ÓRGÃO OFICIAL DO COMITÊ CENTRAL DO PARTIDO COMUNISTA DE CUBA
O presidente estadunidense John F. Kennedy (esquerda) e seu vice-presidente Lyndon Johnson, nos jardins da Casa Branca. A Administração Kennedy se enfrentou, nos primeiros dias de abril de 1961, ao conflito do quê fazer com a Brigada 2506 depois de sua derrota e devolução a território norte-americano. Photo: UPI

DURANTE a fase de proselitismo das eleições gerais de 2016, nos Estados Unidos, o candidato republicano Donald Trump, em uma de suas digressões, visitou o estado da Flórida, especialmente àqueles exilados cubanos que moram em Miami-Dade, onde existe a maioria dos eleitores dessa origem, e lar das organizações extremistas de origem cubana que há mais de meio século vêm invocando a violência como meio para alcançar seus objetivos políticos.

Uma delas é a Associação dos Veteranos da Baía dos Porcos, cujo nome derivou da derrotada Brigada de Ataque 2.506, em abril de 1961, formada por perto de 1.500 cubanos selecionados, treinados, armados e dirigidos pela CIA, para atacar a pátria, acontecimento que terminou em um fracasso total, com a captura da maioria dos integrantes, em pouco mais de 66 horas. No final de 1962, retornaram aos Estados Unidos com desejos de retaliação, embora já nessa data não fossem tão estimados pela administração democrata no poder.

Um dilema surgiu novamente: o quê fazer com eles?, perguntavam os políticos da época. Alguns escreveram propostas e as enviaram para sua aprovação. Em 29 de dezembro de 1962, o presidente fez a promessa ‘solene’ de devolver-lhes em uma Cuba já livre, a bandeira cubana supostamente usada pela Brigada 2.506 durante a invasão de Girón; ambos estavam enganados. Aquela tal bandeira era falsa, nunca esteve na Ilha, foi feita para a ocasião, o presidente também não cumpriu e sua devolução foi feita, anos mais tarde, pelo correio.

No entanto, documentos secretos norte-americanos, revelados ao longo dos últimos anos, foram se encarregando de colocar cada peça em seu lugar histórico e revelar o que realmente aconteceu. Esta ideia do que fazer com os retornados foi tomando forma e conteúdo; em 25 de janeiro, no resumo da 38ª reunião do Comitê Executivo do Conse-lho de Segurança Nacional [1], as propostas e sentimentos acerca da outrora queridinha Brigada pareciam revelar uma realidade não declarada no discurso de boas-vindas. Com a presença do presidente na dita reunião, o senhor Cottrell Sterling J., coordenador para os Assuntos de Cuba no Departamento de Estado usou da palavra e disse, de acordo com a ata da reunião:

Chegada aos Estados Unidos dos mercenários da fracassada invasão por Playa Girón, estes foram liberados pelo governo revolucionário cubano. Photo: Archivo

«A recomendação que abrange nossa política em relação à Brigada cubana... é que ninguém é a favor de continuar com a Brigada como o núcleo duro e todos defendiam um curso médio de ação».

«O general Maxwell Taylor expressou suas reservas acerca de permitir aos elementos da Brigada tornar-se elegíveis para serem membros de uma unidade da reserva. Ele estava preocupado que estas unidades se tornassem políticas. Entretanto, o senhor McGeorge Bundy expressou sua visão de que o curso de ação proposto seria difícil de vender para os membros da Brigada».

«O procurador-geral explicou a sua opinião em detalhes. Outros membros iriam escolher passar o treinamento militar, enquanto outros poderiam ser úteis colocados em unidades das forças especiais atribuídas a países da América Latina».

«O procurador-geral pensava que os membros da Brigada deviam ser tratados como parceiros iguais... A fim de impedir que se tornassem hostis, ganharíamos muito deles, caso os manejássemos corretamente. Uma maneira seria dizer-lhes honestamente que agora não podemos invadir Cuba e que eles podem... fazer tarefas em outros países latino-americanos, como membros das forças especiais...»

«O procurador-geral concluiu dizendo que os membros da Brigada deviam participar de alguma forma no planejamento de nossas ações de inteligência. Reconheceu que uma das razões pelas quais até agora não se fez foi por causa da reputação que tinham os cubanos de ser incapazes de guardar um segredo. O senhor McCone, da CIA, insistiu em usá-los como um recurso, de preferência trabalhando com seus membros individuais».

Este resumo mostra os sentimentos dos principais colaboradores do então presidente acerca da Brigada e seus membros, mas dias depois outras opiniões mostraram a opinião generalizada sobre os mercenários.

Em 24 de janeiro de 1963 foi realizada a reunião do comitê executivo do Conselho de Segurança Nacional, para discutir um memorando enviado pelo coordenador dos Assuntos Cubanos, com um único tema: a Brigada Cubana.

Foram propostos três possíveis cursos de ação: Primeiro, induzir a que a Brigada fosse desmontada como uma unidade militar sem uma assistência especial adicional por parte dos Estados Unidos. Esta opção tinha a seguinte avaliação: «Este curso de ação seria a maneira mais econômica e simples para se livrar do problema».

Aproximadamente 1 500 cubanos, selecionados, adestrados, armados e dirigidos pela CIA estadunidense para invadir a Pátria de origem, terminaram em um total fracasso com a apreensão de seus soldados em pouco mais de 66 horas. Photo: Archivo

A segunda era: «Treinar a Brigada e os cubanos como uma unidade. Mantê-los e apoiá-los como um componente militar da reserva das forças armadas norte-americanas».

A consideração a este respeito, indicava: «No entanto, inevitavelmente... a moral, a disciplina e o espírito seriam difíceis de manter, a longo prazo, sem o objetivo inicial de retornar a Cuba. Isto poderia gerar uma crítica política e militar nacional, ao incorporar grupos estrangeiros organizados no componente da reserva das forças armadas norte-americanas. Há o risco de que um ato impulsivo e irracional dos membros da brigada, como membros das forças de reserva dos EUA, poderia ser uma fonte de desconforto sério para os Estados Unidos».

A terceira e última era: «...um programa militar e civil para os membros da Brigada. Incentivar a Brigada a continuar sendo uma unidade fraternal».

De acordo com o verdadeiro propósito da administração Kennedy, esta variante iria permitir: «...dispersar geograficamente os membros da Brigada em diferentes atividades, desmantelando assim, de maneira efetiva a atual Brigada como um todo, como uma unidade». Quanto a esta proposta, o coordenador escreveu: «Eu recomendo o curso 3, um programa especialmente concebido para os membros da Brigada».

E acrescentou: «Eu recomendo induzir... a Brigada de aceitar esta proposta... se este curso de ação é aprovado. Devido à falta de um uso militar imediato para a Brigada, devemos desmantelar esta como tal».

O ponto culminante do seu juízo foi: «Nós devemos oferecer-lhe alguma ajuda especial, mas não ao ponto de se tornar uma classe privilegiada, em perpetuidade, dentro da comunidade». Dessa forma foi projetado o fim da Brigada 2506, que mais tarde derivou na Associação dos Veteranos da Baía dos Porcos.

Durante o segundo semestre do ano 2016, os preparativos finais para as eleições gerais nos Estados Unidos estavam no ponto culminante. Mas antes de domingo 24 de abril, a Brigada 2.506 havia realizado as eleições bienais para eleger o conselho diretivo. Vários candidatos foram apresentados e foi triunfante a liderada por Humberto Díaz-Arguelles, como presidente; também composta por Aurelio Pérez Lugones, formado em Fort Benning e outros mercenários, assessorados, entre outros, pelo torturador da ditadura de Fulgencio Batista, José Ramón Hernández Conte, conhecido como El Chama.

Terça-feira 25 outubro daquele ano a Associação de Veteranos recebeu a visita do candidato presidencial republicano Donald Trump. Para parabenizá-lo, a diretiva, pela primeira vez em sua história, decidiu anunciar publicamente seu apoio a um candidato para a Casa Branca.

Nessa reunião, o novo presidente dos envelhecidos mercenários disse: «Nossa decisão era óbvia» e «os valores do senhor Trump e sua agenda política estão mais alinhados com a nossa, do que com a agenda progressista e socialista de Hillary Clinton ou os democratas».

Todos estes mercenários prestaram homenagem ao candidato republicano, que disse: «Ao povo cubano, nós sabemos o que temos que fazer e o vamos fazer, por isso não se preocupe com isso».

Nesse momento, Trump não lembrou quando a administração Kennedy se enfrentou nos primeiros dias de abril de 1961, ao conflito do que fazer com a Brigada 2.506, quando o presidente disse, conforme registrado pelo contrarrevolucionário Enrique Ros Pérez em seu livro Girón. A True Story (Girón: A verdadeira história) [2]: «Temos que desligar-nos destes homens. É muito melhor jogá-los em Cuba do que nos Estados Unidos. Especialmente se for lá onde eles querem ir» •

* Pesquisador do Centro de Pesquisas Históricas da Segurança do Estado

1 Biblioteca Kennedy, Arquivos de Segurança Nacional, série de reuniões e Memorando, Reuniões do Comitê Executivo, Vol. IV, 38-42. Top Secret; Sensible. Este registro é Parte I; Parte II diz respeito à política europeia.

2 Ver Enrique Ros Pérez, Giron. The True Story, Ediciones Universal, Miami, Florida, 1994. p. 217.