ÓRGÃO OFICIAL DO COMITÊ CENTRAL DO PARTIDO COMUNISTA DE CUBA

ZORAIDA Montaño não tem casa própria. Há quase duas décadas seu lar é o dos talheres, uma casa visitada anualmente por milhares de cubanos e estrangeiros para se deleitarem. «Não se pode fechar as portas aos filhos. É preciso ajudá-los. Eu gosto das visitas das pessoas, constantemente, que entre todo aquele que puder», assevera a idosa.

Quando a gente entra na casa acaba compreendendo por que ela não se incomodou quando, em 1981, seu filho Victor Rafael Blanco resolveu converter o lar em um altar de obras realizadas com colheres, facas e garfos e todo o tipo de utensílios de cozinha. Por que não ficou chateada pelo fato de seu lar, localizado no centro da cidade de Ciego de Ávila, acabasse tendo uma oficina de ourivesaria no quintal e uma galeria de arte na sala.

De pé na cozinha, Zoraida me revela: «Eu não sei inglês, filha. Às vezes, os turistas falam e eu não compreendo o que eles dizem, até que alguém me explica».

«Com certeza, eu sei que as pessoas gostam de vir porque aqui trabalha o grupo Pauyet, um símbolo da cultura cubana».

Então parece que há uma evocação da História da colher e o garfo, que José Martí contou às crianças em A Idade de Ouro. Há uma sensação de que no quintal de Zoraida Montaño, com uma estante lotada de tartarugas e plantas, «a gente está nas entranhas da terra, lá onde há tanto fogo quanto no mar».

Dessa forma se funde em um forno a alpaca. A mesma mistura de zinco, cobre e níquel, que em 1819 inventaram os francese de Maillot e Chorier. O mesmo metal branco concebido para imitar o revestimento de prata, que inicialmente alcunharam em Paris maillechort. O mesmo que ainda hoje, destaca por sua facilidade para ser trabalhado à temperatura do ambiente e sua resistência à corrosão.

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Precisamente foi a alpaca o começo do grupo Pauyet na casa de Zoraida Montaño. Segundo descreve a religião ioruba, amplamente enraizada na Ilha maior das Antilhas, Pauyet é uma voz de origem africana, que significa, mão com vara de prata e constitui um atributo do orixá Obatalá (divinidade da Regra de Osha na religião afrocubana).

«Dentre os fundadores tinha um deles que acreditava muito nos orixás e escolheu o nome porque a alpaca é parecida com a prata», explica Raudel Ruiz, integrante de Pauyet há sete anos. Raudel, também membro da Associação Cubana de Artesãos e Artistas (ACAA) assevera que não tinha melhor forma de identificar uma iniciativa destinada a conformar pequenas esculturas, utilizando como matéria-prima fundamental os talheres de alpaca.

A partir do começo, Pauyet se propôs inovar. Quis que se juntassem o útil e o belo em uma mesma peça. Pôs todo o talento de várias gerações de artistas (o mais das vezes autodidatos) para que sua ideia fosse conhecida dentro e fora da Ilha. Como resultado, já apresentou mais de 55 exposições em países como o Brasil, Argentina, Portugal, Espanha, Canadá, Itália, onde expôs durante dois anos em uma galeria, e na Rússia onde participou, em 2012, do tradicional Festival das Noites Brancas.

«Somos quase uma dezena de trabalhadores e só um, que é instrutor de arte, possui formação especializada. Os restantes somos empíricos; a maioria jovens. Pauyet transcendeu por ser uma escola de artistas, que deixaram seu legado no grupo e que conseguiram fazer uma obra própria», indica o artesão.

Segundo Ruiz: «Todos aqueles que transitaram por Pauyet deixaram seu legado. Seus designs ainda se reproduzem porque fazem parte do grupo. Toda criação com valor estético perdura. Também cada integrante pode expor individualmente. Respeitamos o individual e o coletivo».

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Visto que o aço substituiu a alpaca e esse tipo de talheres quase nem se fabrica, a matéria-prima é obtida, fundamentalmente, de pessoas que a conseguem na Ilha e a vendem.

Igualmente, Pauyet recebe abundantes donativos de seus visitantes e desenvolve uma nova linha de joalharia na qual utiliza, predominantemente, o coral negro e a concha de abalone. «Há clientes que chegam pela primeira vez, veem o trabalho que fazemos, e após um ano chegam, inclusive da Inglaterra, com uma mochila com talheres de alpaca. Não há gesto mais belo que esse», destaca Ruiz.

No entanto, acrescenta:«Levamos um controle exaustivo da matéria-prima, do que consumimos e compramos no ano, e há um equilíbrio total. Não nos preocupa que se esgote. Com aquele que temos, ao ritmo que levamos, há talheres, talvez, para sete ou oito anos mais. O futuro de Pauyet depende do humano, não do material».

Não poucos especialistas referem que o projeto é mais do que uma casa-oficina-galeria, constitui um centro cultural, uma mostra do mais destacado da ourivesaria de Cuba do século XXI que é reconhecida social e institucionalmente.                           

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Pelo fato de realizar um troca direta como os criadores, a observação do processo de elaboração da peça e a aquisição de peças únicas, no lar de uma família cubana, Pauyet é também um motivo de atração turística, pelo qual chegam até ali visitantes, em quase em todos os percursos procedentes de Jardines del Rey, ao norte do território de Ciego de Ávila.    

«Ao nosso destino chegam turistas fundamentalmente do Canadá e do Reino Unido. Na temporada alta predominam os russos, polacos e franceses. Igualmente, muitos clientes procedentes de outros recantos geográficos cubanos, sobretudo, estrangeiros que apostam na modalidade de circuitos e viajam a Trinidad ou Camaguey», assinala o entrevistado em uma conversa com o semanário Granma Internacional.  

O tempo que demora o processo para fabricar uma peça, é claro, corresponde-se com a complexidade da mesma e a destreza que haja adquirido o fabricante. «A variedade de gostos é muito ampla e para isso trabalhamos. Não obstante, o mais demandado são carros e motos, aves, cavalos, que são símbolos de força e rebeldia e qualquer peça que possa ser presenteada a uma mulher», expressa Ruiz.

«Por outro lado, acrescenta o criador, trabalham por encomenda. Por exemplo, nunca tinha sido feita a figura de um porco; mas chegou um camponês e mandou fazer um para o pai. Depois vieram canadenses, que se dedicam à cria de suínos e adoraram a reprodução daquela peça, que para nós era simples».

Dessa maneira, Pauyet também vende suas obras em várias galerias de Havana, em algumas do Fundo Cubano de Bens Culturais, localizadas em importantes destinos turísticos e em uma aberta por essa mesma instituição, no município de Moron, no próprio Ciego de Ávila, e desenhou inúmeros reconhecimentos, entre os que se destacam os prêmios do Torneio Internacional da Pesca da Agulha e do festival Cubadisco.

Em 2014, o grupo participou, pela primeira vez, de um Festival de Arte nos Estados Unidos. «Entre mais de 500 artistas concorrentes, o grupo conseguiu o segundo prêmio em escultura, por uma peça de O Quixote», lembra Raudel Ruiz.

Com dois galardões na Feira Internacional de Artesanato que anualmente realiza Cuba, a indicação, em 2006, ao prêmio de artesanato da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura, o carimbo do Mestrado Artesanal e o prêmio Manos, máxima distinção que entrega a ACAA, a iniciativa fundada por Rafael Blanco se sente recompensada.

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«Como vestidas de prata», em palavras de Martí, culminam as obras no quintal de Zoraida Montaño. Deixam de ser talheres, para se converter em obras que expressam o mais autêntico da imaginação humana. A partir daí, ficam gravadas nas lembranças daqueles que se sensibilizam com o que é diferente.