encontrar benefícios e vantagens para ambos os países e cidadãos. Confio em que o poderemos fazer aqui também.
 Moderador.— A segunda pergunta é para Andrea Rodríguez, da AP.
 Andrea Rodríguez (AP).— Boa tarde, Ministro.
 Senhores, tivemos nestes dias duas bonitas cerimônias e também temos escutado os reclamos de parte e parte. Sem irnos mais longe, o secretário Kerry hoje mencionou o tema de que esperava para Cuba uma genuína democracia.
 Quiero que o senhor me comente o que opina a esse respeito, e nesta direção, se esse tema entraria como parte dessas comissões e quais são as expectativas a futuro dessa comissão que ambos os funcionários mencionaram que vão criar. Obrigada.
 Bruno Rodríguez.- Eu sinto que devemos trabalhar ativamente para construir confiança mútua, para desenvolver contatos nas áreas onde temos visões próximas ou que possam ser aproximadas, e ao mesmo tempo conversar, discutir de maneira respeitosa, sobre nossas diferenças respectivas.
 Em algumas áreas é certo que as diferenças são profundas; contudo, posso dizer que alguns destes temas são de intenso debate internacional. Por exemplo, alguns modelos políticos eleitorais de países industrializados que parecia que podiam ser um modelo único, entraram em uma gravíssima crise, inclusive na Europa.
 Os Estados têm a necessidade de desenvolver seus vínculos na linha do direito internacional com povos que têm decidido, em exercício de sua autodeterminação, seu destino nacional, de acordo com sua própria cultura, com seu nível de desenvolvimento.
 Eu me sinto muito cômodo com a democracia cubana que ao mesmo tempo tem coisas que podem ser aperfeiçoadas, tal como trabalhamos hoje ativamente a partir dos processos relacionados com a atualização de nosso modelo econômico e social socialista.
 Posso dizer que é um tema no qual estamos dispostos a conversar sobre bases absolutamente recíprocas e de igualdade soberana, no qual nós também temos muito que dizer, preocupações que compartilhar; tentativas de incrementar a cooperação internacional para resolver problemas relacionados com o âmbito dos direitos políticos e as liberdades  civis que, em nossa opinião, têm que ser asseguradas da mesma maneira que o direito à alimentação, o direito à igualdade de gênero, o direito à vida, o direito à educação e a saúde. De maneira que sinto que sobre este tema temos a disposição para conversar. De fato já iniciamos um diálogo nesta matéria que espero que continue no futuro.
 Mini Whitefield (Miami Herald).— Secretário Kerry, o Departamento de Estado disse que não prevê mudanças na Lei de Ajuste Cubano, também diz que apoia uma migração segura e organizada, como se reconcilia tudo isso com a migração de um país para o outro?
 E, ministro Rodríguez, o senhor acha que essa Lei de Ajuste e a ata de ida e volta, possam ser temas em conversas futuras com os Estados Unidos?
 E, segundo, ministro Rodríguez, Cuba apoia o conceito de compensação às propriedades estadunidenses expropriadas?
 John Kerry.- Quero dizer muito rapidamente que a política dos Estados Unidos é a de apoiar uma migração segura, legal, organizada de Cuba para os Estados Unidos, a apoiamos, e apoiamos a instrumentação dos acordos de migração com Cuba e atualmente não temos nenhum plano de alterar as políticas de migração, incluindo a Lei de Ajuste e não temos intenções de mudar a política neste âmbito.
 Ou seja, podemos sentar-nos com nossos homólogos e utilizar este comitê, como você o descreveu, para examinar qualquer cosa; escutaremos atentamente e trabalharemos sobre aquelas cosas que ajudarão a fazer progredir as relações para o bem-estar de ambos os cidadãos.
 Bruno Rodríguez.- O tema migratório é de grande complexidade nas circunstâncias atuais.
 É conhecida a dramática situação de ondas migratórias que fogem da pobreza e das consequências de conflitos militares, de guerras travadas, afortunadamente não na região da América Latina e o Caribe, onde não se apresentan situações graves, do ponto de vista de conflitos entre Estados ou inclusive internos.
 Mas ainda em nossa região temos muito sérias preocupações com os processos migratórios que ocorrem desde países, por exemplo da área da América Central, que afetam centenas de milhares de crianças pequenas, ou inclusive desde outros países vizinhos dos Estados Unidos.
 As relações migratórias entre os Estados Unidos e Cuba que vêm desde muito cedo, desde o século XIX, inclusive antes, não deveriam ser politizadas, deveriam ser totalmente normais. Coincidimos em alentar a migração segura e ordenada entre ambos os países; coincidimos também na apreciação dos perigos, dos riscos e a necessidade de estabelecer cooperação internacional e bilateral contra o tráfico de pessoas e outras figuras relacionadas com o crime internacional organizado.
 Consideramos que os acordos migratórios em vigor entre os Estados Unidos e Cuba hão de ser cumpridos escrupulosamente, que qualquer política ou qualquer ação prática que não responda à linguagem e ao espírito dos acordos, deve ser abolida.
 Posso reiterar a disposição de nosso país a continuar tendo conversações neste âmbito, no âmbito migratório e em geral no relacionado com os fluxos de pessoas que consideramos que é um direito humano que os migrantes devem ser tratados com estrito apego a todos seus direitos, de maneira humanitária, culta e ao mesmo tempo considero que os cubanos, que podem viajar com toda liberdade, emigrar, etecétera, gostariam de receber também em nosso país aos
turistas, aos viajantes dos Estados Unidos, de maneira que possam se intensificar os contatos, os vínculos entre ambos os povos.
 Consideramos que a liberdade do direito de viajar é um direito humano também fundamental.
 Moderador.— Dou uma última palavra ao jornalista Sergio Gómez, do jornal Granma.
 Sergio Gómez (Granma).— Minha primeira pergunta é para o secretário Kerry. O senhor falou de uma rota que será definida pelos dos países, mas gostaria de saber se a administração Obama tem a vontade para continuar avançando em temas substanciais da relação bilateral, como a devolução da Base Naval de Guantánamo, o fim das transmissões ilegais de rádio e televisão, o fim do financiamento aos programas de mudança de regimes ou programas subversivos aqui em Cuba, e no campo do bloqueio, embora saibamos que é potestade do Congresso, se o presidente Obama utilizará seus poderes executivos para continuar mudando a atuação e a implementação dessa política para esvaziá-la do seu conteído.
 Em segundo lugar, ao ministro Bruno: América Latina vive um momento transcendental em sua história, o senhor mencionou a declaração da América Latina como Zona de Paz, a uma busca da unidade dentro da diversidade. Como se insere este processo entre Cuba e os Estados Unidos nessa realidade e como poderia contribuir às aspirações que tem a América Latina hoje?
 John Kerry.- Como temos dito anteriormente  ambos, continuará havendo temas sobre os quais estaremos em desacordo ou talvez sejam temas não maduros em nível da transição ou da transformação.
 Neste momento estamos cumprindo um grande passo de avanço, é um programa grande o movimento rumo à normalização, e Bruno o reiterou, quer dizer, que há certas expectativas de Cuba com respeito ao significado disto, e isto, naturalmente, requer que nos enfrentemos a certos temas. Isto não vai poder fazer-se de um dia para outro o dentro de um mês; vamos ter, pouco a pouco, que ir enfrentando-nos a algumas das coisas menos provocativas, menos complicadas e mais atingíveis.
 Então nos fica muito claro nesta rota que nós vamos começar a fazer as coisas naqueles temas onde possamos progredir a nosso entender. Não significa que os outros temas não vão ser discutidos, quando não haja nenhum plano de mudar a relação com Guantánamo, a situação com Guantánamo, mas neste momento não existe esse plano, não o vamos fazer; mas na medida que sigamos adiante sobre este caminho e mude a relação, quem sabe quais temas com o tempo vão poder ser expostos, não sei. Isso não está na mesa neste momento, mas o presidente claramente está se mexendo para levantar o embargo e essa seria uma transformação enorme, e penso que isso seria de interesse para Cuba, enormemente, e creio que Cuba quer ver que isto aconteça.
 Então, temos um mundo de possibilidades com as quais podemos tratar, sem preocupar-nos excessivamente das coisas mais complicadas e difíceis; vamos paulatinamente, façamos as coisas de maneira estratégica, construamos confiança, atinjamos alguns elementos, vamos ver como vão avançando as coisas e esperamos poder fixar os alicerces para que as pessoas vejam que faz sentido levantar o embargo. Creio que esse é um dos objetivos que compartilhamos, e o fato de atingir essa meta vai significar que temos ambos que ter sucesso em produzir progressos quanto à rota mesma.
 Bruno Rodríguez.- As leis cubanas prevêem a compensação aos proprietários nacionalizados nos anos sessenta e todos os proprietários foram compensados em seu momento, à exceção dos cidadãos norte-americanos devido às circunstâncias que surgiram então nas relações bilaterais.
 Posso reiterar que as leis cubanas preveem essas compensações, que necessariamente deverão entrar em um processo mútuo de negociação que tome em conta as compensações ditadas por tribunais cubanos relacionadas com os enormes danos humanos e econômicos resultado dos mesmos assuntos que impediram de realizar as compensações em seu momento.
 Acho que para a América Latina e o Caribe qualquer avanço na relação bilateral entre Estados Unidos y Cuba será benéfico para os interesses mútuos, tanto para nossa América como para os interesses nacionais, os interesses das cidadãs e cidadãos estadunidenses, este processo será, sem dúvida, benéfico. Acho que abrirá oportunidades inclusive para o desenvolvimento de melhores e mais profundas relações, ações de cooperação, maiores vínculos em todos os âmbitos entre os Estados Unidos e a América Latina e o Caribe, contribuirá para resolver um dos maiores problemas no hemisfério ocidental e criará as condições para incrementar a cooperação hemisférica em âmbitos tão importantes como o da prevenção de doenças transmissíveis ou outros, no qual houve já algumas experiências iniciais.
 Eu sinto que a América Latina e o Caribe consideram uma reivindicação regional o retorno de Cuba às cúpulas das Américas e as mudanças que o presidente Obama tem anunciado na política dos Estados Unidos para Cuba.
 Lembro, igual que o senhor secretário de Estado Kerry, as colocações de nossa região na passada Cúpula das Américas, no Panamá, reconhecendo este fato, expressando reconhecimento aos governos dos Estados Unidos e Cuba pelos passos dados até este momento e uma grande esperança de que possam resolver-se os fatos reais, substanciais que permitam avançar rumo à normalização de relações entre ambos os Estados.
Quero agradecer a presença do senhor secretário de Estado, reiterar-lhe nossas boas-vindas a Havana e nossa satisfação porque ambas as embaixadas tenham sido reabertas e se tenham criado condições para tratar dos temas fundamentais pelo bem-estar de ambos os povos e países.
 E quero agradecer a vocês sua presença em Cuba e sua presença nesta sala.
 Muito obrigado (Aplausos).