ÓRGÃO OFICIAL DO COMITÊ CENTRAL DO PARTIDO COMUNISTA DE CUBA

«EU sou improvisador e gosto disso porque é um jeito muito artístico, espontâneo e original para me comunicar e expressar meu sentimento. Quando era mais nova olhava minha avó escrevendo décimas. Eu as aprendia e as cantava com ela, mas não tinha conhecimentos acerca do tema. Não sabia o que era uma décima cantada ou improvisada, mas um dia assisti ao workshop», disse-me Adriana Fajardo Pérez ao passo que cumprimenta seus colegas do workshop de improvisadores em Mayabeque, um dos muitos que existem no país.

Junto a ela participam Susel, Anthony, María Carla e mais 12 crianças. Parece um grupo muito diverso. Alguns têm bonés e calças à moda, usam tênis e camisetas. Outras usam sapatos de salto altos e até parecem maquiadas. Rainy começa a tocar o alaúde e Claudia canta uma toada. Agora, todos atendem, já não parecem tão diferentes. São como aqueles vestidos pendurados na corda, no final do quintal, todos brancos, com laços vermelhos.

O ambiente é familiar. Adriana diz que assim entrou em contato com a improvisação, fez muitos amigos e uma professora que a levou a se apaixonar por esta arte. «No workshop descobri que tenho um dom, que sempre estará em minha vida e que me permite demonstrar quem sou», acrescenta.

Os workshops especializados em improvisação infantil surgiram em 2000 e seu principal impulsor foi Alexis Díaz Pimienta. Desde os começos até agora pretendem manter a vitalidade do Punto Cubano, uma tradição procedente das raízes camponesas e que identifica Cuba.

«Durante os primeiros anos os workshops não abrangiam todas as províncias, mas hoje contamos com 108 no país todo. Os territórios mais fortes nesta prática são Las Tunas, Mayabeque e Pinar del Río, no entanto os workshops de corda ou de acompanhamento musical existem em quatro províncias: Artemisa, Mayabeque, Sancti Spíritus e Las Tunas», asseverou Yenisledy González García, especialista dos workshops especializados em improvisação e acompanhamento musical, adstritos ao Centro Ibero-americano da Décima e o Verso Improvisado.

O IMPROVISADOR NASCE OU SE FAZ?

«Quase sempre a tradição vem dos avôs», comentou Anthony Mauri Gacita, outro dos garotos do workshop. «Ele (meu avô) me ensinou décimas e um dia me trouxe, matricularam-me e a partir desse momento venho aqui. A improvisação faz parte da minha vida. Prático diariamente. É uma satisfação quando percebo que avancei muito na arte da que gosto, também as pessoas me aplaudem e isso me enche de alegria».

Nos workshops podem participar as crianças que desejem. As captações se realizam em todas as escolas e depois se ministram as aulas, preferentemente, aos sábados, durante duas horas. As casas de cultura do país são os lugares por excelência para estes encontros. Nelas, as crianças aprendem a estrutura da décima, desenvolvem conhecimentos de linguística e ampliam o vocabulário. Caso quiserem podem-se tornar improvisadores, cantores de toadas, escritores e pesquisadores.

«Para os workshops de cordas», explicou Yenisledy González, «é mais difícil encontrar interessados porque aí é preciso que exista um grande interesse pela música. Nestes se ministram aulas de três, alaúde, violão e percussão menor, que são os instrumentos base para o acompanhamento do Punto Cubano.

«O objetivo é formar crianças improvisadoras, mas nem sempre acontece assim. Eu acho que a criança o leva dentro. Percebe-se no workshop, desenvolve-se e o aperfeiçoa. Muitas não terminam o workshop mas, inclusive, com estas que não continuam, acontece algo interessante; após retornarem à escola e receberem aulas de Língua Espanhola, mostram um amplo conhecimento do idioma».

As crianças se sentem encorajadas porque em cada província as Casas de Cultura têm um plano de atividades nos que elas se inserem. Por outra parte, no Centro Ibero-americano da Décima e o Verso Improvisado se preparam seminários para as crianças, eventos nacionais, seminários para professores.

«É um trabalho complexo porque se faz para todo o país e muitas vezes os recursos materiais dificultam o desempenho, mas é uma responsabilidade, e cada um dos que trabalha aqui a assume, sobretudo, com amor à tradição», expressou Yenisledy González.

PRESENÇA DE UMA TRADIÇÃO

Susel Pérez Pérez começou os workshops e embora primeiro estivesse interessada nas toadas, hoje também toca o três.

«Quando era mais nova escutava tocar o três a meu avô, que é poeta improvisador, e a meu pai, que não é profissional. A música sempre permanece em meu lar e o enche de vida. Sempre tive o temor de subir ao palco. Comecei nos workshops especializados em improvisação e hoje o prático e faço o melhor possível. Tomara que no futuro fosse profissional, para defender este gênero tão belo», alegou Susel.

«A tradição em Cuba é forte, é representada muito bem pela juventude e é a base das crianças que surge dentro do gênero. Os jovens que hoje praticam, como eu, somos resultado dos workshops de improvisação infantil. Acho que a preparação é diferente. Os poetas mais longevos não tiveram a chance de ter um workshop, um professor que os guiasse, ensinasse os recursos literários, eles todos aprenderam de forma empírica. Somos afortunados de contar com estes workshops», comentou Yenisledy González.

Mais de mil crianças em todo o país participam atualmente dos workshops especializados em improvisação e acompanhamento musical. Esta ideia, que há 18 anos vem se consolidando no país, sustenta a tradição e também a mais recente declaração da Unesco, que reconhece o Punto Cubano como Patrimônio Imaterial da Humanidade.

«Um dos requisitos que pede a Unesco para que algo seja declarado patrimônio é sua continuidade», explicou ao semanário Granma Internacional a presidenta do Conselho Nacional de Patrimônio Cultural, Gladys Collazo Usallán.

«Não se declara patrimônio algo que se pode perder no decurso do tempo, faz-se quando sua continuidade está garantida e o Punto Cubano é algo vigente. Ter conseguido esta declaração significa muito, sobretudo, para os praticantes. Sempre dizemos que é uma festa e um reconhecimento importante para aqueles que sua forma de viver é essa, e que a têm presente em seu trabalho, para depois de terminar o expediente juntar-se e fazer as festas camponesas (guajiras), que já fazem parte da nossa identidade», acrescentou.

«A professora nos disse depois que o Punto Cubano foi declarado Patrimônio Imaterial da Humanidade, que para nós sempre tem que ser um patrimônio imaterial da alma e levá-lo dentro», lembrou Adriana quando lhe perguntei pela declaração.

«O Punto Cubano merece ser valorizado a partir da óptica musical e a partir da qualidade da poesia que se improvisa. Não é necessário que haja cordas para falar em improvisação. É um sentimento que acompanha as cordas e uma arte que nos identifica», disse-me justamente antes de terminar a aula. Talvez, sua resposta resulta muito elaborada para sua idade, mas são as habilidades que adquirem as crianças que como elas desfrutam da improvisação e do Punto Cubano.

No final do quintal não há nada, os vestidos brancos de laços vermelhos vão acompanhados agora de violão, alaúde e três. Todos ficam prontos para começar a festa camponesa (chamada de ‘guateque’).