ÓRGÃO OFICIAL DO COMITÊ CENTRAL DO PARTIDO COMUNISTA DE CUBA

EM Cuba ocupa um lugar primordial a União das Empresas de Recuperação de Matérias Primas (Uermp), entidade cubana responsável pela recuperação, processamento e comercialização dos materiais e desperdícios recicláveis, gerados pela indústria, os serviços e a comunidade oferecendo, deste modo, uma ajuda à sociedade no cuidado do meio ambiente.

A responsável pelo capital humano da empresa, Marilín Ramos Polanco, explicou o principal desafio que atualmente enfrenta.

«Nossa razão fundamental é substituir importações e, também, conseguir receitas mediante a exportação de alguns desses desperdícios, que não podem ser reutilizados no país. Neste ano devemos recuperar, processar e vender quase 400 mil toneladas».

«Fechado o primeiro semestre foi ultrapassado 50% deste dado, e cumpriremos com os compromissos que temos», asseverou a entrevistada.

Os principais clientes da instituição são as indústrias siderúrgicas do país: Antillana de Acero e a empresa de inox da província de Las Tunas (Acinox), consumidores de todo o material ferroso, produto líder dentro da organização, utilizado para produzir aço e seus derivados.

Também existem outros centros como a Empresa de fios elétricos e telefônicos Conrado Benítez (Eleka), localizada no munícipio de San José de las Lajas, província de Mayabeque, à qual se vende cobre para produzir fios.

Indicou que também vendem garrafas de vidro às usinas de bebidas e licores e fornecem a outras empresas desperdícios de papel e papelão. Destes últimos, utiliza-se principalmente o papelão para caixas de ovos e a produção de cadernos.

Ramos Polanco acrescentou que a Uermp contribui para a substituição de importações, já que a recuperação de matérias primas permite ao país poupar aproximadamente US$15 milhões.

«É forte o impacto do que realizamos, ainda que tenhamos um número de insatisfações, porque sabemos que ainda muitos desperdícios reutilizáveis são jogados nas lixeiras».

«Na Ilha está em vigor a Lei nº 1288, que obriga as entidades estatais a catar os desperdícios de suas produções e entregá-los à Uermp, mas essa lei não é cumprida plenamente e a maioria desses desperdícios termina no contêiner de lixo», assinalou.

Significou que, paralelamente, faz-se um trabalho com a população. «Hoje, existe uma rede de 312 centros de compra de produtos recicláveis em todo o país».

EM PROJETO

«Atualmente, são muitos os resíduos sólidos descartáveis, e estes são fontes poluentes do meio ambiente. Por isso, foi realizada uma pesquisa para aplicar em Cuba tecnologias de reciclagem avaliadas internacionalmente», asseverou a vice-diretora-geral de negócios, Estela Domínguez.

«Aprovou-se, como um dos investimentos, aplicar na Ilha maior das Antilhas um sistema integral para tratar dos resíduos sólidos. Determinou-se começar a classificar os desperdícios nos lares e contêineres de lixo como orgânicos e inorgânicos, já que não se devem misturar, de modo que possam ser reutilizados», acrescentou a diretora.

Expressou que este novo sistema integra a coleta e o descarte residual e aquilo que não possa ser reciclado, devido ao nível de poluição ou não tenha as características que pedem os clientes, passa por outro processo, que não é mais do que a criação de combustível derivado dos resíduos.

«Daí que sejam determinadas duas diretrizes fundamentais. Por um lado será catado o desperdício inorgânico para vendê-lo aos nossos clientes e os orgânicos serão utilizados para produzir combustível. Para isso, é preciso apelar à consciência dos cidadãos, já que começaremos a partir do lar a classificar o lixo», acrescentou Domínguez.

Segundo soube o semanário Granma Internacional o processo será desenvolvido por etapas. Havana será o primeiro lugar pelo qual começará o projeto e depois será estendido ao país todo.

«A capital será a primeira, porque tem as piores condições relativamente ao meio ambiente e também maior população. Trabalha-se em uma campanha audiovisual para apoiar esta decisão», ampliou a vice-diretora-geral de Negócios da Uemp.

PRINCIPAIS USOS DA MATÉRIA PRIMA

A diretora de desperdícios não metálicos e não ferrosos, Isabel González Abreu, explicou que a atividade de recuperação, processamento e venda da empresa será organizada em três grupos: materiais ferrosos, que inclui a sucata; o não ferroso, que abrange cobre, bronze, inox e outros materiais não ferrosos; e no caso dos produtos não metálicos: o desperdício de papel, papelão, plástico, vasilhas e desperdícios têxteis.

A estrutura das vendas após fechar junho é de 66% de sucata; 8% da não ferrosa e 22% dos desperdícios não metálicos.

A sucata não ferrosa é obtida, fundamentalmente, das peças, partes e componentes inutilizáveis, que são descartadas nos processos de funcionamento. As fontes fundamentais são as usinas do Ministério das Indústrias (Mindus), o Ministério da Energia e Mineração (Minem), o Ministério dos Transportes (Mitrans) e a população.

«Seus principais clientes são Eleka, a Empresa Cubana de Bronze, Indústrias da comunidade, o Fundo de Bens Culturais, a Indústria de Ferragem e as fundições das ferrovias. A sucata restante é importada», acrescentou González Abreu.

O plano de vendas nacional até junho foi de 152 milhões de pesos e o do ano fica acima dos 300 milhões. A exportação é de 31 milhões aproximadamente.

«No caso dos produtos não metálicos, como o papel e papelão, foram vendidas 14 mil toneladas. As principais fontes geradoras são as empresas tipográficas, a indústria poligráfica, os polos turísticos e o setor residencial», manifestou.

«Continua-se trabalhando com o setor estatal respeito à recolha, porque segundo o tipo de papel que se gere, será possível sua utilização onde seja necessitado», disse.

«No caso dos centros de impressão geram o papel de imprensa e este é utilizado para a caixa de ovo, se o misturam não é possível utilizá-lo para esse tipo de produto, o papel bond é utilizado para papel higiênico, mas se misturado a qualidade seria menor e não seria utilizado para seu destino final que é o turismo», continuou.

Os recipientes de plástico também se recuperam e são vendidos às indústrias da comunidade, principalmente para apoiar o programa de poupança de água, e utilizados para a produção de mangueiras e tubulações.

Abreu destacou que um dos produtos que mais ajudou no crescimento destes anos são as vasilhas de vidro. Uermp tem um plano de 95,9 milhões de pesos e até hoje, foram vendidos 60 milhões. Deste produto, 64% do vendido é representado nas garrafas de cerveja.

«Um dos descumprimentos que temos hoje é a recuperação do alumínio, porque se importa cerveja em lata e estas têm mais conteúdo de aço, e então se incrementa a sucata, mas diminui o alumínio», acrescentou Ramos Polanco.

Porém, uma das principais insatisfações que tem a população é a não recuperação das garrafas de cristal, apesar de que as mesmas afetam o meio ambiente.

«As garrafas com modelos próprios não podem ser recicladas. Hoje, ainda não temos investimentos no país que permitam moer esse vidro e reutilizá-lo em garrafas novas. É por isso que se trabalha na criação de uma usina na Zona Especial de Desenvolvimento de Mariel, que produzirá garrafas de vidro», continuou Ramos Polanco.

PRINCIPAIS INVESTIMENTOS

A diretora de investimentos, Dayamí Suárez Ramos, explicou que o financiamento é um dos problemas principais que a empresa tem atualmente.

Na Uermp a recuperação dos desperdícios é através de equipamentos de transporte, e possuem unidades especializadas como caminhões-empilhadeiras, basculantes, guindaste e retroescavadeiras.

Um exame do estado técnico desse equipamento confirmou que existem mais de duas mil unidades e delas 80% têm mais de 25 anos de exploração.

«Concentramo-nos em criar um programa de substituição de equipamentos, identificados em dois grupos, transportes, guindastes e manuseamento, este último encaminhado diretamente à extração de sucata metálica, ferrosa e não ferrosa».

Este programa teve limites precisamente pelo crédito econômico, devido a que atualmente não se conta com a quantia necessária para realizar o dito projeto.

Suárez assinalou que a empresa investe na reparação e manutenção, mas não se consegue elevar o coeficiente de disponibilidade técnica e se torna difícil cumprir os planos, além do custo um pouco elevado.

Além do investimento em resíduos sólidos e urbanos inorgânicos, nos quais se trabalha, foi apresentado outro que propõe lavar vasilhas de cristal, especificamente as garrafas de rum e vinho; contudo tampouco existe apoio financeiro para apresentá-lo no plano da economia.

«Temos um grupo de problemas identificados que não podemos realizar porque o país não possui o capital econômico necessário. É o caso também dos pneus vencidos, pois neste momento não se faz nada com eles e poluem o meio ambiente», assinalou.

Por outro lado existe um centro criado para desmanchar navios, localizado em baía Honda, província de Artemisa, onde são comprados os navios inutilizáveis, pois hoje constitui uma das fontes fundamentais para a obtenção de sucata, porque no país este produto de reciclagem é precário. Trabalha-se com empresas mistas na projeção de mais centros de desmanche no país todo.

Outra das formas para obter sucata é através da desmontagem de usinas; contudo Cuba tem poucos equipamentos especializados para essa tarefa.

Apesar destes problemas e desafios, a Uermp, tem um alto impacto econômico, ambiental e social no país, além de ser uma fonte de emprego. A empresa conta com seis mil trabalhadores estatais em suas 25 empresas subordinadas.

Ainda, possui 4 mil famílias, as quais receberam licença para o trabalho não estatal, com o propósito de exercer esta vital atividade para a sociedade. E como experiência, existem 15 cooperativas de reciclagem dedicando-se à recuperação de sucata, que depois é vendida à empresa para seu processamento.