ÓRGÃO OFICIAL DO COMITÊ CENTRAL DO PARTIDO COMUNISTA DE CUBA
O psicólogo José Antonio Díaz Nóbregas considera que a recuperação a uma dependência, chame-se tabagismo, alco-olismo ou outra droga, é um processo para toda a vida e é recomendável vincular-se a um grupo de apoio como ajuda para manter por sempre os bons propósitos. Foto: Nuria Barbosa León

MUITOS especialistas consideram os vícios, modificadores do comportamento dos indivíduos, como uma tragédia da humanidade pelo consumo irresponsável de tóxicos e a apreensão irracional a fantoches da sociedade moderna atual com sua grande parafernália tecnológica e sua incitação ao jogo, ao mercado e à Internet.

A significação humana desta catástrofe seria subvalorizada se esquecêssemos os que a sofrem em forma indireta. Referimo-nos aos cônjuges, pais, filhos, irmãos, familiares próximos ou afastados, amigos, vizinhos a até desconhecidos vítimas de acidentes e outros atos de violência.

Tudo isso nos alarma se conhecemos dados atualizados da Organização Mundial da Saúde, os quais expõem que o abuso e dependência de drogas legais (álcool, fumo, infusões), de prescrição médica (fármacos) e ilegais (maconha, anfetaminas, cocaína e opiáceos) se relacionam com 12,4% dos óbitos por qualquer doença e 8,9% do total dos anos perdidos por deficiência.

Devemos salientar que 50% deste trágico número está vinculado ao consumo de álcool, produzindo anualmente 200 mil óbitos, 25 mil deles por acidentes de trânsito que deixam também 150 mil pessoas com invalidez física ou mental e a quarta parte dos 4 mil trasplantes hepáticos realizados em um ano.

Algo similar ocorre com o tabagismo, único produto de consumo em massa, legalmente vendido, que mata metade de seus consumidores crônicos. Prejudica de múltiplas maneiras o indivíduo, a sociedade e o meio ambiente. Dados estatísticos de organismos internacionais divulgam que a cada ano morrem no mundo, por este vício, cerca de cinco milhões de pessoas. Metade destes óbitos ocorrem entre os 30 e 69 anos, perdendo-se mais de 20 anos de esperança de vida. Cada cigarro consumido encurta em sete minutos a vida do fumante.

Para o doutor e secretário da Sociedade Cubana de Psiquiatria e presidente da seção de abuso de substâncias, Juan Emilio Sandoval Ferrer, os vícios são caracterizados por uma relação de submissão perante as substâncias ou atividades às quais as pessoas são adictas, que fazem com que percam sua liberdade para saciar sua necessidade, cada vez mais crescente, até padecer sintomas desagradáveis: emocionais, mentais ou fisiológicos.

O professor Juan Emilio Sandoval Ferrer define os vícios como um comportamento compulsivo e incontrolável a uma substância, costume ou prática, de tal magnitude que em sua ausência se produzem graves reações emocionais, mentais e fisiológicas. Foto: Nuria Barbosa León

O também mestre em Ciências em Psiquiatria Social e Psicologia clínica, considera que o alcoolismo em Cuba é definido como uma doença com incidência em 4% da população maior de 15 anos e avaliada como toxicomania modelo e porteira.

Esses números mantêm uma tendência ao crescimento, nos últimos anos, devido a que se converte o fenômeno em um problema global, de difícil manejo para os governos locais, com raízes nas tradições culturais nacionais e nos modelos de consumo do capitalismo atual. Também, «em nosso país existe uma certa permissividade ao consumo excessivo de álcool e, às vezes, tolerância aos estado de embriaguez, mas há um franco rechaço à utilização das drogas ilegais», adverte o professor da Universidade das Ciências Médicas de Havana.

SOLUÇÃO AO PROBLEMA

Afirma que o sistema nacional de saúde de Cuba garante o tratamento aos vícios de forma gratuita para o paciente e sem escatimar recursos materiais nas instalações sanitárias. As terapias envolvem os familiares e o maior esforço é destinado à prevenção desse problema social.

O psiquiatra aponta: «Os vícios não respeitam idades, gêneros, nenhum tipo de filiação ou crença. Emergem do contexto familiar porque aí se aprendem e reproduzem os modelos de comportamentos. Seu saneamento deve ser social com intervenções no grupo de amigos, nos centros docentes e de trabalho».

Exemplifica com a detecção de um adolescente pego pelo álcool e outras substâncias. «Nesse caso, explica, «devemos desenvolver ações de prevenção na escola para provocar uma atitude de rechaço ao consumo entre os alunos». Portanto, o médico considera que as ações preventivas nunca estarão esgotadas e sua efetividade se mede na decisão responsável de retardar a primeira aproximação e de evitar envolver-se em um ambiente proclive a essas atitudes.

Para ele, é benéfico em Cuba, a estreita relação existente em todos os níveis da sociedade entre as instituições sanitárias e as docentes para esgotar todas as potencialidades em dialogar sobre o tema desde idades precoces, primeiro com a incorporação aos planos de estudo, depois com as palestras de especialistas, a divulgação em murais e a intervenção do médico da família. «O jovem deve aprender rápido o risco dos vícios e o daninho dos mesmos», afirma.

VARIEDADE de VÍCIOS

Os cubanos também têm tradição cultural de beber café, algo legítimo, majoritariamente aceito e promovido em determinado âmbito social, mas quando aparecem sintomas de dor de cabeça, irritabilidade, ansiedade e outros, estamos na presença de um ingestão excessiva, que pode levar a níveis de dependência.

O consumo de álcool se vincula anualmente a 200 mil óbitos. Foto: Nuria Barbosa León

Igual acontece com o uso de medicamentos, pelo costume indisciplinado de desobedecer as prescrições dos médicos e automedicar-se.

«Muitos fármacos criam hábitos e o ideal é consumi-los pelo tempo indicado e sob os cuidados dos médicos», aponta Sandoval Ferrer.

O avanço das tecnologias e as comunicações vão afastando aos seres humanos da socialização e de sua capacidade de dialogar cara a cara no cotidiano. Ainda que esse tipo de comportamento já se apresente em Cuba, não tem indicadores alarmadores como em outros países desenvolvidos do mundo.

Apresentam-se comportamentos dependentes incipientes no uso dos computadores, os jogos virtuais, os celulares e equipamentos eletrônicos. E a obsessão pela compra de artigos desnecessários existe pelas campanhas compulsivas e de marketing, promovendo produtos na mídia.

Com relativa frequência começa a incidir a dependência ao trabalho como aquelas pessoas que cotidianamente levam tarefas de trabalho à casa e podem chegar a desentender-se de si mesmos e da família.

«Por fortuna, por nossos costumes e hábitos nas relações sociais, os cubanos assumimos barreiras bastante protetoras rumo à socialização e nos oferecemos carinho e amor», resume o médico.

CONCLUSÃO

O Granma Internacional visitou uma psicoterapia grupal anti-alcoólica no Hospital Universitário General Calixto García da capital, que funciona na tarde das quartas-feiras e dialogou com alguns pacientes.

Eles referiram a necessidade de buscar ajuda profissional para livrar-se definitivamente dos envenenados produtos. Asseguraram que o primeiro passo para erradicar uma dependência é reconhecê-la tal qual é e padecê-la não o converte em uma pessoa má ou pervertida, mas em uma vítima. Também não é sinal de fraqueza aproximar-se de um conselheiro profissional porque, às vezes, pode derrotar-se em solitário, mas na maioria dos casos se deve procurar alguém de confiança para falar francamente do problema.

Uma vez eliminada a fase ativa da dependência, é necessário mudar estilos de vida, desde o sistema de crenças e valores, hábitos comportamentais, motivações e afastamentos das amizades pouco recomendáveis por novas pessoas com estilos de vida saudáveis. Também recomendaram aceitar convites ou planejar atividade a lugares onde, com certeza, não haverá fumantes, alcoólicos ou toxicômanos.

Com eles concorda o psicólogo José Antonio Díaz Nóbregas, coordenador do grupo e reconheceu que este tipo de reabilitação se consegue com o tempo de persistência em seu enfrentamento, superior ao ano. Há quem precisa uma internação total e por 21 dias são aplicados medicamentos desintoxicantes, enquanto outros se integram às sessões terapêuticas.

Acrescenta: «Não distinguimos sexo, idade, profissão ou nível acadêmico. Os grupos são heterogêneos e abertos. Entram e saem por decisão própria. A dinâmica consiste em trocar experiências e receber apoio de outras pessoas. Participa o paciente com seus familiares, amigos e conhecidos. Focamo-nos no crescimento emocional e nunca proibimos deixar de consumir».

«Nós não mudamos as pessoas, mas que a própria pessoa se muda a si própria», acrescenta o também mestre em Psicologia Clínica e em Saúde Mental. Assegura que estas terapias pretendem encontrar ferramentas próprias às motivações pessoais como forma de retornar à essência social e conseguir a máxima reinserção à família, às atividades de trabalho e de estudo.

Nesse processo de crescimento são mudados estilos de vida para criar confiança, encaminhando as atividades prazerosas sem uso de substâncias e propondo encontrar a beleza da vida. Eles recebem conselhos, mas as decisões são individuais.

Similar critério é oferecido pelo licenciado em Psicologia Miguel Cañedo Briones, que participa de forma voluntária no grupo para cooperar nas dinâmicas terapêuticas, mas alerta acerca de uma maior difusão dos efeitos daninhos dos vícios com pôsteres ilustrativos nos consultórios, policlínicas, pontos de expedição, escolas e outros.

Atualmente, observa-se um debate mais aberto porque a União dos Jovens Comunistas e as organizações estudantis analisam o assunto a partir de manifestações inadequadas em espaços públicos e festivos, que levam à indisciplina social.

Elogiaram o trabalho pedagógico e diferenciado focado à prevenção do consumo de entorpecentes pelos adolescentes. Também, reconheceram o papel das famílias e dos educadores, junto à mídia, como auxiliares, meritório na hora de chamar a atenção sobre situações cardinais que, como a explicada, sem ser sistemáticas, merecem uma reflexão.