ÓRGÃO OFICIAL DO COMITÊ CENTRAL DO PARTIDO COMUNISTA DE CUBA
Crise dos Mísseis. Milicianos na beira-mar. Foto: Korda, Alberto
Crise dos Mísseis. Milicianos na beira-mar. Photo: Korda, Alberto

NESTES dias, completam-se 55 anos da Crise de Outubro de 1962, chamada também de Crise dos Mísseis, considerada a mais perigosa que atravessou o mundo, na segunda metade do século passado. A humanidade não deve esquecer esse fato, pois estivemos à beira de perecer no holocausto nuclear, especialmente para fazer todo o possível para evitar sua repetição.

Em meados do mês de agosto de 1962, quando a transferência e desdobramento das tropas soviéticas em Cuba estava em andamento, por causa do acordo bilateral assinalado entre ambos os países, começou um escândalo crescente na imprensa e nos círculos políticos americanos, o que previu a gênese de uma crise.1

Em 20 de agosto de 1962, em um memorando sobre Cuba, o diretor da CIA, John Mc Cone, disse que «o apoio a Cuba por parte dos soviéticos e provavelmente do Bloco aumentou em julho e agosto. Nesse tempo, 21 navios chegaram em julho e 17 chegaram ou estão em rota em agosto».

Em 21 de agosto, em uma reunião com o secretário do Estado, Mc Cone especulou sobre a existência de mísseis balísticos em Cuba. No dia seguinte, deu a mesma informação ao presidente.

Em um memorando de Mc Cone acerca da reunião de 23 de agosto de 1962 com o presidente John F. Kennedy, com a participação de Dean Rusk, secretário do Estado; Robert McNamara, secretário da Defesa e o vice-secretário deste, Roswell Gilpatric; o general Maxwell Taylor, conselheiro militar do presidente e Mc George Bundy, assistente da Kennedy para assuntos de segurança nacional; revela-se que a agenda teve uma citação manuscrita que dizia: «Terceiro aviso sobre os mísseis em Cuba». 2

O chefe da CIA advertiu aos presentes: «O presidente já foi informado sobre a situação em Cuba».3 O presidente pediu para analisar o perigo para os Estados Unidos e seu efeito na América Latina e perguntou se os mísseis poderiam ser eliminados mediante um ataque por via aérea ou por terra.4 Entre os dias 20 e 25 de agosto, foram descobertos vários locais construídos para mísseis balísticos, em diferentes partes do nosso país.

No mesmo dia 23, em outro encontro com Kennedy, Mc Cone questionou a presença de tantos mísseis antiaéreos em Cuba, a menos que fossem usados para ocultação de mísseis balísticos. Não havia mais dúvidas sobre a construção de silos de armas nucleares em Cuba, as fotografias dos mísseis nucleares na URSS revelaram que eram idênticos aos construídos na Ilha. No dia 23, o presidente ordenou avaliar a possibilidade de emitir uma declaração sobre esse assunto.

Em julho de 1962, o Departamento de Defesa pediu ao chefe da operação ‘Mangosta’ avaliar os cursos de ação para Cuba, de onde emergiram várias propostas. Em uma foi proposto cancelar os planos operacionais de ‘Mangosta’ e considerar Cuba como uma cabeça de praia do comunismo no hemisfério ocidental. Em outra falou-se sobre a eliminação do governo de Fidel Castro.

Já no segundo semestre, o Departamento de Defesa insistiu na intervenção direta de suas tropas em Cuba, reiterada em 7 de agosto. Em 10 de agosto, o grupo da operação ‘Mangosta’ propôs aumentar as sabotagens, mas Kennedy exigiu um plano concreto para destruir a Revolução. Em 20 de agosto, Maxwell Taylor expressou que o governo cubano não poderia ser derrotado sem o envolvimento direto das Forças Armadas dos Estados Unidos.

Por volta de 13 de setembro, em uma mensagem de Carter para Mc Cone, ele disse que pelo menos 25 navios soviéticos estão a caminho de Cuba. É sabido por documentos revelados que em 17 de setembro, perante as informações e propostas esmagadoras, o presidente disse que «temos que fazer algo drástico respeito a Cuba, estou ansiosamente à espera do plano operacional dos chefes de Estado Maior Conjunto, que me será apresentado na próxima semana».

Da mesma forma, em um documento tornado público, soube-se que Ray S. Cline, diretor adjunto de Inteligência, fez questão de lembrar ao presidente Kennedy, em 20 de outubro, que «o senhor tem sido informado muitas vezes sobre o grande reforço em Cuba, desde antes de meados de outubro de 1962 e, no entanto, hoje podem ser disparados oito mísseis de médio alcance, a partir de Cuba, com uma carga de 16-24 megatons».

No entanto, assim que o presidente soube que o ataque aéreo não poderia garantir a destruição de 100% dos mísseis, desistiu do ataque e aplicou a opção do bloqueio naval.

Sessenta relatórios foram recebidos, dos quais 40 eram do Centro Opa-Locka5, acerca da chegada de navios com grandes contêineres e grandes caravanas de caminhões que rebocavam equipamentos longos, nunca antes vistos nas estradas cubanas, guardados por soldados cubanos.

Um memorando de Mc Cone, datado em 11 de outubro de 1962, afirma que ele mostrou ao presidente uma fotografia dos aviões IL-28 que haviam chegado a Havana e o presidente lhe ordenou retivesse as informações até depois das eleições e solicitou que todas as informações fossem excluídas, porque era muito perigoso. A partir do mês de julho, os serviços de inteligência conheciam acerca da viagem de navios de diferentes portos da URSS até Cuba; basta ver os testemunhos de protagonistas dessas viagens.

De acordo com o sargento Víctor Potelin, operador de rádio das tropas antiaéreas de defesa, «os norte-americanos agiam como se fossem donos do mar Mediterrâneo, voando entre os mastros dos navios».

O sargento Maslov, operador do cockpit de um regimento, disse: «Durante a viagem produziram-se fatos tais como a inteligência da Alemanha Ocidental, quando passamos pelo estreito dos Dardanelos, interessada em ver a carga que levávamos. Ainda, ao cruzar por Gibraltar, a inteligência inglesa reforçou as medidas de controle dos acessos marítimos a Cuba, estabelecendo vigilância aérea e naval permanente, a partir das Ilhas Açores, cinco dias antes da sua chegada às costas cubanas.

Os coronéis Kovalenko, chefe de um regimento de mísseis R-14 e Semykin, engenheiro-chefe da 43ª Divisão de Mísseis, disseram que a partir das ilhas Açores a exploração aérea foi constante, sendo assim durante as 185 viagens.

Em agosto, as unidades soviéticas começaram a chegar à Ilha por vários portos cubanos; segundo eles dizem os serviços especiais dos EUA nunca chegaram a conhecer a quantidade de tropas soviéticas que chegou à Ilha.

Entre os dias 1 e 5 de agosto, os norte-americanos descobriram mísseis antiaéreos em vários locais. Mc Cone advertiu que esses mísseis poderiam servir para proteger os mísseis balísticos. «Em meados de setembro, chegaram 36 mísseis R-12, que ocuparam os locais anteriormente descobertos. A marinha havia colocado em estado de alerta os diferentes comandos para os cinco distritos navais, localizados nas costas norte, central e oeste. Apesar desse desdobramento, o navio Alexandrosvky chegou no dia 23 ao porto de Mariel sem qualquer dificuldade. Como se fosse o momento esperado para não retornar.

Valiosa foi a colaboração do coronel soviético Oleg Penkovski, que foi executado depois que ajudasse os EUA, aos quais não apenas informou sobre a operação, mas também os tipos de mísseis que vieram a Cuba e o grau de alistamento dos mísseis balísticos.

Após o dia 22 de outubro, os bombardeiros B-47 foram desconcentrados, cada um com cargas nucleares; cinco divisões do exército e a primeira divisão blindada; as forças da marinha eram necessárias para o bloqueio naval.6 Um quarto de milhão de homens para invadir Cuba, meios aéreos para 2.000 missões sobre o território cubano e a base naval de Guantánamo foi fortalecida.7

Fidel previu tudo o que aconteceu mais tarde. Ele advertiu em várias ocasiões que os mísseis não podiam ser instalados em segredo e sobre a necessidade de tornar público o acordo militar entre Cuba e a URSS, porque Cuba tinha o direito de possuir as armas que considerasse necessárias para a sua defesa. •

* Pesquisador no Centro de Investigações Históricas da Segurança do Estado.

1 Conferência Internacional, ‘Crise de outubro uma visão política, quarenta anos depois’, Havana, 11-12 de dezembro de 2002.

2 Documento 8: Mc Cone Memorando sobre reunião com o presidente, 23 de agosto de 1962.

3 Documentos desclassificados.

4 Ver o parágrafo 5 do documento 73 do Memorando de ação de segurança nacional nº 181, de 23 de agosto de 1962.

5 Centro de recepção criado pela CIA, em 15 de fevereiro de 1962, para atender os refugiados.

6 Veja o livro Outubro de 1962, a um passo do Holocausto, p. 166.

7 Veja o livro No olho da tempestade, Carlos Lechuga, p.95.