ÓRGÃO OFICIAL DO COMITÊ CENTRAL DO PARTIDO COMUNISTA DE CUBA
A edição ilustrada do Diario del Che en Bolivia (direita) foi publicada pela primeira vez em outubro de 1987. Nesta versão aparecem todos os apontamentos do Guerrilheiro Heroico, além das fotos de todos seus companheiros de luta nesse país sul-americano. Até o momento este texto tem três edições, quatro reimpressões e foi traduzido a quatro idiomas. Photo: Yaimí Ravelo

EM 1968 — um ano depois da morte em combate de Ernesto Guevara de la Serna — foi publicado em Cuba o Diario del Che en Bolivia. Naquela edição faltavam 13 páginas que tinham sido censuradas, então, por militares bolivianos.

Além da omissão no texto, existia desconhecimento sobre o lugar onde estavam sepultados o combatente argentino–cubano e seus companheiros de luta.

Em meados dos anos 80 do século XX uma equipe de especialistas cubanos percorreu a rota que Che Guevara descreve no texto. Uma das investigadoras que trabalhou neste projeto é a reconhecida autora Adys Cupull Reyes.

«Nós queríamos que fosse didático. Che Guevara disse que comeram tatu e nós fotografamos o tatu. Queríamos apresentar os animais que ele menciona, para que os conhecessem».

«Levávamos câmeras. Aí começamos a tirar fotos dos lugares».

«A partir deste trabalho que nós fizemos, todo esse caminho que ele vai traçando no Diário nós o fomos seguindo, porém buscando e falando com as pessoas».

A investigação na terra boliviana teve o apoio dos moradores do lugar, os quais conduziram Adys e Froilán González García – também investigador — por intrincadas paragens, para que pudessem chegar àquelas que tinham as respostas a suas interrogantes.

«Eis a importância de gente humilde que durante 30 anos guardou esse segredo e cuidou do lugar onde estavam enterrados os cubanos e os bolivianos».

OS BOLIVIANOS NÃO ERAM CULPADOS

No começo dos anos 80 foram reatados os laços entre Cuba e a Bolívia. Neste contexto, nossa entrevistada chegou a esse país.

«Acho que Che Guevara estaria grato de que apareçam (no Diário, n.r.) todos seus companheiros», sublinha a destacada investigadora Adys Cupull Reyes, autora junto a Froilán González García dos livros De Ñancahuasú a La Higuera e La CIA contra el Che. Photo: Yaimí Ravelo

«Tínhamos lido sobre Che Guevara, porém só conhecíamos o Diário que apareceu no ano 68. Existia o interesse de conhecer mais porque já fizemos investigações sobre Julio Antonio Mella e sobre José Martí».

«Eu cheguei com a sensação e a imagem de que os bolivianos eram culpados pelo que tinha acontecido. Contudo, esta investigação fez-me conhecer a Bolívia e saber o quanto eles tinham sofrido».

«Teve coisas que se fizeram durante a investigação que se não tivesse sido pelo povo boliviano, não podiam fazer-se. Eles choraram quando os restos iam ser levados. Não queriam que os transferissem. Ali onde os guerrilheiros estavam enterrados agora há pedras e um mausoléu».

«Como parte da busca foi necessário entrevistar militares que na hora do assassinato de Che Guevara estavam desdobrados na zona próxima de La Higuera».

«Excetuando os que por exceção diziam que (Che Guevara, n.r.) estava sepultado, os militares desdobrados ali diziam que tinha sido queimado e as cinzas espargidas. Era uma versão oficial e de encontro a essa versão oficial nós começamos a investigar».

«Tivemos a colaboração de muitas pessoas, de arquivos que foram abertos, fotografias e documentos que nos entregaram. Isso nos encorajou e nos fez saber como eram eles (os bolivianos, n.r.). Não era como eu achava. Não eram culpados de nada. Tinham sido as vítimas».

FIDEL PREVISOR

A partir do que Che Guevara foi registrando nos apontamentos que tomou entre 1966 e 1967, e das visitas a lugares que menciona em seu caderno, os especialistas cubanos reafirmam que o texto publicado em 1968, com a introdução de Fidel Castro, tinha sido mutilado.

«Demo-nos conta de que faltavam páginas do Diário. Na introdução Fidel refere-se a isso quando diz: ‘(…) ainda não chegaram (…)’. Muito previsor! Ele sabia que iam chegar.

«Quando chegamos ali começamos a vasculhar entre os bolivianos, nas agências de imprensa como o jornal El Diario, no jornal Presencia, que era muito lido, e resultou que eles já tinham publicado acerca desse tema».

As imagens, as observações e as fotos que aparecem na edição ilustrada do Diario del Che en Bolivia foram feitas por Adys e Froilán, durante sua estada nesse país sul-americano, na década de 80.

«Não somente apareceram os nomes e as fotos dos lugares, das montanhas, das pessoas, mas também os mapas onde se travaram combates. São mapas que trouxemos da Bolívia. Aqui colaboraram conosco Harry Villegas, um sobrevivente, e Tamayo. Eles verificavam e ratificavam. Não foi uma coisa feita por uma única pessoa».

«Na busca indicamos, ainda, os lugares, os mapas e as fotografias; ampliamos as vozes que aparecem em quíchua, aimará e guarani, buscamos os significados com as pessoas que o falavam nessas regiões porque fomos acompanhados, em determinados momentos, por um guia que falava guarani. Depois, um professor dessa língua nos explicou acerca dos vocábulos».

TERMINA A MISSÃO

O ano de 1987 não só significou o vigésimo aniversário do assassinato de Che Guevara na Bolívia mas também o fim da missão que Adys estava realizando naquele país. Assegura que estiveram lá desde o ano 83, faz algumas precisões.

Faz algumas precisões para o Granma Internacional sobre o fim da pesquisa: «Já finalizando o ano 1986 tínhamos muitas fotos. Acho que foi a princípios de 87 que com tudo aquilo fizemos uma maqueta. Como podia ser o Diário ilustrado, de maneira que se pudesse entender mais? Já tínhamos as fotos dos guerrilheiros».

«Levamos essa maqueta ao comandante Juan Almeida porque ele estava à frente de una comissão de temas históricos. Foi uma conversação muito profunda. Ele olhou tudo, fez sugestões e finalmente nos disse: ‘O único que lhes peço é que sejam consequentes com o que vocês vão escrever e fazer’. E deram a tarefa à Editora Política para que fizesse a edição do Diário. Trabalhamos manhã, tarde e noite, com entusiasmo e com desejos de saber e de dar a conhecer os resultados».

Finalmente, em outubro de 1987 veio a público a edição ilustrada do Diario del Che en Bolivia. Desta vez, aparecem nele todas as páginas que trazia o original.

«Pela primeira vez, saíram as fotografias de cada um dos guerrilheiros. Ainda nos idos dos 80 não se sabia quem eram eles. Estavam os pseudônimos, mas não eram conhecidos os nomes. Inclusive, tivemos que buscar as fotos de alguns bolivianos no Departamento Central de Criminalística».

«Aí estavam os rostos daqueles que ele dizia que pertenciam na vanguarda, na retaguarda, os que tinham ficado fora porque entraram na guerrilha, mas não eram confiáveis e era preciso mantê-los à parte. Acabamos percebendo do número que era. Eram 50, no total, mas tinham sido desdobrados milhares de soldados ao seu redor».

Até à data, o texto foi traduzido para o inglês, o italiano, o turco e também para o russo; tem três edições, quatro reimpressões e continua sendo de interesse entre os que admiram o inesquecível combatente.

A DIMENSÃO INFINITA DE CHE GUEVARA

O objetivo inicial da investigação que levou Adys ao solo boliviano não era escrever sobre o Guerrilheiro Heroico. Mas os dados que recopilaram, as entrevistas realizadas e os lugares visitados, proporcionaram material suficiente para fazer mais de um livro.

Todas estas publicações não somente honram a memória do homem de proporções épicas que foi Ernesto Guevara de la Serna, mas também a de todos os que o acompanharam, entre 1965 e 1967, naqueles que foram seus últimos dias como lutador internacionalista.

«Um dos textos mais conhecidos La CIA contra El Che, em que mais uma vez os autores contaram com o apoio de camponeses e de pessoas humildes».

«Tivemos a ousadia de publicar isso no ano de 1992. Esse texto é um dos mais editados. Foi premiado pela Academia das Ciências de Cuba e pelo Instituto Cubano do Livro».

«Em De Ñancahuasú a La Higuera pode ser vista toda a dor e todo o sacrifício daquele pessoal humilde, que não conhecia nada de guerrilhas. Ele não sabia nada do que estava acontecendo».

«Neste momento está publicado um livro intitulado El rescate, já não é o De Ñancahuasú a La Higuera. Agora é De La Higuera a Chile. Fala sobre os sobreviventes, sobre como saíram esses homens dali, em meio da floresta, com tudo aquilo cheio de soldados. Neste livro novo está uma verdade. Foi publicado na Argentina. Aqui ainda não».

A chance única de ter estudado de perto os anos finais de Che Guevara deixaram um sinal na sensibilidade de Adys Cupull Reyes, quem, apesar de seu vasto traba-lho investigativo fala sobre Guevara com uma admiração ilimitada:

«Ele merece, não somente ele, mas todos os que morreram com ele. Acho que Che Guevara estaria grato de que apareçam todos seus companheiros no Diário. Com esse objetivo o fizemos, pensando que esse era seu desejo.»

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A história de Ita

EM 2017 também se completa meio século da morte de Tamara Bunke, Tania a Guerrilheira, membro da guerrilha de Che Guevara. Em homenagem à destacada lutadora alemã será estreado no Festival Internacional de Cinema Político de Buenos Aires o documentário La historia de Ita.

Este material audiovisual vai acompanhado de um livro da autoria de Adys Cupull e Froilán González, que é o resultado de entrevistas realizadas aos familiares dos combatentes que acompanharam Che Guevara na Bolívia.

A propósito deste trabalho, Adys oferece suas impressões: «Vão sair na Bolívia e na Argentina o documentário e o livro de Tania. Nós pensamos que para sua terra natal é necessário que ela volte e que volte como Ita, embora sela Tania a Guerrilheira, que é como todo mundo a conhece».