ÓRGÃO OFICIAL DO COMITÊ CENTRAL DO PARTIDO COMUNISTA DE CUBA
O produtor Ricardo Serrano Masquida encoraja as práticas ecológicas responsáveis para obter maiores rendimentos e não prejudicar o ecossistema. Photo: Nuria Barbosa León

OS camponeses cubanos apostam hoje em técnicas agroecológicas para suas culturas, porque utilizam recursos menos daninhos para o meio ambiente, centrando-se tanto na produção de alimentos como na sustentabilidade e no equilíbrio do ecossistema.

Estas práticas são ancestrais, embora durante muito tempo se acolhessem de forma ingênua e rudimentar. Para a década de 1970 do século passado vários especialistas conceituaram as experiências no termo agroecologia, definida como uma ciência de síntese para a construção de a soberania alimentar.

Pesquisadores cubanos mostraram um grande interesse por generalizar todo o país diferentes técnicas para diminuir o uso de fertilizantes químicos, zelar pela saúde dos solos, certificar as sementes, controlar os matagais (arbustos silvestres que prejudicam as culturas), usar produtos naturais como plantas repelentes (com cheiro e sabor diferentes) e armadilhas de cores (plantio de produtos coloridos no mesmo espaço) para comabater pragas e insetos.

Um procedimento rapidamente generalizado consistiu em produzir matéria orgânica ou composto, com o objetivo de oferecer nutrientes às plantas. Tal adubo pode ser obtido de dejetos como restos de comida, cascas de ovo, folhas, raízes e esterco descomposto. Igualmente se forneceu biofertilizantes e biopesticidas, desenvolvidos por instituições científicas, especificamente os Centros de Reprodução de Entomófagos e Entomopatogênicos (CREEs).

Na década de 1990 estas ações cobraram maior força, perante a dificuldade para importar insumos, devido â queda do bloco socialista e o criminal bloqueio econômico, comercial e financeiro imposto pelo governo dos Estados Unidos. Os trabalhadores dos campos de Cuba adotaram estas práticas muitas vezes sem ter consciência de que se fazia agroecologia.

Assim referem, ao Granma Internacional, vários camponeses agropecuários, que participam da oficina de produtores “Por uma agricultura sustentável e resiliente”, realizada em 22 e 23 de fevereiro último, como parte das atividades em saudação ao 55º aniversário da Estação Experimental de Pastos e Forragens Indio Hatuey, centro adstrito à Universidade de Matanzas Camilo Cienfuegos e sede do evento.

Reanimação da cultura do café no Escambray cubano com uma armadilha para a broca do café. Photo: Yaimí Ravelo

O engenheiro agrônomo Ricardo Serrano Masquida, produtor da chácara La Victoria, situada no povoado Sabanil-la, pertencente ao município Bayamo, da província Granma, adverte: «Nós os camponeses cubanos, tivemos que fazer uma aliança com os centros científicos do país e colocar nossa inventiva a funcionar, para tirar os maiores rendimentos da terra. Permanentemente temos que inovar para tornar sustentável nosso sistema agrícola».

Em sua chácara, de mais de 40 hectares, prima o gado bovino, ovino, caprino, equino e suíno. Fomenta-se a apicultura e a avicultura. Para alimentar essas espécies, cultivam 16 variedades de alimentos para animais, com extensas áreas dedicadas às árvores de frutos, delas obtêm 35 variedades de manga e 26 de abacate, mais dez raças de coco de porte alto e baixo, e outras espécies.

Este camponês assegura: «Há uns anos a Associação Nacional de Agricultores Pequenos (organização de camponeses) definiu 50 princípios agroecológicos para serem colocados em prática pelos produtores. Eu cumpro com 32. Em minha chácara 75% das produções se conseguem com práticas agroecológicas e 25% com práticas convencionais».

Serrano Masquida se considera um promotor das técnicas agroecológicas e assume que a transmissão do conhecimento e das experiências deve ser realizada de camponês a camponês, porque se mantém um processo de troca e de comunicação. Ao mesmo tempo, advoga pela disciplina e pelo cumprimento das normas agrárias para evitar condutas irresponsáveis que prejudiquem o meio ambiente e os solos. «O maior desafio é colocar os sucessos atingidos nas pesquisas científicas nas mãos dos produtores», indica.

Outra prática que teve muito sucesso foi construir biodigestores dentro das chácaras agrícolas para processar os excrementos do gado e gerar energia limpa e renovável para o consumo doméstico das famílias e dos povoados. Um defensor desta tecnologia é o jovem engenheiro elétrico Alexander López Savrán, que desde seus anos de estudo, na Universidade Central Marta Abreú, em Las Villas, pesquisa sobre isso.

Atualmente, com um mestrado concluído em sistemas elétricos, explora três hectares de terras entregadas pelo Estado cubano em qualidade de usufruto para a cria de Suínos. Hoje sua chácara se mostra como modelo da auto-sustentabilidade energética. «Ali toda a energia utilizada para a cozinha e para abastecer os equipamentos eletrodomésticos provém dos biodigestores».

Sua grande tarefa é ensinar outros produtores e demonstrar como com poucos recursos se pode acessar a energias limpas, algo aprendido por seu amigo Yunier Paz Martínez, formado em técnico médio em informática e que se desempenha como produtor suíno, pertencente à Cooperativa de Créditos e Serviços Sergio Soto, do município Cabaiguán, na província Sancti Spíritus.

Sistema de geração de energia a partir dos biodigestores. Photo: Nuria Barbosa León

«Na localidade onde eu moro» — explica o jovem —- «elaborei uma rede de distribuição de energia para abastecer várias famílias, a partir dos biodigestores. Posso fornecer gás por cano a oito casas e posso somar a esta rede umas 50. Meus planos são ampliar minha cria de suínos e desenvolver o tema do biogás, como forma de energia limpa a ser utilizada pelos camponeses cubanos».

Outro produtor agrícola, Noel González de la Concepción, formado em Engenharia em Agronomia, também construiu um biodigestor em sua chácara e abastece de energia a sua família e outra vizinha. Igualmente, as substâncias nocivas produzidas por esse biodigestor são vazadas em uma lagoa de oxidação e essa água é reciclada para irrigar os pastos e culturas, dando maiores nutrientes à terra.

Em sua chácara, Flor del Cayo, pertencente à Cooperativa Pátria ou Morte, de Cabaiguán, Sancti Spíritus, praticam-se muitas técnicas agroecológicas. «Aplico meus co-nhecimentos recebidos na carreira universitária e me apego aos avanços científico-técnicos para obter maiores rendimentos nas produções. Minha maior preocupação é assumir as novidades científicas para cuidar do meio ambiente e proteger os solos», aponta.

Existe grande quantidade de produtores no mundo que ignoram os benefícios de aplicar técnicas agroecológicas e preferem recorrer aos químicos porque consideram que têm um efeito mais rápido. Alegam, também, que a produção por hectare é inferior à obtida pela agricultura convencional, algo totalmente falso.

Em condições diversas, os números demonstram que, por exemplo, na Europa, os resultados são superiores em 30% quando se cultiva seguindo práticas agroecológicas, entretanto na América Central os avanços triplicam os da agronomia convencional.

Cuba pode mostrar um movimento de ampla participação popular, situando a produção agrária-ecológica como chave para a segurança alimentar, partindo de situar a agroecologia como uma política pública e obtendo resultados com mais contribuições humanas, que dinheiro ou outra tecnologia sofisticada.