ÓRGÃO OFICIAL DO COMITÊ CENTRAL DO PARTIDO COMUNISTA DE CUBA
Fidel sempre defendeu uma melhoria nas relações entre os Estados Unidos e Cuba na base do respeito à soberania de nosso país. Photo: Arquivo

ESTE é o primeiro ano sem Fidel. Ao menos o primeiro ciclo de 365 dias que fechará sem a presença física do líder histórico da Revolução, sem a possibilidade de um novo conselho ou alerta, como aquela que fez no 7º Congresso do Partido sobre o esforço sobre-humano que envolve governar qualquer povo em tempos de crise.

Mas Fidel nos deixa sobretudo um guia de pensamento, uma forma de entender o mundo através de suas ideias, que jamais perderá vigência. Como os filósofos continuam lendo Aristóteles, os revolucionários de hoje e amanhã irão na procura do guerrilheiro da Serra Maestra, do estadista que pôs no mapa político um pequeno arquipélago do Caribe.

Dispersas entre milhares de discursos, artigos, reflexões e entrevistas, há respostas a algumas perguntas que nos fazemos neste 2017. Há também interrogantes que continuam pendentes em uma sociedade que prefere a ignorância: Como se alimentarão milhões de pessoas sem acesso à água ou recursos naturais básicos? O que fazer para fechar uma brecha cada vez mais ampla entre as nações desenvolvidas e as pobres? Quem pagará a conta da deterioração ambiental? Para que servirão as armas nucleares em um mundo atacado pela pobreza e a fome?

O Granma Internacional compartilha com seus leitores um percurso por alguns dos temas que marcam a atualidade global através das reflexões e ideias do Comandante-em-chefe:

AS AMEAÇAS DO MILITARISMO

Fidel é um símbolo da luta revolucionária. Mas sempre chamou a calibrar o «momento histórico» e respeitar as condições de cada país. Se o uso das armas, sob estritos princípios éticos e contra a opressão, estava justificado no pensamento de Fidel, o militarismo e as ameaças à paz mundial das grandes potências se converteram em uma perene fonte de preocupações.

Os nexos entre Fidel e Chávez, quase de pai e filho, reforçaram as históricas relações entre Cuba e a Venezuela. Foto: IMPRENSA PRESIDENCIAL VENEZUELANA

Fidel eludiu ameaças de todo calibre durante mais de meio século de enfrentamento com a maior potência militar da história, situada a apenas 90 milhas de nossas costas. Sua experiência nesta área chegou a ser incomensurável.

Em seu último discurso público durante o 7º Congresso do Partido Comunista de Cuba, realizado no ano passado, abordou esse tema: «Talvez, contudo, o perigo maior que hoje peneira na terra deriva do poder destrutivo do armamento moderno que poderia socavar a paz do planeta e tornar impossível a vida humana na superfície terrestre».

Como estadista de tamanho universal, Fidel explicou aos cubanos a origem e as consequências de dezenas de conflitos armados ou sociais que aconteceram no mundo nas últimas décadas.

A instabilidade na península coreana, que por estes dias volta a ocupar as manchetes de imprensa, foi abordada por ele em uma reflexão de abril de 2013 intitulada «O dever de evitar uma guerra na Coreia»

Criticou então «a gravidade de um fato tão incrível e absurdo como é a situação criada na península da Coreia, em uma área geográfica onde se agrupam quase 5 dos 7 bilhões de pessoas que neste momento habitam o planeta».

«Trata-se de um dos mais graves riscos de guerra nuclear depois da Crise dos Mísseis em 1982 em torno a Cuba, há 50 anos. Na península coreana, o general Douglas MacArthur quis utilizar as armas atômicas contra a República Popular Democrática da Coreia. Nem sequer Harry Truman o permitiu», acrescentou.

«Segundo se afirma, a República Popular da China perdeu um milhão de corajosos soldados para impedir que um exército inimigo se instalasse na fronteira desse país com sua Pátria. A URSS, por seu lado, forneceu armas, apoio aéreo, ajuda tecnológica e econômica.

«Se ali estourar um guerra, os povos de ambas as partes da Península serão terrivelmente sacrificados, sem benefício para nenhum deles. A República Popular Democrática da Coreia sempre foi amistosa com Cuba, como Cuba foi sempre e continuará sendo com ela».

Sobre a Síria, outro conflito que se estende por mais de um quinquênio por causa da intervenção das potências ocidentais em apoio aos grupos armados, o líder histórico da Revolução vislumbrou a capacidade de resistência desse povo árabe.

«Não se trata simplesmente de que os foguetes cruzeiros apontem aos objetivos militares da Síria, mas que esse corajoso país árabe, situado no coração de mais de um bilhão de muçulmanos, cujo espírito de luta é proverbial, declarou que resistirá até o último alento qualquer ataque a seu país», disse na reflexão «A mentira tarifada» de agosto de 2013.

«Todos conhecem que Bashar al-Assad não era político. Estudou Medicina. Formou-se em 1988 e especializou-se em Oftalmologia. Assumiu um papel político ao morrer seu pai Hafez al-Assad, no ano 2000 e depois da morte acidental de um irmão antes de assumir aquela tarefa», disse sobre o líder sírio que resistiu todos os embates de ocidente.

AS RELAÇÕES ENTRE CUBA E OS ESTADOS UNIDOS

«Foi Fidel Castro um obstáculo para a normalização das relações entre os Estados Unidos e Cuba?», perguntava-se em um artigo recente o pesquisador e historiador cubano Elier Ramírez Cañedo. A pergunta tem muito a ver com o mito promovido desde a intelectualidade de direita para atribuir a Cuba a permanência do bloqueio.

Sua resposta é categórica: não. Cita em seu texto um recente livro do ex-presidente Carlos Salinas de Gortari que revela o papel do mexicano e Gabriel García Márquez como mediadores entre o presidente estadunidense Bill Clinton e o líder cubano.

O livro publica uma carta – inédita até agora – dirigida por Fidel a Salinas, no dia 22 de setembro de 1994.

A mediação de Salinas e o Gabo deu o fruto esperado, porque conseguiu que ambos os países se sentaram a negociar uma solução à crise migratória de 1994 e fosse assinado um acordo. Fidel deixou claro que era necessário estabelecer um nexo, mediante futuras negociações, para resolver outros temas das relações entre os Estados Unidos e Cuba, que constituíam as causas verdadeiras das crises migratórias entre ambos os países.

No decurso desses meses e nos seguintes, o compromisso verbal de Clinton de debater com Cuba outros temas jamais se materializou.

Contudo, como se demonstra nesta carta, o líder da Revolução Cubana manteve sua decisão histórica a favor da negociação e do diálogo com os Estados Unidos e, de ser possível, avançar rumo à normalização das relações entre os dois países, na base do mais irrestrito respeito à soberania da Ilha.

«A normalização das relações entre ambos os países é a única alternativa; um bloqueio naval não resolveria nada, uma bomba atômica, para falar em linguagem figurada, também não. Fazer com que estoure nosso país, como se pretendeu e ainda se pretende, não beneficiaria nada os interesses dos Estados Unidos. Iria torná-lo ingovernável por cem anos e a luta não terminaria nunca. Só a Revolução pode fazer viável a marcha e o futuro deste país», assinala Fidel em sua missiva a Gortari.

No passado 16 de junho, o novo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, anunciou uma mudança de política em relação a Cuba e medidas que reforçam o bloqueio. Assim, o presidente se alinhou com os interesses de uma minoria anticubana da Flórida e se saiu da linha aberta por seu predecessor democrata de buscar uma melhoria das relações entre os dois países.

Meio século antes, em 3 de janeiro de 1961, o governo de Dwight Eisenhower rompia relações com a Ilha e dava passo às medidas que desembocariam no bloqueio total a Cuba, que se mantém até hoje.

Em 20 de janeiro de 1961, em frente de uma multidão de milicianos que retornava das trincheiras para se reunir na Praça da Revolução, Fidel abordava o futuro dos nexos com o vizinho do norte.

«O presidente que acaba de tomar posse, refere Fidel sobre John F. Kennedy, falava de começar de novo. Bom. Nós por nosso lado dizemos também: vamos começar de novo. Nossa atitude será de espera, de espera pelos fatos, porque os fatos sempre são mais eloquentes que as palavras. Nossa atitude não será uma atitude de ressentimento. Nossa atitude não é, nem nunca será, uma atitude de temor; nós não tememos absolutamente nada. Nossa atitude nunca será uma atitude interessada; nós do imperialismo nunca interessaremos absolutamente nada! Nossa atitude será a atitude de todos os outros governos e povos do mundo: uma atitude de espera pelos fatos; de nós não partirão ataques gratuitos, de nós não partirão, gratuitamente, atos hostis».

«Nós não esperaremos de Washington nenhum favor nem nenhuma ajuda econômica, continuou. Nós sabemos e aprendemos que qualquer empresa que nos proponhamos, podemos realizá-la; nós sabemos que para nosso povo não há nada impossível; nós sabemos que nosso povo é capaz das mais extraordinárias metas; nós confiamos, pois, em nós e nós esperamos tudo de nós».

Em março de 2016, depois da visita do presidente Barack Obama a Cuba, Fidel utilizava praticamente as mesmas palavras em seu artigo «O irmão Obama»:

«Ninguém se faça a ilusão de que o povo deste nobre e abnegado país renunciará à glória e os direitos e à riqueza espiritual que ganhou com o desenvolvimento da educação, a ciência e a cultura».

«Advirto também que somos capazes de produzir os alimentos e as riquezas materiais que necessitamos com o esforço e a inteligência de nosso povo. Não necessitamos que o império nos presenteie nada».

«Nossos esforços serão legais e pacíficos, porque é nosso compromisso com a paz e a fraternidade de todos os seres humanos que vivemos neste planeta».

OS MUROS E AS MIGRAÇÕES

«Eu não acredito que seja um exemplo mundial — que não seja um bom exemplo, em minha opinião — que se esteja construindo um muro entre a América Latina e os Estados Unidos, ali na fronteira do México, onde os mexicanos tentam passar de uma parte de seu território à parte do território que tiraram deles há cento e tantos anos, naquela famosa guerra, que sabemos foi uma guerra de expansão».

Esta afirmação de Fidel não é sobre o projeto de Trump de levantar um novo muro na fronteira sul dos Estados Unidos, mas remonta 20 anos atrás a um discurso proferido no ato de solidariedade da 4ª Caravana de Amizade Estados Unidos-Cuba, realizado no teatro do Centro de Engenharia Genética e Biotecnologia, em 19 de setembro de 1996.

«O muro que querem construir é trezentas vezes maior, realmente, que o de Berlim e mais sofisticado e todos os dias morrem pessoas ali tentando passar esse muro».

«Cada dia há mais meios e mais técnicas nesse muro, enquanto a pobreza, o desemprego e a miséria crescem em todo o resto da América Latina. São essas situações as que impulsionam a emigração; convertem-se em migrações econômicas, são pessoas que não têm forma de resolver os problemas e emigram», concluiu Fidel.

A REVOLUÇÃO BOLIVARIANA

A Revolução Bolivariana de Hugo Chávez, em 1999, abriu um novo capítulo da história da América Latina. Mas, além do impacto incontestável do comandante bolivariano na arena internacional, sua relação com Fidel chegou a ser de pai a filho.

Depois da morte de Chávez, em março de 2013, Fidel o chamou «o melhor amigo que teve o povo cubano» em reconhecimento à solidariedade demonstrada em todas as circunstâncias. «Cabe a nós a honra de ter compartilhado com o líder bolivariano os mesmos ideais de justiça social e de apoio aos explorados.

«Os pobres são os pobres em qualquer parte do mundo», acrescentou.

Em incontáveis outros textos, o líder da Revolução Cubana se referiu às ameaças que gravitavam acima da nação bolivariana. Hoje, com a nova arremetida da direita contra o governo de Nicolás Maduro, confirmam-se suas afirmações e temores.

«No âmbito da Venezuela se trava hoje um grande combate. Os inimigos internos e externos da revolução preferem o caos, como afirma Chávez, antes que eu desenvolvimento justo, ordenado e pacífico do país», referiu em sua reflexão «A genialidade de Chávez», de janeiro de 2012.

«Promover uma Revolução profunda não era tarefa fácil na Venezuela, um país de gloriosa história, mas imensamente rico em recursos de vital necessidade para as potências imperialistas que traçaram e ainda traçam pautas no mundo», referiu.

«A Venezuela por seu extraordinário de-senvolvimento educacional, cultural, social, seus imensos recursos energéticos e naturais, está chamada a se converter em um modelo revolucionário para o mundo», acrescentou no texto «As duas Venezuela», de outubro de 2011.

Em mensagem ao presidente Nicolás Maduro, em março de 2015, Fidel apontou que tinha podido «observar a atitude, não só do povo heroico de Bolívar e Chávez, mas também uma circunstância especial: a disciplina exemplar e o espírito da Força Armada Nacional Bolivariana.

«Faça o que fizer o imperialismo dos Estados Unidos, não poderá contar jamais com elas para fazer o que fez durante tantos anos. Hoje, a Venezuela conta com os soldados e oficiais melhor equipados da América Latina. Quando se reuniu com os oficiais em dias recentes se podia apreciar que estavam prontos para dar até a última gota de seu sangue pela Pátria».

A ESQUERDA E A UNIDADE DA AMÉRICA LATINA

Talvez um dos discursos mais importantes do Comandante-em-chefe sobre o futuro da esquerda e a importância da unidade na América Latina foi o proferido no encerramento do 4º encontro do Foro de São Paulo, realizado no Palácio das Convenções, em 24 de julho de 1993.

A própria criação do Foro foi uma ideia dele e do líder brasileiro Luiz Inácio Lula da Silva, após a queda do bloco socialista e a desintegração da União Soviética. O primeiro encontro, realizado na cidade brasileira que dá nome ao Foro, serviu para traçar um caminho à luta pela justiça nas novas condições e remover o derrotismo que se tinha apropriado de uma parte da esquerda.

O encontro de Havana tinha um valor extra, pois se dava no único país que continuava levantando as bandeiras do socialismo na região.

As ideias de Fidel e seu apelo à unidade apesar das diferenças, são premonitórias do que aconteceria anos depois com a criação da Comunidade dos Estados Latino-americanos e Caribenhos (Celac).

«Há que admirar a grandeza de Bolívar quando em época tão precoce expôs a união dos povos da América Latina, em una época em que não existia a aviação, nem os automotores, nem as locomotivas, nem o telégrafo, nem o telefone, nem a rádio, nem a televisão. Hoje em questão de segundos se comunica qualquer um desde o México com Buenos Aires e as notícias se espalham simultaneamente a toda parte do mundo, hoje em questão de horas se percorrem milhares e milhares de quilômetros, hoje há meios de comunicação fabulosos. E já Bolívar falava da necessidade da união da América Latina, quando nada disso existia, talvez fosse então um impossível; depois Martí foi um dos mais ferventes defensores da unidade da América Latina, 80 anos depois, já em outra época e expunha isso como uma necessidade vital de nossos povos».

«Já gostaria a Europa, que passou cinco séculos guerreando entre si, ter as coisas em comum que temos os latino-americanos e os caribenhos; contudo, trabalha pela integração, trabalha pela unidade e sabe que não poderia competir com o Japão se não se integra, sabe que não poderia competir com os Estados Unidos se não se integra, sabe que não poderia desempenhar nenhum papel no mundo se não se integra».

«Que menos podemos fazer nós e que menos pode fazer a esquerda da América Latina que criar uma consciência em favor da unidade? Isso deveria estar inscrito nas bandeiras da esquerda. Com socialismo

e sem socialismo. Aqueles que pensem que o socialismo é uma possibilidade e querem lutar pelo socialismo, mas ainda aqueles que não concebam o socialismo, ainda como países capitalistas, nenhum futuro teríamos sem a unidade e sem a integração».

O MEIO AMBIENTE E A SOBREVIVÊNCIA DA ESPÉCIE

A saída do Acordo de Paris, decretada pela Casa Branca, coincide com o apelo cada vez mais urgente dos cientistas de reconhecer os efeitos do homem no clima.

Adotado por 159 países em dezembro de 2015, o Acordo tem por objetivo estabelecer medidas para reduzir as emissões de gases de efeito estufa para conter e mitigar a mudança climática.

Especificamente, busca manter o aumento da temperatura média mundial por baixo dos 2 graus centígrados, em relação aos níveis pré-industriais e de continuar com os esforços para limitar o aumento da temperatura a 1.5 graus, em relação a esses níveis.

A saída dos Estados Unidos, um dos

países mais poluentes do mundo, põe em risco esses objetivos.

Em uma reflexão de janeiro de 2011, intitulada «É hora de fazer alguma coisa», Fidel fala sobre o cinismo das grandes potências.

«Neste momento, a humanidade está enfrentando problemas sérios e sem precedentes».

«O pior é que em grande parte as soluções dependerão dos países mais ricos e desenvolvidos, que chegarão a uma situação que realmente não estão em condições de enfrentar sem que desabe neles o mundo que estiveram tentando moldar em favor de seus interesses egoístas e que, inevitavelmente, conduz ao desastre», assinalou o líder histórico da Revolução.

«Refiro-me à crise dos alimentos originada por fatos econômicos e mudanças climáticas que aparentemente são já irreversíveis como consequência da ação do homem, mas que de todas as formas a mente humana está no dever de enfrentar apresuradamente».

«Durante anos, que em verdade foi tempo perdido, falou-se do assunto. Mas o maior emissor de gases poluentes do mundo, os Estados Unidos, recusava sistematicamente a levar em conta a opinião mundial».

Eram as palavras do mesmo líder que no Rio de Janeiro, em 1992, afirmou que: «uma importante espécie biológica está em risco de desaparecer pela rápida e progressiva liquidação de suas condições naturais: o homem».

Esse alerta de Fidel, um quarto de século depois, está mais vigente que nunca neste 2017.