Comunidade Pogolotti: Uma ponte de amizade entre a Itália e Cuba › Cuba › Granma - Organo ufficiale del PCC
ÓRGÃO OFICIAL DO COMITÊ CENTRAL DO PARTIDO COMUNISTA DE CUBA
À direita, a professora universitária já aposentada Acela Caner Román e ao lado dela a italiana María Ángela Marengo. Photo: Nuria Barbosa León

A troca familiar e comunitária deixa um legado perdurável entre italianos e cubanos, os quais estreitam vínculos fraternos na comunidade Pogolotti, localizada no município havanês de Marianao.

Esse território, constituído também como um Conselho Popular, dentro da estrutura institucional cubana, chamado Pogolotti, foi o primeiro bairro operário construído no século 20, na Ilha maior das Antilhas, depois de culminar a guerra de independência contra a Espanha. Nele morou uma família de intelectuais destacados cujo sobrenome foi tomado para nomear o local.

O italiano Doménico ‘Dino’ Pogolotti (1873-1923), vindo do Piamonte, comprou um lote de terra barata em uma zona rural da periferia de Havana, com vestígios de ruína total, por causa dos conflitos bélicos acontecidos no país em finais do século 19. Para incrementar o valor desse lote, iniciou um projeto arquitetônico urbano, hoje presente na característica das ruas, o aqueduto e os edifícios.

Seu filho, Marcelo (1902-1988) continuou contribuindo para o bairro, a partir do prestígio do seu nome e as receitas geradas pelas obras pictóricas que fez, como representante da corrente de pintores vanguardistas. Seus quadros mostram as pas-seatas dos operários em Marianao exigindo emprego e descrevem o ser humano alienado perante o poder que o submete à exploração.

Esse orgulho de pertencer de alguma forma a esse território também foi assumido pela intelectual Graciela Pogolotti, filha de Marcelo e colaboradora das páginas do jornal Granma. Ela igualmente contribui para a concretização de alguns projetos sociais combinados com a Universidade de Altos Estudos de Torino, na Itália.

Acerca deste trabalho, a professora universitária já aposentada, Acela Caner Román relata que a partir de 2002 se realizam ações no bairro para melhorar a qualidade de vida dos moradores e nela contribuem a Associação de Amizade Itália-Cuba, a prefeitura de Giaveno, da região de Piamonte, o sindicato de Aposentados Italianos, o Museu da Emigração de Torino e outras instituições dessa nação europeia.

Pela parte cubana, inserem-se o ministério da Educação Superior, o Grupo de Desenvolvimento Integral da capital, o governo do município, o Instituto Cubano de Amizade com os Povos e a União dos Escritores e Artistas de Cuba, que concretizam suas ações na Oficina de Transformação Integral, composta por uma casa comunitária com espaços para idosos e jovens.

Todo tem a ver com projeto social Sinergia em Pogolotti, com pesquisas concretas acerca das origens da comunidade, suas aspirações e modos de convivência, que influi na população para que as pessoas participem de um trabalho coletivo de construção comunitária, consolidem seus conhecimentos e contribuam a partir das suas individualidades.

«Esse projeto propiciou saber que em Cuba a família italiana mais destacada é a de Piamonte e se concretiza na edição de vários livros, resultado das pesquisas realizadas. O texto é divulgado nas escolas cubanas e de Torino. Com isso, as pessoas conhecem mais acerca de suas origens e isso ativa o sentido de pertença e de orgulho pelo bairro», asseverou Caner Román, mestre em ciências em Geografia e vereadora da 53ª circunscrição de Marianao (função equivalente à de um líder comunitário).

Exemplifica isto com a participação dos artistas do bairro no Festival Internacional das Artes Visuais, conhecido como a Bienal de Havana, em 2015, na qual os espaços coletivos se tornaram galerias para expor obras dos próprios artistas da comunidade e trazer amostras de outras personalidades de prestígio internacional.

Igualmente, nas escolas de Torino se incentiva o interesse por conhecer Cuba a partir dos relatos levados aos centros docentes, bem como o desenvolvimento da dança, o canto, a pintura e outras artes.

Aliás, incentiva-se a correspondência entre as crianças italianas e cubanas.

«Neste projeto do bairro cada um contribui segundo seu co-nhecimento, dessa forma participamos da criação de uma casa para os jovens e realizamos um workshop para a aprendizagem de corte e costura. As máquinas de costura chegaram da Itália, a partir das estratégias do projeto Sinergia. Também os adolescentes desejaram aprender acerca da culinária e gastronomia, por isso foi criado um espaço para estes conhecimentos», significou a entrevistada.

Outra das contribuições está registrada no livro Encontro entre Amigos, que contém receitas da culinária cubana e da de Piamonte, lançado em 24 de fevereiro, para comemorar a data de fundação do bairro e que registra o conhecimento das artes culinárias, levando em conta a experiência familiar e as tradições de cada lar.

Caner Román concluiu suas palavras afirmando: «Perseguimos o conhecimento entre os povos, a solidariedade e a amizade. Trabalhamos para melhorar as condições materiais, mas também o espiritual, para que haja felicidade e alegria».

Com ela coincidiu a italiana María Ángela Marengo, quem desempenhou a função de diretora do Gabinete de Troca de Estudantes e Professores, da Universidade de Altos Estudos de Torino e atualmente é aposentada.

Assevera que nos resultados do projeto social Sinergia está o esforço pessoal delas para motivar os líderes governamentais em ambos os países.

Também sensibiliza as crianças e as famílias na Itália para que contribuam, embora seja pouco em termos monetários e possa ser financiado o projeto, principalmente na compra de câmeras fotográficas para um workshop de fotografia. Aliás, contribui para a agência de turismo: Viagem Solidária, a qual ofereceu algum financiamento para o bairro.

María Ángela perdeu o número das viagens que fez a Cuba, mas assevera que esta Ilha caribenha é historia vivente, na qual vibra o legado de Che Guevara e Fidel Castro.