ÓRGÃO OFICIAL DO COMITÊ CENTRAL DO PARTIDO COMUNISTA DE CUBA
O contingente Henry Reeve foi criado em 19 de setembro do ano 2005 por Fidel. Foto: Enrique Milanés León

CARACAS.— Juntos, Marta, Florinda e Dionel são uma espécie de aula de geografia mas, acima de tudo, um ensinamento de amor. Quando alguém fala com eles e se tenta seguir sua trajetória na clara superfície de um «mapa» de batas brancas, entende-se perfeitamente o que milhares de cubanos como eles estão fazendo, tresandando o mundo, sem os planos ou utensílios de um turista. E também percebe que esta Venezuela tão tensa e amada é outra escala em sua rota de internacionalismo.

Sentados em uma sala do Centro de Diagnóstico Integral (CDI) El Terminal-Los Lagos, no município de Guaicaipuro, no estado de Miranda, os três colaboradores descrevem ao jornalista uma parte daquela ‘estrada’ de amor pela qual eles têm viajado em vários países, em busca da cura de seus povos.

HAITI, FIDEL E RAUL

Marta Ruiz Perez, graduada em enfermagem e em cuidados intensivos, tem 40 anos de serviço no hospital provincial Antonio Luaces Iraola, na província cubana de Ciego de Ávila, mas fez vários parênteses em seu amado local de trabalho para atender necessidades de saúde além da pátria. «Eu estive no Haiti, em 2008, no ano em que três ciclones atingiram esse país. Eu estava lá há mais de dois anos, mas me pediram para ficar e eu continuei por mais alguns meses», diz ela.

Em 2011, quando a cólera assolou este povo, a enfermeira retornou, já como membro do contingente Henry Reeve. «Eu conhecia a língua, tinha estado em algumas partes do país... e voltei por alguns meses. A cólera ceifou muitas vidas. Nós trabalhamos em hospitais de campanha. E conseguimos salvar muitos pacientes. Eu terminei, mas outros colegas chegaram. Outros sempre chegam», diz ela.

Desde agosto de 2016, Marta Ruiz Pérez está na Venezuela, como enfermeira de tratamentos intensivos no CDI El Terminal-Los Lagos, mas esclarece que sua estadia no Henry Reeve será até os últimos dias. «É uma grande honra para mim, meu hospital e minha família. Estou pronta para atender qualquer país afetado por um desastre», reafirma.

Ela explica que no Haiti o Henry Reeve a ensinou a chegar a lugares distantes, andar muito e enfrentar adversidades em meio de ciclones, desabamentos de terra ou terremotos. «Isso me ajudou a estar pronta para vencer tudo na Venezuela», diz.

Da esquerda para a direita, Marta, Dionel e Florinda, três internacionalistas com muito para contar. Foto: Enrique Milanés León

Com uma filha e um neto em Ciego de Ávila pendentes dela, Marta explica suas longas escapadas: «Os cubanos têm o sentimento internacionalista no sangue. Aqueles de nós que trabalham em saúde sabem que devemos levar nossas experiências a qualquer lugar onde uma vida possa ser salva».

Ela não partiu do Haiti de mãos vazias: «Este país me deixou muitas coisas bonitas, muita gente boa, muita gratidão... Foi lindo ajudar pessoas pobres, pobres, mas cheias de carinho», confessa entusiasmada.

Em setembro, Marta Ruiz Pérez deve terminar sua missão venezuelana, mas com o amor nunca se sabe, e ela está disposta a continuar. «É diferente, mas aqui eles também nos agradecem». A enfermeira lembra das suas primeiras missões:

«Histórias bonitas. Um dia, no meio do ciclone, chegou uma garota para dar à luz. Lá fora as rajadas não paravam. No interior do local nasceram duas crianças: Fidel e Raúl».

DOIS UNIFORMES

Dionel Portela Puentes escutou a experiência solidária de Marta com o mesmo interesse do jornalista. A sua começou em 1983, quando ele também era enfermeiro de cuidados intensivos, de Ciego de Ávila, e tinha menos de 20 anos quando viveu em Angola os tons amargos da guerra.

«Passei três anos em Cabinda, uma província rica em petróleo, mas onde não havia atendimento médico e os militares assumiram a atenção da população pobre. Depois de me formar como enfermeiro, trabalhei em um hospital, junto com os militares».

A paisagem social surpreendeu o jovem da época: «Havia apenas um médico. Vi as crianças morrerem de desnutrição, diarreia ou febre, sem atendimento e o equipamento não era bem atendido. Não havia nada até que nossa colaboração chegou, em parte militar e parcialmente civil».

Dionel tem seu retrato da guerra: «A destruição de um país. Muitas pessoas foram mutiladas pelas minas da chamada União Nacional para a Independência Total de Angola (Unita); As principais vítimas eram crianças e jovens. Percebe, um belo hospital, com equipamento moderno, e não fazia nada; nós o pusemos a trabalhar para as pessoas».

Depois de muitos anos de trabalho em sua província, Dionel iniciou uma missão de saúde venezuelana, há seis meses. «Estou bem aqui, trabalho perfeitamente com a população. São os princípios de Cuba e de Fidel. Não tenho outro treinamento; Eu não vou mudar isso», diz.

A luta não convencional ou de quarta geração é perfeitamente identificada pelo enfermeiro: «É outra guerra, e nela tentamos dar o nosso melhor. Os ricos sempre têm, mas a população sofre as consequências. Há falta de remédios, de bom tratamento, porque é isso que nós lhes damos todos os dias, um tratamento de excelência para que eles se sintam satisfeitos».

Este veterano da paz esclarece que a guerra que ele viu em Angola e a que a Venezuela sofre não são semelhantes, mas que a vontade internacionalista cubana é a mesma: «Ali salvaguardamos a integridade física de um país, aqui damos saúde a um povo». Em cada caso, ele sabe se vestir: «Eu vivi em Angola nosso exército de uniforme verde e agora, na Venezuela, o de batas brancas. São parecidos, só mudam as armas».

COM AS MOCHILAS DA SAÚDE

Embora seu primeiro sobrenome a localize a oeste, Florinda West Domínguez só tem um ponto cardeal preferido: a saúde das pessoas. Por esse azimute, Florinda, graduada em Higiene e Epidemiologia e especialista em Entomologia Médica, desafiou no ar as nuvens de um par de céus.

«Agora a minha tarefa na Venezuela é assistir, como epidemiologista, à saúde dos colaboradores cubanos na região de Alto Mirandinos, uma grande responsabilidade, pois tenho que exigir que se cuidem e impedir que eles adoeçam em um país com doenças endêmicas transmissíveis», explica.

«Antes, em 2003, com o contingente de Henry Reeve, eu lutei contra a dengue em Honduras. A Organização Pan-Americana da Saúde convocou um grupo de entomologistas e nós éramos 15 cubanos para fazer um estudo e enfrentar a epidemia. Foram três meses e nos estenderam para seis e depois para um ano, por causa do sucesso no trabalho», afirma a especialista.

Florinda trabalhou em Santa Rosa de Copán, com uma brigada de médicos cubanos que já estava lá. Apesar de terem enfrentado quatro sorotipos de dengue, eles deixaram taxas de infestação em valores que não envolviam riscos e cortavam a transmissão.

Em Honduras, a especialista cubana encontrou as feias faces da insalubridade, com doenças, como chagas e leishmaniose, que a abalaram, mas reforçaram sua preparação profissional para o bem. «Nós, cubanos, somos cordiais, trocamos imediatamente com os hondurenhos e complementamos nosso conhecimento».

Como é entrar naquele destacamento de elite (de sacrifício) que é o Henry Reeve?

«Uma sorte de pressão. Entre os melhores há melhores, mas tudo assenta em trabalhar com o coração, porque estar no Henry Reeve implica uma imensa entrega, sem datas nem horários; Às vezes, o sacrifício é maior do que aquele que o corpo resiste e mesmo assim agimos como costumamos fazer, com muito amor».

Existe a ideia de que os membros do contingente Henry Reeve sempre têm uma mochila pronta em casa. Você tem a sua?

A licenciada Florinda ri: «Sim, claro que eu a tenho. E sempre pronta!