ÓRGÃO OFICIAL DO COMITÊ CENTRAL DO PARTIDO COMUNISTA DE CUBA
Os laboratórios do Instituto das Ciências Básicas e Pré-clínicas “Victoria de Girón” foram restaurados e equipados com nova tecnologia. Photo: Ricardo López Hevia

A dermatologista Fernanda Pastrana Fundora, lembra muito bem o dia 17 de outubro de 1962 e a presença do Comandante-em-chefe Fidel Castro no ato de inauguração do instituto Victoria de Girón. Ela estudou nesse primeiro curso, ao responder a um chamamento feito pelo governo revolucionário, diante da carência de profissionais para dar cobertura assistencial a toda a população.

Antes de 1º de janeiro de 1959, Cuba contava com 6.286 médicos e nos anos posteriores emigraram mais de 3.000, alentados pelo governo dos Estados Unidos para tratar de destruir o justo sistema político nascente.

Como ela morava no município de Cárdenas, em Matanzas, a 100 km a leste de Havana, a doutora se acolheu ao sistema de bolsas, criado naquele momento com um internamento total para os estudantes, em uma das luxuosas mansões abandonadas pela burguesia crioula. Por tais razões, em várias ocasiões, conversou com Fidel, que visitava frequentemente o Instituto.

«Um dia disseram ao Comandante que eu estava muito mal nos estudos, porque não frequentava as aulas de educação física, uma disciplina obrigatória dentro do currículo docente. Ele se sentou comigo e me deu uma explicação da necessidade do exercício físico para a saúde. Quando concluiu, com muita pena, eu lhe disse que o entendia, mas que não gostava dessa matéria. Então me pediu ir falar com o professor e dizer-lhe que a Revolução não podia dar-se ao luxo de perder um médico pela falta de assistência à educação física e, portanto, eu devia convencer o docente para recuperar as aulas no menor tempo possível. Isso foi o que eu fiz, até que aprovei e me graduei».

«Acho que Fidel me ajudou duas vezes, primeiramente com a facilidade de estudar Medicina e depois por dar-me um conselho necessário para a vida. Ele me ensinou que devemos assumir tarefas, ainda que não sejam totalmente de nosso agrado, em meio do empenho de construir um projeto social humanista», conta Fernanda.

O doutor Ernesto Bravo Matarazo, integrou o claustro docente de fundadores e também relata outra anedota: «A disciplina de Bioquímica sempre foi muito complexa para a sua aprendizagem e os estudantes a rechaçavam. Realmente, precisava-se de um conhecimento prévio em Química para entendê-la. Em uma das visitas de Fidel, os estudantes trataram de que ele intercedesse com os professores para que fossem mais flexíveis. Ele perguntou a data do exame e nos dias prévios começou a estudar junto aos alunos. Nós os professores pensamos que, no fim, ele nos devia dizer que baixássemos a pressão acadêmica, mas ele apenas disse: ‘Que bela é a Bioquímica!’. Elogiou os conteúdos da disciplina como um conhecimento muito necessário para a sociedade. Essas palavras provocaram maior entusiasmo nos rapazes, eles estudaram com seriedade e nunca decaiu o rigor acadêmico nos exames».

Os estudantes estrangeiros estão inseridos nos mesmos grupos que os cubanos Photo: Ricardo López Hevia

Este professor, natural da Argentina, pensa que o Victoria de Girón nasceu em um momento muito convulso da Revolução, depois de ter derrotado os mercenários enviados por Estados Unidos pela Baía dos Porcos (Playa Girón) em abril de 1961 e depois de finalizada a Campanha de Alfabetização. Ainda, o país estava vivendo aqueles dias conhecidos como a Crise dos Mísseis.

Matarazo, também professor consultor, acrescenta: «Pusemos em prática várias premissas da Reforma Universitária, aprovada na cidade argentina de Córdoba, em 1918, quanto a formar círculos científicos e alunos ajudantes para que os jovens se integrassem às pesquisas e à docência. Nossa principal tarefa foi fomentar hábitos de estudo, a partir de bibliografia atualizada, de forma a responder às exigências acadêmicas e elevar o conhecimento».

Considera que o Victoria de Girón é uma sorte de laboratório para testar os programas docentes a serem espalhados pelo país e assegura que naqueles anos 60, nunca pôde imaginar que viriam a contar com um claustro docente, altamente formado, através de cursos de mestrados e doutoramentos.

Hoje em dia, ele conhece diretivos de prestigiosas universidades médicas do mundo que se espantam diante da existência em Cuba de uma faculdade dedicada às ciências básicas e pré-clínicas, porque a carreira é concebida internacionalmente como uma formação teórica desde o primeiro até o quinto ano, com pouca margem para a prática com o paciente.

ATENÇÃO ACADÊMICA INTERNACIONAL

Dessa primeira etapa, Bravo Matarazo lembra da chegada dos estudantes vietnamitas, vítimas da guerra com os Estados Unidos e da partida do primeiro grupo de médicos internacionalistas que prestaram serviços na Argélia. «Hoje ensinamos centenas de estudantes estrangeiros dentro da instituição e em faculdades abertas em outros países», precisou.

Este tema é reafirmado pela máster em Ciências da Saúde, María Elena Fernández Roque, diretora das Relações Internacionais da Universidade das Ciências Médicas de Havana. Maria Elena indica que neste momento mais de 6.000 jovens de outras nações estudam nas especialidades de medicina, odontologia, licenciatura em enfermagem e tecnologia da saúde. Ainda, alguns estudam no nível médio destas profissões.

Para celebrar o 55º aniversário da Fundação do Instituto das Ciências Básicas e Pré-clínicas Victoria de Girón, celebrou-se uma Jornada Comemorativa na Aula Magna dessa faculdade. Photo: Ricardo López Hevia

Eles entram nestes estudos por diferentes formas de ingresso, como são autofinanciados (pagando a carreira), financiados pelo governo (acordos entre países) e por bolsas gratuitas outorgadas por Cuba. «Para todos é aplicado o mesmo plano de estudo, acolhem-se aos mesmos deveres e direitos que os estudantes cubanos e, inclusive, envergam o mesmo uniforme», indicou Maria Elena, também professora assistente.

«Estes estudantes se sentem muito bem conosco». E lembrou as palavras de Fidel quando vaticinou que o Victoria de Girón formaria médicos para Cuba e para o mundo. «Em nossas aulas convergem estudantes de dezenas de nações e isso ajuda à integração, prestando-se ajuda entre eles mesmos. Dizemos que conosco está representada desde o A de Angola até o Z de Zimbábue», advertiu.

Comenta que os estudantes estrangeiros têm um atendimento especializado e esmerado, porém nunca privilegiado acima dos cubanos. São atendidos por professores-guias, os que os ajudam a assimilar o modo de vida da Ilha caribenha. Os jovens que não falam espanhol frequentam, primeiramente, a faculdade preparatória para aprender espanhol e equilibrar seu conhecimento, a fim de que possam assimilar um conteúdo acadêmico universitário.

«Estes estudantes vinculam-se aos projetos de investigação aprovados em nosso país, participam das jornadas científicas, podem optar pela condição de alunos-ajudantes e, inclusive, participar das competições esportivas da Universidade e no festival de artistas amadores. Igualmente, entram voluntariamente na Federação Estudantil Universitária e assumem cargos dentro da organização», acrescentou.

Um critério semelhante tem a doutora Nidia Márquez Morais, vice-reitora da Universidade das Ciências Médicas. Ela especificou que esses estudantes mantêm seus costumes e tradições culturais. «Vários deles estão associados à União Africana e fazem encontros interculturais onde envergam seus trajes típicos, preparam refeições e mostram sua arte nacional. Aí se misturam todos, inclusive os cubanos».

PARTICULARIDADES DAS CIÊNCIAS MÉDICAS

A doutora em Ciências da Saúde argui que o Victoria de Girón constitui a faculdade insigne no ensino das ciências médicas porque se torna reitora da atenção metodológica e de condução das diferentes disciplinas do modelo acadêmico cubano.

Esta faculdade inclui-se dentro das treze que fazem parte da Universidade das Ciências Médicas de Havana, com uma matrícula de quase 17 mil estudantes e 21 perfis do ensino técnico, com duas formas de ingresso: ao concluir o ensino de segundo grau ou a 12ª série; portanto existe um instituto politécnico da Saúde.

Isso se complementa com cursos de pós-graduação de amplo espectro, a formação de mais de 4000 residentes em 62 especialidades e 37 programas de mestrado. «Esta universidade é inserida na certificação da qualidade, um processo que conduz e dirige o Ministério do Ensino Superior mediante sua agência reguladora, que é a Junta de Credenciamento Nacional», explicou a vice-reitora.

«Nossa universidade tem credenciadas todas as carreiras de Medicina e delas 50% de excelência. Aqui se incluem 17 programas de mestrado; deles, onze são de excelência. Agora, estamos em meio a um processo de credenciamento das especialidades», acrescentou.

O principal âmbito docente da Universidade são os 54 hospitais com que conta a capital e existem 7.443 profissionais ligados à docência, 80% deles prestam serviços aos pacientes, quer dizer são médicos, enfermeiros, tecnólogos que trabalham nas instituições e dali participam do processo docente-educativo.

Nos últimos dos cursos fez-se uma revitalização das edificações e de suas áreas interiores. Nas 13 faculdades conta-se com laboratórios de ciências básicas, alguns deles com espaços mais desenvolvidos, como as salas de aulas para múltiplos propósitos. Ainda, foram munidas de microscópios, gravuras e peças frescas para o estudo da anatomia.

«Exigimos — advertiu a diretiva — o uso do uniforme para a presença e o bom aspecto pessoal, como premissa para prestar serviços médicos. Insiste-se muito na atitude ética de nossos estudantes porque mesmo a partir do primeiro ano se relacionam com os pacientes, nos consultórios, policlínicas e hospitais. Eles interagem com as famílias e a sociedade para adquirir as habilidades e competências para o bom desempenho na profissão».

Assim testemunha Javier González Argote, médico residente em Bioquímica, melhor graduado em docência, pesquisas e história do ano letivo 2017, com vários prêmios científicos e pesquisador das neurociências, principalmente nos transtornos causados pela diabetes mellitus na gravidez.

Estudos similares realiza Alexis Alejandro García Rivero, estudante do quinto ano de medicina, que se desempenha como aluno-ajudante na disciplina de Fisiologia. Ele garante: «Ser estudante das ciências médicas e, especificamente da faculdade Victoria de Girón é um privilégio. Eu sinto muito orgulho de estudar neste local universitário».