ÓRGÃO OFICIAL DO COMITÊ CENTRAL DO PARTIDO COMUNISTA DE CUBA
Esta embarcação única vai ficar em Cuba até 8 de agosto. Foto: Tomada de internet

TALVEZ nem os criadores mais imaginativos de muitas das tecnologias que marcaram o progresso da humanidade, no último meio século, conceberam a existência de um navio capaz de navegar no oceano alimentado apenas por energias renováveis.

Tampouco aqueles que, depois de terminar a Segunda Guerra Mundial, promoveram a expansão internacional da produção de plásticos, puderam ter pensado que em algum momento seus resíduos (garrafas, frascos, caixas) representam 80% dos resíduos poluentes do mar e estão causando, cada ano, a morte de milhares de aves, tartarugas e outras espécies, que engolem estes desperdícios.

De acordo com os resultados de vários estudos internacionais realizados na área conhecida como a Grande Lixeira de Plástico do Pacífico, a massa de objetos plásticos lá é seis vezes maior do que o plâncton.

Outras regiões do mundo também mostram uma elevada poluição do mundo marinho, associada a compostos tóxicos antropogênicos, com alta presença do referido material, que em muitos casos se acumula e flutua à deriva, simulando «pequenas ilhas».

Segundo afirmam alguns estudos, caso se manter essa tendência, em 2050, os oceanos vão conter mais plástico por peso do que peixes.

Portanto, entre os propósitos que animam a viagem ao redor do mundo da embarcação suíça Race for Water Odyssey, que começou em 9 de abril, na Europa e cuja chegada ao porto de Havana teve lugar na quinta-feira, 20 de julho, estão os de propor soluções destinadas a reduzir a quantidade anual de resíduos de plástico nas águas marinhas e demonstrar com evidências inquestionáveis a capacidade de navegar com energias limpas não poluentes.

UMA PARADA OBRIGATÓRIA

Um protótipo inovador daquilo que poderá ser a navegação do futuro, a Race for Water Odyssey é alimentada e impulsionada apenas pela combinação de energia solar, eólica e o hidrogênio.

Parte do pessoal que viaja a bordo da Race for Water Odyssey; a segunda da esquerda para a direita é a especialista Camille Rollin. Foto: Tomada de internet

Assim, por exemplo, tem 500 metros quadrados de painéis solares dispostos no convés superior e nas duas asas exteriores do catamarã ecológico, capazes de fornecer eletricidade suficiente para mover o navio a uma velocidade média de cerca de cinco nós.

Também tem instaladas baterias de lítio que armazenam energia captada do sol para usá-la para navegar à noite e caso predominar o céu nublado em certas seções do caminho.

Durante uma visita ao navio, coordenada pela Fundação Antonio Nunez Jimenez para a Natureza e o Homem, durante o qual houve uma apresentação do projeto Acualina, Camille Rollin, no comando do projeto científico do navio, explicou ao Granma Internacional que a embarcação conta, também, com uma pipa de tração de última geração, de 40 metros quadrados, que, ao ser desdobrada, atinge uma altura de 150 metros.

Trata-se, disse, de uma solução eficaz destinada a uma utilização ótima do vento, de forma a duplicar a velocidade do barco sob certas condições atmosféricas e obter maior autonomia no deslocamento.

É igualmente impressionante uma moderna tecnologia para a produção de hidrogênio a partir da transformação da água do mar. O hidrogênio é armazenado em tanques, como uma reserva, para transformá-la em eletricidade quando necessário, através de duas células de combustível de 30 kW cada. Eles mantêm o nível de carga das baterias ou alimentam diretamente as hélices.

De acordo com a especialista Camille Rollin, o navio é um modelo de transição energética para fontes alternativas não poluentes do meio ambiente. «Os únicos resíduos produzidos são calor e água», disse ela.

Esta embarcação, pertencente à Fundação Race for Water, criada em 2010 pelo empresário suíço Marco Simeoni, para promover a transformação dos resíduos plásticos em recursos energéticos e sensibilizar as novas gerações acerca da urgência da conservação dos oceanos, chegou a Cuba vinda das ilhas Bermudas, que é a segunda etapa de uma longa jornada de cinco anos, que inclui ficar nos Jogos Olímpicos de Tóquio, em 2020 e a participação na World Expo, em Dubai, no ano seguinte.

Camille Rollin diz que para eles era muito importante incluir Cuba nesta primeira turnê mundial a bordo da Race for Water Odyssey.

«Por causa de sua condição de arquipélago com um alto tráfego marítimo nas águas circundantes, Cuba está fortemente exposta ao impacto ambiental causado pelos detritos deixados por tantos navios e pretendemos abrir espaços para colaborar no enfrentamento da poluição dos oceanos, especialmente em relação à reutilização ou reciclagem de resíduos de plástico».

«A outra razão é que sabemos do alto nível científico das instituições cubanas envolvidas nas pesquisas dos oceanos e vamos aproveitar nossa visita para fazer expedições conjuntas neste curto espaço de tempo, além de trocar experiências sobre a gestão de resíduos e a utilização das energias renováveis», disse Rollin.

O navio ecológico permanecerá no país até 8 de agosto e na preparação de sua visita envolveram-se o Ministério da Ciência, Tecnologia e Meio Ambiente (Citma), a Embaixada da Suíça em Cuba, o Centro de Estudos Ambientais de Cienfuegos e a Fundação Race for Water. Com capacidade para acomodar de 12 a 15 pessoas, incluindo a tripulação e os pesquisadores, sua propulsão silenciosa é ideal para a observação de vida marinha enquanto o deslocamento a baixa velocidade lhe dá condições extremamente favoráveis na hora de tirar amostras e medições de vários parâmetros relacionados à qualidade da água.