ÓRGÃO OFICIAL DO COMITÊ CENTRAL DO PARTIDO COMUNISTA DE CUBA
Para a técnica de laboratório Rita Silvina Cuevas Dorce, o internacionalismo é o cumprimento do dever. Photo: Nuria Barbosa León

SALDAR uma dívida com a Revolução significa o internacionalismo para Rita Silvina Cuevas Dorce, que trabalha nos laboratórios de diagnóstico do hospital docente, clínico-cirúrgico Comandante Manuel Fajardo, em Havana.

Ela contou ao Granma Internacional: «Ao ocorrer o terremoto no Paquistão, os diretivos do ministério da Saúde Pública de Cuba fizeram uma seleção dos melhores trabalhadores do setor para ajudar esse país asiático. Foi para mim a primeira missão com o Contingente Internacional de médicos, especializado em situações de desastres e graves epidemias Henry Reeve, criado pelo Comandante-em-chefe, Fidel Castro, em 19 de setembro de 2005».

«Viajei em 4 de novembro desse ano até 25 de março de 2006. Fui trabalhar a uma zona rural. Ao chegar a brigada médica, levantamos barracos e aí estabelecemos o hospital. Lembro as grandes geadas noturnas e o gelo acima dos telhados. Montamos o laboratório em um desses barracos, com móveis improvisados. Para processar algumas provas devíamos aproximá-las do aquecedor, porque as baixas temperaturas impediam obter resultados verídicos».

Principais impressões daquele lugar?

«A população se dedicava a produzir e vender produtos agrícolas, percebia-se uma grande carência de muitos recursos materiais e uma prática acentuada da religião islâmica».

«No começo, as mulheres eram proibidas de ser examinadas pelos médicos cubanos mas, aos poucos, conseguimos ganhar sua confiança até que entenderam que éramos profissionais e acederam a ser examinadas clinicamente».

Como se comunicavam?

«Um obstáculo foi o idioma. Com os colegas paquistaneses nos comunicamos em inglês, mas com a população necessitamos tradutores voluntários. Igualmente, aprendemos diálogos curtos para conhecer o imprescindível».

«Chamou nossa atenção o momento das preces. Eles, às 6h da manhã, ao meio-dia e às 6h da tarde rezam, deixam a um lado qualquer atividade para cumprir esse mandato. Ao chegar a Islamabad, a capital, acordamos assustados depois de passadas as seis horas, porque sentimos um eco no ambiente e depois nos explicaram que as preces são feitas em uníssono e tudo deixa de funcionar».

«Igualmente, sentimos várias réplicas do terremoto que nos assustaram. Uma vez ocorreu um sismo no Afeganistão e nós percebemos o abalo, como se tivesse ocorrido ao nosso lado. As barracas abanaram durante uns minutos e corremos a um lugar descampado. Por fortuna, antes de partir de Cuba nos explicaram como devíamos enfrentar uma catástrofe natural de tal envergadura».

Ao concluir no Paquistão, fez parte de alguma outra brigada médica?

«Fui à Bolívia, desde maio de 2006 até setembro de 2008. Trabalhei em uma clínica privada, propriedade de um italiano, situada na comunidade rural de Matogroso, na cidade de Carabuco. Ali, uns 20 cubanos trabalhamos em várias especialidades médicas».

«Os donos se opuseram ao nosso trabalho e o governo teve que interceder. Eles não entendiam que o atendimento médico devia ser oferecido de forma gratuita. Tivemos que enfrentar uma luta tenaz para não cobrar as cirurgias. Conseguimos isso porque aceitamos que fosse paga apenas a entrada à instituição, algo que eles denominavam ‘O umbral’».

Como foi o tratamento da população?

«A população se dedicava à agricultura e várias vezes o presidente Evo Morales nos visitou, conheci-o pessoalmente e nos tratava como amigos».

«Antes de chegar a brigada médica de cubanos os moradores curavam as feridas com plantas. Em muitos casos se infestavam. Morriam de tuberculose e desnutrição. Nós conseguimos melhorar os índices sanitários. Eles nos apreciavam porque o médico cubano palpava o paciente, sem importar a classe ou procedência social».

Experiências do trabalho na Bolívia?

«Na Bolívia, conheci parasitas que jamais vi em Cuba. Também devi ensinar vários jovens bolivianos acerca de como proceder nos testes de laboratório. Fui testemunha de como se reduziu a taxa do contágio da tuberculose, graças à intervenção dos médicos cubanos. Igualmente, presenciei a alfabetização da população utilizando o método cubano para aprender a ler e escrever ‘Sim, eu posso’».

Por que você diz que saldou uma dívida com a Revolução?

«Ainda menina, soube que minha família participou das ações para apoiar a guerrilha na Serra Maestra, liderada por Fidel Castro, até obter o triunfo. Vi como eram confeccionadas bandeiras, braceletes do Movimento 26 de Julho e uniformes verde-oliva».

«Em minha casa foram feitas várias reuniões de revolucionários para apoiar o Exército Rebelde. Como eu não participei diretamente fiquei com certa insatisfação. Só me senti bem quando cumpri estas missões internacionalistas».