ÓRGÃO OFICIAL DO COMITÊ CENTRAL DO PARTIDO COMUNISTA DE CUBA
Foro Online sobre presuntos ataques sônicos.

«NÃO há evidências científicas para indicar a ocorrência de supostos ataques acústicos contra diplomatas dos EUA em Havana, uma hipótese tratada por Washington e alguns meios de comunicação que não tem sustento». Essa foi a conclusão dos participantes no Fórum online, convocado para examinar os detalhes do caso.

Especialistas em diferentes campos científicos, desde a física e e neurologia até a psicologia e a sociologia, debateram durante dois dias no espaço digital convocado pela rede cubana das Ciências.

A motivação do Fórum foi responder três questões básicas: Os sintomas descritos podem ser uma consequência de agentes sonoros? Outras doenças podem ter causado esses sintomas? Existe uma probabilidade de causas psicossociais?

Os internautas de todo o mundo tiveram a oportunidade de interagir com o Comitê de peritos cubano, responsável pelas investigações sobre os supostos ataques acústicos.

DEZ CONCLUSÕES

1. Não há provas com suporte científico para garantir que esses ataques acústicos foram realizados contra diplomatas dos EUA em Cuba.

2. Os sintomas descritos por Washington e filtrados pela imprensa não coincidem com os efeitos do som na saúde humana.

3. O contexto em que os supostos incidentes alegadamente ocorreram, em lugares protegidos pelos próprios americanos e sem acesso direto ao exterior, é improvável, bem como o fato de que algumas pessoas foram afetadas especificamente e outras não.

4. Existem outras causas prováveis, incluindo fatores psicossociais, que explicariam muito melhor os sintomas variados alegados por Washington. Eles devem ser estudados em profundidade, antes de emitir um critério definitivo.

5. Cuba não está familiarizada e não há precedentes para o uso no território nacional de armas acústicas, que existem, mas estão nas mãos das grandes potências e geram efeitos diferentes dos descritos.

6. O Comitê de Peritos cubano que analisou o caso foi limitado pela falta de cooperação das autoridades dos EUA, que não compartilhou todas as informações disponíveis e não permitiu o acesso aos pacientes ou aos seus registros médicos.

7. Os especialistas da Ilha maior das Antilhas estão dispostos a colaborar com seus homólogos dos EUA, de forma transparente, para alcançar resultados conclusivos.

8. Cuba se destaca pelo cumprimento da Convenção de Viena e nunca perpetrou ou emprestou seu território para perpetrar ataques de qualquer tipo contra o pessoal diplomático de qualquer país.

9. Pelo contrário, diplomatas cubanos foram vítimas de ações violentas no território dos EUA, realizadas por membros de grupos terroristas, conhecidos e ligados a Washington.

10. Os setores que são contra a melhoria das relações entre os dois países estão manipulando a questão dos supostos incidentes acústicos para justificar o recuo nos laços bilaterais. •

AS NEUROCIÊNCIAS CUBANAS TÊM UM GRANDE PRESTÍGIO INTERNACIONAL

Neste contexto, o Congresso Internacional NeuroCuba 2017 realizou-se nestes dias em Havana, com a participação de mais de 500 especialistas nacionais e internacionais de cerca de 14 países e a presença de renomados professores e pesquisadores no campo da neurocirurgia e a neurologia da América Latina, Estados Unidos e Europa, encerrando no dia 18, no hotel Habana Libre, nesta capital.

Na abertura da reunião, foi lida a Declaração da Sociedade Cubana de Neurologia e Neurocirurgia, que expressa a preocupação científica sobre a informação oferecida por diferentes meios de comunicações quanto à ocorrência de supostos ataques acústicos ao pessoal diplomático dos Estados Unidos que reside em Cuba e que, «de acordo com os dados clínicos referidos no relatório médico entregue à parte cubana, aparecem sintomas que, obviamente, envolvem a participação de várias especialidades entre as quais nós estamos».

Também afirma que «a ciência deve ser projetada para encontrar a solução aos problemas, através do método científico, é por isso que as ideias, opiniões, sugestões e ações que vocês possam realizar serão de grande ajuda para esclarecer a etiologia e o diagnóstico nas pessoas afetadas».

Para a doutora Ileana Morales Suárez, diretora da Ciência e Tecnologia, do ministério da Saúde Pública, este congresso tem lugar em um contexto particular para Cuba, onde se ratifica o papel importante e decisivo da ciência ao serviço do país e do povo. «Temos o dever de manter, estimular e expandir o intercâmbio científico entre todos os nossos profissionais e pesquisadores do país e com o resto das nações do mundo, como forma de continuar no caminho da verdade científica, do desenvolvimento e também da paz», disse.

Na reunião científica — empenhada em continuar consolidando o desenvolvimento das neurociências no país e no mundo — vários professores reconheceram o talento, a experiência e a qualidade do trabalho dos neurologistas, neurocirurgiões e especialistas que estão relacionados com este ramo da medicina.

De acordo com o neurocirurgião Miguel Ángel Arraez, presidente da Sociedade Espanhola de Neurocirurgia, secretário da Academia Mundial de Neurocirurgia e presidente da fundação da Federação Mundial de Sociedades de Neurocirurgia, «esta consulta constitui um cenário ideal para destacar o extraordinário nível que possui a neurocirurgia cubana e para nutrimo-nos de suas experiências».

Por sua vez, a doutora Tania Margarita Cruz Hernández, diretora do Centro Internacional de Restauração Neurológica (Ciren) e vice-presidenta do comitê organizador da NeuroCuba2017, disse ao Granma Internacional que este evento será realizado em um clima de alto nível profissional, o que melhorará o nível e a preparação de nossos profissionais e o atendimento de excelência aos nossos pacientes.

«Nesta edição, disse o especialista, pela primeira vez terá lugar o curso educacional da Federação Mundial de Sociedades de Neurocirurgia, o segundo encontro de Neurocirurgia Cuba-EUA e outros cursos e simpósios».

Para o Dr. Claudio G. Yampolsky, neurocirurgião e vice-presidente da Federação Latino-Americana de Sociedades Neurológicas (Flanc), que inclui mais de nove mil neurocirurgiões do continente e de sociedades da Espanha, Itália e Portugal, "este encontro representa o que é o paradigma das ciências modernas, poder trabalhar entre especialistas para alcançar melhores conhecimentos e resultados no cuidado de doenças», afirmou.

ESPECIALISTAS APONTAM INCONSISTÊNCIAS NA HIPÓTESE DOS ATAQUES ACÚSTICOS

Com mais de 300 intervenções e um amplo consenso sobre as inconsistências da hipótese de um ataque acústico contra diplomatas dos EUA em Cuba, o primeiro dia do Fórum online foi encerrado com a participação de cientistas e especialistas de diferentes campos científicos.

De acordo com a versão de Washington, seu pessoal diplomático em Havana apresentou sintomas provocados por «ataques sônicos». Os afetados relatam que sentiram ruídos nas residências e os seguintes ‘sintomas’: náuseas, dor de cabeça, distúrbios do equilíbrio, perda auditiva, dor facial e abdominal, distúrbios da memória e concussão.

O doutor Manuel Jorge Villar Kuscevic, especialista de 2º grau em otorrinolaringologia e professor assistente, respondeu uma pergunta enviada pelo Granma Internacional, via digital, sobre as gravações dos supostos sons prejudiciais que foram filtrados à imprensa americana.

Villar, também chefe do serviço de otorrinolaringologia e cirurgia de cabeça e pescoço, do hospital Enrique Cabrera, explicou o processo de recepção e análise das amostras fornecidas pelas autoridades dos EUA às autoridades cubanas.

De acordo com o especialista, o comitê teve acesso a várias gravações apresentadas pelo governo dos EUA, dos quais apenas uma foi conhecida publicamente.

«Posso dizer, de forma responsável, que a amostra de maior intensidade atingiu 74,6 decibéis (DB), o que não é prejudicial para a saúde humana», disse o especialista, membro do Comitê de peritos.

«Nenhuma das 14 amostras fornecidas pelas autoridades dos EUA às pessoas da ilha indicou que fosse prejudicial às pessoas», acrescentou Villar Kuscevic.

«Essas amostras contêm ruídos ambientais e o som de um bem conhecido grilo cubano».

Por sua vez, o doutor em Ciências Físicas e pesquisador e professor auxiliar, do Instituto de Higiene, Epidemiologia e Microbiologia, doutor Carlos Barceló Pérez, precisou ao Granma Internacional os tipos de som que devem ser registrados para gerar danos conforme os descritos.

Explicou que as perdas auditivas ligadas à exposição a sons podem ser temporárias ou permanentes. «Com níveis de intensidade de sons moderados, como pode ser o ruído do tráfego, há uma perda da acuidade auditiva, que, uma vez que o estímulo de som cessa, quando o tráfego acabou, ela se recupera gradualmente ao longo do tempo».

«Mas, disse, há perdas permanentes que têm a ver com a chamada perda auditiva neurossensorial, que é um problema de higiene ocupacional. Ou seja, quando uma pessoa está exposta a níveis sonoros da ordem de 85 ou mais decibéis por muitos anos, por exemplo, dez anos, ele sofre de uma perda de sensibilidade auditiva».

«Outra maneira é quando alguém é instantaneamente exposto a um som que bate, o que chamamos de ruído de impulso ou uma explosão. Isso pode quebrar o tímpano e, portanto, não há transmissão mecânica de som no ouvido médio, o cérebro deixa de decodificar a sensação de audição. Estas são as causas que podem levar à perda permanente do limiar auditivo», acrescentou Barceló.

Em geral, níveis moderados entre 60 e 80 decibéis produzem perdas transitórias do limiar auditivo entre outros efeitos, também psicossomáticos e não específicos, como o aumento da frequência cardíaca, mas que geralmente são recuperativos quando a exposição ao som cessa. Os danos permanentes só aparecem quando há altas doses de exposição, acima de 85 decibéis, por muito tempo, ou traumas acústicos, muitas vezes com sons de impacto, como golpes, explosões...

O especialista, que teve a oportunidade de analisar as gravações de som entregues pelo lado americano, disse que não encontrou sons de impulso em qualquer lugar, apenas sons contínuos e flutuantes foram encontrados, com níveis de intensidade moderada, não excediam os 80 decibéis, o que nos permite concluir que não poderia haver danos permanentes à saúde das pessoas expostas.

Em relação a um dos sintomas mais improváveis relatados pelo lado dos EUA e associado a incidentes acústicos, o proeminente neurologista cubano, doutor em Ciências Nelson Gómez Viera, explicou que a concussão (também chamada lesão cerebral menor) é uma imagem neurológica que surge como resultado de um trauma craniano ou de um processo de aceleração ou desaceleração súbita do crânio.

Acrescentou que esse tipo de doenças é observada, principalmente, em atletas e vítimas de acidentes rodoviários.

«Realmente, uma das características mais visíveis da concussão é a perda da consciência e, nos casos em que isso não acontecer, a pessoa fica atordoada», afirmou Gomez Viera, chefe do Centro de Neurologia, do hospital Hermanos Ameijeiras.

«Para uma arma sonora produzir uma concussão, disse, teria que se comportar como uma onda de choque, o que não é o caso».

Além de tudo isso, o doutor em Ciências Médicas afirmou que, se isso fosse verdade, as afetações não seriam apenas cerebrais, mas em outras partes do organismo, as que não foram descritas em nenhum dos casos.

«Do mesmo modo, essas aflições afetariam todos aqueles que cercam os pacientes, elas não seriam individuais», disse.

O próprio membro do Comitê de Peritos, Daniel Stolik Kovygrod, doutor em Ciências Físicas com mais de 50 anos de experiência e presidente da Cátedra Honorífica «Física e Música», da Universidade de Havana, referiu-se à possibilidade comentada por alguns meios de comunicação sobre o possível uso de ondas eletromagnéticas, em vez de acústicas, para perpetrar os supostos ataques à saúde.

«O que chega ao ouvido, o que é capaz de ser percebido pelo homem é uma onda sonora, uma flutuação da pressão atmosférica», disse. «O ouvido não percebe, não é capaz de perceber e transformar ondas eletromagnéticas».

Respondendo um comentário acerca do possível papel do estresse no caso dos diplomatas dos EUA, o doutor em Ciências Psicológicas e professor titular Dionisio Zaldívar Pérez respondeu que é bem sabido que quando uma pessoa enfrenta situações conflitantes ou que elas lhe provocam tensão ou sensação de ameaça ou perigo, desenvolve um processo de estresse que é acompanhado por diferentes sintomas.

«O acima mencionado depende, em última instância, da avaliação que o sujeito faz da situação e sua resposta pode ser induzida, por contágio, a outras pessoas próximas que compartilham um ambiente comum, expectativas ou medos iguais».

Para Zaldívar, poderíamos estar na presença de um evento de estresse coletivo. «É uma possível hipótese, disse, que poderia explicar o que acontece com os supostos ataques». O especialista apontou que estamos lidando com um conjunto de sintomas que são variáveis e instáveis, que podem ocorrer em várias doenças e situações, mas que sempre são diagnosticados depois que tenha sido esgotado o estudo de evidências físicas e clínicas que poderiam explicar este fenômeno».

«Acontece que uma pessoa pode ser afetada por um determinado evento ao que ela lhe dá uma dada dimensão, distorce-o ou o exagera e produz uma resposta emocional desse tipo. As pessoas que compartilham um espaço social comum, crenças ou expectativas semelhantes podem reagir dessa maneira».

«A literatura apresenta muitos fatos desse tipo, disse o especialista, como é o exemplo do tsunami no Japão, em 2011, quando um estudante disse que sentia as mãos entorpecidas, a cabeça desapontada e imediatamente depois até 20 estudantes apresentaram os mesmos sintomas. Eles foram investigados e não houve evidências físicas para explicá-lo».

Exemplos similares e frequentes foram registrados, disse. «Existem vários casos documentados na literatura científica que dizem que se contagiaram sintomas ou comportamentos como estes, por uma pessoa que iniciou uma determinada situação. Isso ocorre em meio de situações tensas, vistas pelas pessoas como ameaçadoras, o que produz essa resposta de estresse e depois se espalha para as pessoas ao seu redor».

«Existem vários exemplos que explicam que isso é realmente plausível», acrescentou Zaldívar, «onde um grupo está sujeito a alguma tensão, e um deles interpreta um fato como perigoso, a emoção que acompanha essa percepção pode ser contagiosa para o resto dos membros do grupo e eles todos podem apresentar a mesma sintomatologia».

A doutora Yamile González Sánchez, especialista de segundo grau em Higiene e Epidemiologia, apontou que seria útil investigar a história ocupacional de cada funcionário afetado, antes de ter trabalhado em nosso país. «Isso permitiria avaliar o nível de estresse acumulado de cada um dos funcionários ou a presença de outra doença de antemão».

«NÃO SABEM NADA ACERCA DE CUBA E DE SUA REVOLUÇÃO»

Usuários da Internet em diferentes latitudes tiveram a possibilidade de trocar critérios e fazer perguntas ao comitê de especialistas cubanos que estudou os detalhes do caso. O grupo é composto por especialistas em física, engenharia das telecomunicações, medicina interna, neurologia, neurofisiologia, otorrinolaringologia, audiologia, epidemiologia, saúde ambiental, entomologia, psicologia e sociologia.

«Como é que nunca foram apresentados às autoridades sanitárias cubanas os testes médicos que eles disseram foram realizados nos Estados Unidos?» pergunta no Fórum Iván Sergio Reyes Salazar, especialista em Medicina Interna. «São as perguntas que nos fazemos todos os dias, então assumimos a tarefa de ler as opiniões dos especialistas».

Reyes Salazar questiona as verdadeiras intenções de Washington. «Em nossa opinião, isso é algo orquestrado pela administração do senhor Trump para iniciar a escalada de medidas que já tomou contra o nosso país. Apesar disso, os cubanos continuaremos avançando. Sempre com a verdade e nosso orgulho de ser cubanos», concluiu o perito.

«Este fato desagradável que dificulta o progresso das relações entre dois países é apenas outro exemplo do pouco conhecimento que a atual administração dos Estados Unidos tem sobre a realidade cubana. Eles usam fórmulas muito desatualizadas, não sabem no mínimo o nível, a preparação e a realidade que vive um povo de trabalhadores e pessoas solidárias educadas por Fidel e Che Guevara», disse o usuário Lázaro Rodríguez Bello.

Um usuário identificado como Lazaro destaca a natureza paradoxal dos supostos ataques sônicos: «Qual seria o motivo para Cuba atacar os diplomatas de um país com o qual as relações foram restauradas? Qual tecnologia futurista é necessária para causar danos efetivos às pessoas? Cuba possui essa tecnologia?»

Estas e outras questões são o produto de uma lógica simples, acrescentou, de bom senso, que não deve ser abandonado nesta história de ficção.

«Cuba, com seus princípios éticos e política interna e externa, respeita e protege os funcionários das embaixadas de todos os países em nosso território, não há comportamento de agressão em nosso desempenho, pelo contrário, todas as medidas são tomadas para protegê-los, mesmo de seus próprios inimigos», disse Xiomara Carla, observando que Washington tem uma «lista longa e documentada de ações contra o nosso país, incluindo o assassinato de diplomatas da maior das Antilhas no seu território».

«Agora que estava começando um caminho de normalização das relações entre nossos países, há fatos que claramente não beneficiam nossos povos e sim àqueles que vivem dos negócios desta longa disputa e quem sabemos muito bem quem eles são, o lobby sem pátria da direita anticubana, em aliança com a elite imperialista, que não deixa de tentar derrubar a Revolução Cubana», acrescentou.

A este respeito, o doutor Francisco Beltrán Fernández, colaborador das Brigadas Médicas Cubanas no Equador, acredita que, se os Estados Unidos não foram capazes de ter uma arma com essas características, muito menos Cuba. «Esta ação mostra apenas quem é aquele que realmente dirige a política em relação ao nosso país: a máfia cubano-americana e não o presidente», acrescentou.

«A mudança de política assumida pela administração Donald Trump faz parte da estratégia dos serviços de inteligência americanos para realizar fatos e continuar prosseguindo suas ações hegemônicas, que vêm realizando há mais de meio século contra a Ilha maior das Antilhas, escondendo-se agora, atrás destas justificativas sem sentido», disse Camila Moreno.

Bessy Cutié Batista apontou que todos os cubanos são testemunhas de que durante toda a história da Revolução cubana, muitas foram as mentiras do governo dos EUA contra o nosso país, tudo baseado em um único pensamento, para questionar a ética do nosso país.

«Que mente pode acreditar que nós somos capazes de cometer os alegados ataques acústicos aos diplomatas dos EUA. Não há provas suficientes para dar uma conclusão que carece de fundamentos científicos para apoiá-la», acrescentou. «Os supostos ataques acústicos constituem uma farsa para justificar a saída dos diplomatas da embaixada dos EUA em Havana e dar um passo atrás no processo de normalização das relações entre Cuba e os Estados Unidos».

VERIFICAR ANTES DE ACUSAR

O uso de argumentos científicos falsos, como agora os supostos ataques sônicos, poderia criar um precedente na esfera internacional que comprometeria os preceitos éticos da ciência em conflitos maiores?, foi a pergunta feita a este jornal pelo doutor em Ciências Michel Valdés-Sosa, diretor do Centro das Neurociências de Cuba.

«Eu acho que sim e há evidências recentes de como o mau uso da informação científica, por ter ignorado essa informação científica leva a decisões erradas», disse Valdés-Sosa.

Ele pôs o exemplo de que, nos Estados Unidos há muito tempo, houve uma campanha que argumentava que o autismo era causado por vacinas e muitos pais pararam de vacinar seus filhos. Como resultado, as doenças que foram erradicadas através da vacinação ressurgiram novamente.

«E ainda que a comunidade científica lutasse por anos para esclarecer a evidência, agora o governo dos Estados Unidos, a administração de Donald Trump, está reativando essa questão e ressurge a hipótese desacreditada de que o autismo é causado pela vacinação».

Disse que, no caso dos supostos ataques acústicos, não há base científica para as alegações de que os diplomatas dos EUA foram atacados e já vemos as consequências: distanciamento entre os dois países, interrupção dos serviços consulares, retirada de diplomatas dos EUA de Cuba, expulsão de diplomatas cubanos.

«Isso vai contra as relações bilaterais e, embora em suas declarações, eles dizem que não têm nada a ver com os supostos ataques, todo o ambiente que foi criado em torno desses fatos alegados cria o clima apropriado para se mover nesse sentido», acrescentou.

Ele especificou que não há dados firmes, não há evidências sólidas para fazer afirmações que o governo dos EUA fez. «Os preceitos da ciência nos dizem que, em primeiro lugar, as coisas devem ser verificadas».

Sobre os requisitos que uma evidência deve atender para ser considerada válida, do ponto de vista científico, ele explicou que é um critério da comunidade internacional que a informação deve ser aberta; fala-se em «ciência aberta, de código livre».

«Os dados devem ser compartilhados para que possam ser verificados, porque os dados justificam as conclusões extraídas de qualquer investigação», disse.

«A segunda condição, acrescentou, é que os testes objetivos devem ser introduzidos e que em medicina, estes dados existem para confirmar a origem dos possíveis sintomas ou problemas que podem existir».

«O terceiro, continuou, é a replicação independente, não com base nos resultados de um único laboratório, mas pelo menos dois ou mais possam ter acesso a informações primárias».

«Neste caso, a possibilidade de que diferentes médicos façam uma avaliação independente, porque um especialista ou um laboratório podem estar errados», indicou. «Dados abertos, evidências objetivas e replicação independente são três elementos aceitos internacionalmente em qualquer investigação». •

Opiniões de especialistas internacionais

Doutor Cláudio Yampolsky, neurocirurgião argentino, chefe do Serviço de Neurocirurgia do hospital italiano de Buenos Aires, presidente eleito da Federação Latino-americana de Sociedades de Neurocirurgia, que envolve nove mil especialistas do nosso continente, disse ao nosso jornal que:

«Desde há muito tempo, os médicos fazemos algo que se chama medicina baseada em evidências, não fazemos medicina a partir de rumores, comentários ou fantasias. A única evidência é poder verificar que hás algum tipo de dano. Sem conhecermos pormenores desses supostos traumas acústicos, o fato de que supostas ondas acústicas possam afetar o cérebro é altamente improvável. A medicina alicerça em evidências e isso é um paradigma, de maneira que todos os profissionais conhecemos disso».

James Auchem, biólogo, cientista aposentado, que pesquisou os efeitos biológicos da energia acústica no laboratório de pesquisas da Força Aérea dos Estados Unidos:

«Não são conhecidos os elementos que têm os pesquisadores para declarar que se trata de uma arma acústica e que manteria o ceticismo quanto aos relatórios que foram dados». O cientista acrescentou que seria difícil produzir uma arma sônica que produza os efeitos que foram declarados e da mesma maneira os testes com animais têm demonstrado que as armas infrassônicas não são práticas.

Carlos Cuilty Siller, otorrinolaringologista, com 20 anos de experiência na especialidade, cirurgião especializado em procedimentos nasais, sinusais, rinoplásticos e endoscópicos da base do crânio:

«Acho bem difícil de explicar que possa haver um dano auditivo, especificamente encaminhado a um grupo de pessoas. Não pude ver os estudos clínicos dos sujeitos supostamente afetados, pelo qual não tenho evidência alguma de que tenha havido essa tal afetação».

Robin O. Cleveland, engenheiro, professor de engenharia na Universidade de Oxford:

«Resulta difícil acreditar que as pessoas sofressem danos cerebrais, já que o som teria que chegar diretamente ao tecido cerebral e seguindo o mesmo princípio dos equipamentos de ultrassom, caso existir ar entre o corpo e o som, este não consegue atravessá-lo».

Robert Bartholomew, sociologista neozelandês, Autor de The Encyclopedia of extraordinary social behavior (Surto: A enciclopédia do comportamento social extraordinário):

«Até não sabermos mais, a possibilidade de histeria em massa com certeza está em jogo... É muito possível que este grupo seja de natureza psicogenética, já que a maioria dos sintomas são dores de cabeça e enjoo, enquanto o caso mais grave é definido como ‘lesão cerebral traumática leve’, que eu não sei o que quer dizer, e que poderia não estar relacionado».

Jay Salpekar, neurologista, diretor do Programa Neurocondutual, do Childrens National Medical Center, em Washington, com 24 anos de experiência:

«O estresse é a causa principal do transtorno de conversão, entendido como sintomas neurológicos, que não são relacionados com nenhuma afecção neurológica conhecida e que é capaz de produzir sintomas como fraqueza, paralisia, ou perda da visão ou da audição».

Miguel Ángel Arráez, chefe do Serviço de Neurocirurgia do Hospital Universitário Carlos Zayas e presidente da sociedade Espanhola de Neurocirurgia, indicou ao jornal Granma que o assunto dos supostos ataques acústicos lhe parece pitoresco.

«Nos 40 anos que eu estou em contato com a Medicina e o sistema nervoso, especificamente, não tinha escutado nada parecido», afirmou este especialista, que participou de um evento dessa especialidade, em Havana. «Parece ser mais uma história de ficção científica, ligada ao mundo dos discos voadores».

Silvia Kochen, diretora do Laboratório de Neurociência Clínica, Epilepsia e Conhecimento, da Argentina:

 

«Não há nenhuma evidência científica do que se expõe na queixa. Quando fui procurar dados objetivos através de estudos diagnósticos, tampouco achei nada», afirmou.

Comentários no debate na Internet

Gustavo de la Torre Morales:«Cuba caracterizou-se por estabelecer relações de cooperação, ajuda solidária e de trabalho organizado em equipes, respeitando os protocolos de segurança para todos os envolvidos e, sobretudo, com grande sentido da ética e respeito para outros povos e governos. Como acreditar que Cuba deseja fazer ataque algum, quando mesmo do começo da Revolução tem se trabalhado no sentido contrário às acusações que tentam lançar sobre ela? A Revolução Cubana nunca agiu dessa maneira e não está incluído em seus princípios de atuação; no entanto, Cuba foi vítima de incontáveis atos de terrorismo, manobras e campanhas da mídia, planejadas e montadas a partir do território dos Estados Unidos. Inclusive, a partir dos escritórios da outrora Repartição de Interesses e hoje embaixada dos EUA em Cuba organizaram-se conluios para derrocar a Revolução Cubana ou embaçar sua imagem».

Leyma:«Eu não sou médico nem especialista nesse tema, mas considero que não é lógico pensar que um suposto ataque acústico ou sonoro possa afetar apenas um grupo reduzido de pessoas, e ainda mais se este ataque foi provocado em zonas onde o nível de população é alto e não foram diagnosticados outros casos, somente os dos diplomatas estadunidenses. Parabenizo os cientistas cubanos e estrangeiros pelas conclusões às que chegaram, para que dessa forma venha a público, baseada em fatos científicos, a inocência do governo cubano e as calúnias que sobre nós inventa o governo dos Estados Unidos».

Eyismara Crombet:«Os Estados Unidos sempre acusando o povo de Cuba, mais uma das suas patranhas, desmentida de novo».

Dr. José Luis Aparicio Suárez. BMC Angola:«Os médicos sabemos que os ruídos muito altos podem afetar as estruturas do ouvido interno, causando perda da audição, temporária ou permanentemente, de um ou de ambos os ouvidos. E, ao mesmo tempo, compreendemos que são manipuladores aqueles que tentam, com a maldade na estribeira e usando bigorna e martelo, destruir a integridade moral de Cuba. O prestígio de nossa Ilha é bem percebido e escutado nos olhos e nos ouvidos do mundo. Essa jogada escusa não vai prejudicar o nervo auditivo dos povos, cuja ‘cóclea’ permite escutar claramente a verdade de um povo com virtude e decoro...»