
CARACAS.— Apesar de saber que está travando a mais difícil das batalhas, a dos genes, Melissa Silva Cambra trabalha em sua consulta no Centro Nacional de Genética, com calma exemplar. Uma família pobre de Charallabo, no município de Paz Castillo, no estado de Miranda, veio vê-la com um velho pedido — «por favor, ajude-nos a desvendar esse mistério!» — e a jovem médica venezuelana promete determinar a doença que castiga várias gerações da família Valero González.
Melissa, que em Cuba se tornou médica e especialista em genética clínica, tem naquela manhã uma razão adicional para o orgulho: ao seu lado está a eminente cientista cubana Aracely Lantigua Cruz, uma de suas professoras mais queridas. «Este caso é uma investigação. Recolha toda a informação para sua tese de doutoramento, que você tem que defender em Cuba. Eu vou ser sua tutora», diz Aracely e a jovem médica sorri, corando: «Tudo bem, professora...»
Mais do que seu óbvio brilho pessoal, a doutora está interessada em ajudar essas famílias. Além de investigar o mal que as aflige, ela certifica o cartão de deficientes que lhes permitirá o acesso, a partir dos conselhos comunais, à ajuda econômica do governo bolivariano. É a saúde com coração que a medicina privada e o seguro nem sequer reconhecem nas consultas de Cardiologia.
Para ela isso é normal: foi a primeira coisa que ela aprendeu em Cuba, pois quando se formou em Medicina, em 1999, e voltou, trabalhou por três anos em comunidades indígenas. Mais tarde, na Universidade das Ciências Médicas em Havana, ela viu seu amor pela genética coroado em um novo título.
«Vocês colaboraram com uma equipe médica e de laboratório experiente, que nos apoiou clínica e cientificamente. Este Centro de Genética recebe apoio do Centro Nacional de Genética de Cuba. Cuba também apoia a formação de conselheiros genéticos para as comunidades que são articuladas com consultas, amostras, exames e avaliações», reconhece Melissa, um exemplo em uma missão social que completou recentemente dez anos: José Gregorio Hernández.
SEMPRE CHÁVEZ E FIDEL
A médica cubana Carmen Maday Canosa Carballo, assessora nacional da Missão José Gregorio Hernández e das Salas de Reabilitação Integral, começa com duas evocações: «A Missão, nomeada em homenagem a um proeminente especialista em saúde venezuelano, surge de uma ideia de Chávez e de Fidel. e teve como pano de fundo o estudo genético psicossocial, pedagógico e clínico das pessoas com deficiências e seus parentes, realizado em Cuba entre 2001-2003».
Em 2007, Fidel e Chávez concordaram em iniciar um estudo piloto na paróquia de Caucaugua, no município de Acevedo, em Miranda, que depois foi estendido para todo o estado e, em dezembro de 2007, para o Delta Amacuro. Em 2008, ele se expandiu por toda a Venezuela até 15 de março daquele ano, Chávez constituiu a Missão José Gregorio Hernández.
«É assim que foi concebida a primeira visita de casa em casa», lembra Maday, «e em 2010 a segunda foi realizada para avaliar as condições de vida dessas pessoas e ajudá-las. Em 2014, o terceiro estudo mostrou que havia 336 pessoas com deficiências, com predomínio de motor físico, seguido de intelectuais».
Em uma década de missão foram visitadas 1.681.290 casas e certificadas no Conselho Nacional para Pessoas com Deficiência (Conapdis), mais de 358 mil venezuelanos. Por esta razão, os serviços médicos atenderam umas 588 mil pessoas e foram entregues mais de um milhão de ajudas técnicas, suprimentos e aparelhos auditivos. A doutora Maday acrescenta que a Missão tratou 390 mil pessoas acamadas e treinou as famílias para seus cuidados. São os números do amor.
«Mas a Missão — de acordo com o coordenador — não lida apenas com pessoas com deficiências; inclui também mulheres grávidas, especialmente aquelas com alto risco obstétrico. Por outro lado, temos 586 Salas de Reabilitação Integral no país».
A Venezuela possui uma rede genética comunitária destinada a detectar riscos. Todos os estados têm mestrados em aconselhamento genético, que consultam desde a base até mulheres grávidas, crianças e outros parentes. O sistema inclui o Centro Nacional de Genética, que fornece serviços de aconselhamento genético, genética clínica, testes laboratoriais e ecossonogramas para o check-up pré-natal e pós-natal de defeitos congênitos.
Seu diretor, doutor Lino Oviedo de la Cruz, resume o trabalho da década: mais de 44.500 consultas — aconselhamento genético, genética clínica, neuropediatria e psicologia — e 33.600 estudos de ultrassom, enquanto estudos históricos de cromossomos excedem os 3.700, os metabólicos excedem os 320, e os moleculares, os 190. Uma ciência do primeiro mundo com a gratuidade da Revolução.
Como parte do Acordo Abrangente de Saúde Cuba-Venezuela, o Centro de Genética Médica envolve pessoal dos dois países. No dia do relatório, 11 novos mestres se formaram lá, elevando para 34 os especialistas venezuelanos integrados ao sistema em 17 estados. Cinco professores cubanos do Centro Nacional de Genética Médica da Ilha, liderado pela doutora Aracely, formaram o tribunal.
MESTRES DA IRMANAÇÃO
Calma, aberta ao diálogo e até ao sorriso, Aracely Lantigua Cruz tem alguns títulos difíceis de memorizar: pesquisadora sênior e professora de consultoria na Universidade das Ciências Médicas de Havana, presidente de dois comitês de mestrado (em aconselhamento genético e em genética médica) e professora de Genética Clínica.
Ela fala de outra grandeza: «Tenho que mencionar Fidel. Quando o trabalho acerca da incapacidade foi feito em Cuba e muitos casos de origem genética foram detectados, ele queria que essas pessoas fossem atendidas a partir da formação da comunidade e pediu aos professores emergentes que explicassem seus problemas e quais poderiam ser as medidas preventivas».
A especialista explica: «Cerca de 700 médicos com essas características foram treinados, depois fomos ao programa normal, com dois anos, mais treinamentos e pesquisas de defesa de tese. Foi aí que vieram os professores venezuelanos, bolivianos e nicaraguenses... enfim, treinamos conselheiros genéticos para a ALBA-TCP».
A Venezuela, que obteve a sede desse mestrado, pode, graças à solidariedade, formar especialistas como o doutor Yohnny Colmenares, que em nome dos 11 novos mestres em aconselhamento genético improvisou um belo discurso. «Chávez sempre deu aos venezuelanos portas para a vitória. Ele nos deixou o legado de saber que em nosso coração está o que realmente queremos ser», disse o médico, que também lembrou Fidel e agradeceu aos irmãos cubanos por trazerem o que têm. «Eu não duvido que o que nós agora recebemos será compartilhado», previu.
É a pátria comum mencionada em diferentes intervenções pelo doutor Leonardo Ramírez Rodríguez, vice-chefe da Missão Médica Cubana na Venezuela, e por Soraida Ramírez Osorio, presidenta da Fundação Missão José Gregorio Hernández.
No Centro de Genética, um busto de Chávez — quem o inaugurou em 14 de outubro de 2009 — lembra em uma frase que isso é «socialismo puro». Bem sabe disso Melissa, a jovem médica formado em Cuba e agora determinada em desvendar, com olhos sensíveis, os mistérios que oprimem famílias pobres como a de Valero Gonzalez.







