WASHINGTON.— Nos começos de outubro de 1977 cerca de 70 homens de negócios norte-americanos reuniram-se em Washington para exigir o levantamento do bloqueio a Cuba. O encontro contava com um convidado inédito, o ministro cubano do Comércio Exterior na época, Marcelo Fernández Font.
O ambiente era propício. Começava um degelo nas relações da administração de James Carter com Havana e nesse mesmo ano foram abertas as repartições de interesses em ambas as capitais, que se transformaram em embaixadas, em julho do ano passado. As viagens à Ilha de cidadãos estadunidenses chegaram a ser completamente liberadas, embora por um breve período.
Jonathan Bingham, um funcionário do Departamento de Estado norte-americano presente naquele encontro, qualificou o bloqueio como “algo passado de moda que deveria ser terminado sem condições prévias”.
Fernández Font, por sua parte, assegurou que Cuba estava interessada em desenvolver relações comerciais e econômicas com os Estados Unidos, mas em condições de igualdade, benefício mútuo, sem restrições e sem barreiras discriminatórias.
Agora, em fevereiro de 2016, outro ministro de Comércio Exterior cubano encontra-se na capital estadunidense, desta vez como convidado oficial, com as relações diplomáticas restabelecidas, mas ainda com o bloqueio vigente.
Quase quatro décadas depois, o debate decorre quase nos mesmos termos.
A influente Câmera do Comércio dos Estados Unidos, a instituição do seu tipo maior do mundo, propiciou um novo encontro com um amplo grupo de empresários favoráveis ao aumento dos nexos com Cuba.
Essa Câmera, que representa quase três milhões de homens de negócios, desde pequenos agricultores até multinacionais, tem a sede justamente na Praça Lafayette, que custodia a parte dianteira da Casa Branca.
Na capital estadunidense nada se deixa ao acaso. Entre as poucas coisas que fogem do controle invisível do poder está o clima, que na segunda-feira 15 de fevereiro paralisou a cidade com uma geada, impedindo que o ministro cubano Rodrigo Malmierca pudesse visitar o Estado da Virgínia, onde era esperado pelo governador Terry McAuliffe.
Na manhã de 16 de fevereiro, a neve tornou-se chuva e já ao meio-dia o sol aquecia a esplanada onde estão os mais importantes monumentos desta cidade.
O nutrido grupo de correspondentes credenciados aqui para noticiar eventos políticos, que mal saía da moleza, depois do feriado pelo Dia do Presidente — todas as primeiras segundas-feiras de fevereiro — mostrou interesse na presença da delegação cubana, presidida por Malmierca e integrada por funcionários de sua carteira, a chancelaria, o Banco Central de Cuba e a Câmera do Comércio da Ilha, bem como diretivos de empresas cubanas e diplomatas cubanos.
“Este é um dia histórico”, disse o embaixador José Ramón Cabañas durante a intervenção no almoço de trabalho que seguiu ao breve encontro privado.
“Durante os últimos meses essa palavra tem sido muito usada”, reconheceu, mas é difícil não qualificar assim um dia em que coincide a visita de um ministro cubano a Washington com a presença em Havana do secretário dos Transportes estadunidense para a assinatura de um acordo de voos diretos.
Pouco antes, o vice-presidente executivo e chefe dos Assuntos Internacionais anfitrião, Myron Brillant, tinha feito uma exame de sua posição por mais de 15 anos: levantar o bloqueio e fazer negócios.
Uma postura que sustentaram ainda com maior força depois dos anúncios de 17 de dezembro passado.
O ex-secretário do Comércio Carlos Gutiérrez, quem assumiu a presidência do Conselho de Negócios Estados Unidos-Cuba, sob o patrocínio da Câmera, fez um apelo aos empresários para agir.
“Estamos pedindo às empresas que, se querem estar em Cuba, que mergulhem na questão política a exigir que sejam tiradas as sanções”, disse à imprensa após concluir seu discurso oficial.
“Enquanto houver maior número de investimentos e for aprovado maior número de transações, será mais difícil reverter este processo. Será muito difícil que alguém chegue e diga: isto acabou”.
Talvez nada ilustra melhor as transformações ocorridas nos últimos anos do que a história deste empresário de origem cubana, que dirigiu a multinacional de alimentos Kellogg´s e acabou sendo parte da administração de George W. Bush e da Comissão de Assistência para uma Cuba Livre, um organismo de feição ingerencista, responsável por dirigir uma suposta transição política na Ilha.
Gutiérrez é agora é um dos mais influentes defensores, no seio do seu partido, da mudança de política da administração Obama e é convencido acerca da inevitabilidade do fim do bloqueio. “De que vai acontecer, vai acontecer”, disse.
Mas ainda faltam outros muros, mentais e reais.
Respondendo uma pergunta do jornal Granma na entrevista coletiva, a vice-presidente para as Américas da Câmera, Jodi Bond, lembrou alguns dos empecilhos que ainda restam no caminho para chegar a este dia.
“Reconheço quão pouco conhecem os legisladores estadunidenses sobre a realidade de Cuba que está mudando”, disse.
O trabalho consiste, acrescentou, em “instruí-los” sobre a opinião predominante do povo e das companhias estadunidenses que querem o fim das sanções.
Durante a jornada, muitos jornalistas debatiam acerca das ideias mais certas que deviam colocar nas manchetes da informação do dia: “o primeiro ministro cubano oficialmente convidado em meio século”, “em décadas” ou “a delegação mais importante ligada à economia”.
O ministro cubano encarregou-se de demonstrar que seus objetivos transcendiam o anedótico. Durante mais de 40 minutos ministrou uma palestra sobre o panorama da economia cubana, sua evolução e perspectivas de desenvolvimento.
“Sejam bem-vindos a Cuba para fazer negócios”, disse aos empresários reunidos ali.
Cuba tratará as companhias estadunidenses da mesma maneira que as do resto do mundo, acrescentou em sua entrevista coletiva. “Não as discriminaremos nem faremos o processo mais complicado”.
Malmierca explicou que o investimento estrangeiro é chave nos planos de desenvolvimento do país, que aspira receber anualmente dois bilhões de dólares por esta via.
“Quanto desse dinheiro poderia provir dos Estados Unidos?”, perguntou um dos jornalistas norte-americanos.
“Depende: pode ser tudo ou pode ser nada”, respondeu o ministro cubano. “O bloqueio é o principal obstáculo”.







