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Fotos: Arquivo do Granma

                                                             Compreendeu que a guerra/ era a paz do futuro
                                                                               —Silvio Rodríguez: Canção do eleito

Foto: Daylén Vega / CUBADEBATE

DUAS peças, uma para a sala de jantar e outra para o quarto, além de um pequeno banheiro e uma cozinha compõem o apartamento número 603 do prédio 164 da rua 25, entre O e Infanta, no bairro do Vedado, em Havana. Ali, começaram a preparar as ações de combate de 26 de julho de 1953.

Naquela data, os ataques foram realizados no Quartel Moncada, em Santiago de Cuba e Carlos Manuel de Céspedes, em Bayamo, ambos na região de Oriente, a fim de coletar armas e desenvolver a luta contra o governo ditatorial de Fulgencio Batista, que tinha sumido o país no caos político, econômico e social.

Abel Santamaría Cuadrado, um dos muitos jovens que aderiram a essa causa, residia naquela casa e naquela época era empregado de uma agência de automóveis. Alugou o apartamento em janeiro de 1952 devido à proximidade de seu centro de trabalho e, em seguida, trouxe sua irmã Haydée para morar com ele, para ajudá-lo com os afazeres.

Assim relata o mestre em História Seriozha Mora Candebat, especialista do museu Casa Abel Santamaría, que pesquisou as qualidades revolucionárias daquele patriota, nascido em 20 de outubro de 1927, no município Encrucijada, na província de Villa Clara.

Em 1947, Abel chegou à capital com o objetivo de se tornar profissional. Ganhou um concurso para se inscrever na Escola de Comércio e ao mesmo tempo estudou o bacharelado. Conseguiu um emprego como trabalhador de escritório na Textileira Ariguanabo Textile e depois trabalhou na agência de automóveis Pontiac, onde levava a contabilidade e a caixa. Militou no Partido Ortodoxo, uma das organizações com possibilidades de tomar o poder político de não ser frustrado pelo golpe de estado de Fulgencio Batista, em 10 de março de 1952.

Fidel com Ñico López, Abel Santamaría e José Luis Tassende na fazenda Santa Elena, em Los Palos, onde praticavam tiros antes de atacarem o Quartel Moncada. De cócoras da esquerda para a direita: Ernesto Tizol e Billy Gascón. Esta foto histórica está no Museu Casa Abel Santamaría, em Havana. Foto: Arquivo do Granma

Como Abel Santamaría, muitos jovens expressaram sua insatisfação com tais atos inconstitucionais e bastou uma reunião com o advogado Fidel Castro Ruz, no cemitério de Colón. Em 1º de maio daquele ano, depois de lembrar o mártir Carlos Rodríguez, proeminente revolucionário cubano durante os anos da república neocolonial, uma amizade e um pacto de mudança social para Cuba foram selados.

Nos próximos dias, Fidel visitou frequentemente o apartamento do Vedado e iniciou-se um movimento, mais tarde conhecido como Movimento 26 de Julho (M-26-7), baseado na reflexão, análise e propostas de ação derivadas das reuniões. A premissa era tomar as armas para derrubar Batista, que tinha entrado no governo usando violência.

«Fidel avalia a discrição no prédio, aqui há silêncio e tranquilidade por parte de seus vizinhos, também é um lugar seguro com duas portas de acesso, uma na rua 25 e outra na rua O, que favorecia as reuniões, os contatos e as conspirações. Aqui vieram frequentemente Jesus Montané Oropesa, Melba Hernández, Raúl Martínez Arará, Ñico López, Boris Luis Santacoloma, Raúl Gómez García e outros jovens de Pinar del Río e Artemisa, que depois ofereceram suas vidas em Santiago de Cuba», realtou o historiador.

Em uma visita a Birán, na casa da família de Fidel, ele e Abel discutiriam os planos para uma futura ação armada. Decidiram tomar a fortaleza militar de Santiago de Cuba, que agrupa o regimento mais importante da região leste com 909 homens armados. Os assaltantes só poderiam reunir cerca de 160, incluindo duas mulheres, Melba Hernández e Haydée Santamaría.

«Nos dias que antecederam o ataque, o apartamento em Havana estava muito tranquilo e as reuniões diminuíram. O sigilo foi mantido para evitar a vigilância dos serviços de inteligência da ditadura. Em 7 de julho, Fidel enviou Abel para Santiago. Coube a ele finalizar os detalhes com o jovem de Santiago Renato Guitar, na casa Villa Blanca da chácara Siboney e, de lá, partiram rumo aos objetivos militares na noite de 25 de julho, madrugada de 26», salientou o entrevistado.

O Quartel Moncada em Santiago de Cuba na época das lutas revolucionárias. Foto: Arquivo do Granma

Naqueles dias já existiam outros locais de reunião na capital, como Jovellar 107, na casa de Melba Hernández, no bar Mi Tío, localizado no cruzamento da avenida Infanta com a rua 23, em uma casa no município de Marianao e o local de maior reunião, o prédio 910 na rua 11, onde Natalia Revuelta morava, uma grande colaboradora, que foi instruída para divulgar o fato na imprensa se alcançavam a vitória.

Fidel fechou o apartamento na rua 25, na noite de 24 de julho de 1953 e partiu para mudar a história. Após o fracasso da ação, Abel Santamaría foi preso no hospital Saturnino Lora em Santiago de Cuba por uma traição, ele foi torturado violentamente, assassinado e seus olhos retirados para mostrá-los a sua irmã Haydée e subjugá-la. Nos dias seguintes, os serviços de inteligência da ditadura ocuparam o apartamento da rua 25, na capital cubana, em busca de provas, mas não encontraram nada.

No mês de agosto, a mãe de Abel, Joaquina Cuadrado e sua irmã Aida, colheram os pertences do apartamento em Havana para que os proprietários pudessem alugá-lo a outras famílias. Quando a Revolução triunfou em 1959, Haydée Santamaría, então diretora da Casa das Américas, evocava em conversas com artistas e intelectuais, seus dias vividos naquele lugar. Surgiu assim a ideia de convertê-lo em um museu.

Em 9 de junho de 1973, a instituição foi inaugurada, pertencente ao Conselho Nacional da Cultura e posteriormente ao Ministério da Cultura. Dada a sua proeminência na história de Cuba, recebeu a categoria de Monumento Nacional em 1980. A este local, com a estrutura de um museu de tipologia histórica, muitas pessoas chegam indagando sobre a história do Ataque ao Quartel Moncada.

ARTEMISA NO MONCADA

Em 24 de julho de 1953, José Ramón Martínez Álvarez beijou sua mãe dizendo-lhe que ia viajar a Varadero. Como ele, muitos outros jovens de Artemisa (província a sudoeste de Havana) despediram-se de suas famílias para partirem para Santiago de Cuba.

A José Suárez Blanco (Pepe), membro da Direção Nacional do Partido Ortodoxo, Fidel deu a missão de estabelecer parte do Movimento 26 de Julho em Artemisa. Os anos de trabalho permitiram reunir recursos econômicos, pessoas e até pensar inclusive o programa que seria realizado quando a vitória fosse alcançada. Foi o próprio Fidel, que explicou a eles durante um encontro, em 1952, os aspectos mais significativos dessa mudança radical em Cuba, que abrangeria questões como a terra, a industrialização, a habitação, o desemprego, a educação e a saúde.

O jovem Fidel Castro Ruz e Abel Santamaría Cuadrado, líderes do incipiente movimento revolucionário. Foto: Arquivo do Granma

Na medida em que o M-26-7 se consolidava, a ação armada tornou-se inevitável. As práticas de tiro aumentaram nas fazendas vizinhas, as reuniões eram discretas e as armas foram mantidas em cavernas perto das casas. O tempo passava e as ações se conseguiam com melhor organização e disciplina por parte dos jovens de Artemisa. Assim, ganharam participação nas ações de Santiago de Cuba.

De Artemisa, 28 jovens, entre eles o atual Comandante da Revolução Ramiro Valdés Menéndez, foram aos eventos do Moncada. «Nós éramos um grupinho, mas levávamos o espírito do povo, inspirado pela prédica de Marti de não ver de que lado se vive melhor, mas de que lado é o dever», asseverou Ramiro Valdés em 2014, quando comemoraram nesta província mais um aniversário do fato histórico.

De Havana, viajaram por diferentes rotas. Alguns foram de trem, outros de ônibus e os menos de carro. Já em 25 de julho, camuflados entre a multidão dos carnavais, os combatentes se transladaram em pequenos grupos para a chácara Siboney.

Nas ações de 26 de julho, 14 jovens de Artemisa perderam a vida. Outros continuaram a viagem e também estiveram no desembarque do iate Granma e na luta na Serra Maestra. Todos eles são lembrados hoje no Mausoléu dos Mártires de Artemisa.

Inaugurado em 16 de julho de 1977 e dedicado à memória daqueles jovens de Artemisa da Geração do Centenário, este espaço é hoje de visita obrigatória para quem quer conhecer a cota de heroísmo que esta cidade entregou à causa revolucionária. Os restos dos caídos, alguns de seus pertences e fotografias podem ser vistos neste local onde também, desde o ano 2000, descansam aqueles moncadistas da província que morreram após o triunfo da Revolução.

Na entrada, uma frase de rebeldia e alento proferida por Fidel em sua histórica alegação A História me absolverá acompanha esses heróis: «Meus companheiros, além disso, não são esquecidos nem mortos: vivem hoje mais do que nunca, e seus matadores têm que ver aterrorizados como emerge o espectro vitorioso de suas ideias de seus cadáveres».

O FATO HISTÓRICO

Na madrugada de 26 de julho, na chácara Siboney, em Santiago de Cuba, o Manifesto de Moncada, escrito por Raúl Gómez García, foi lido com vigor. Depois de cantar o Hino Nacional, vários grupos de jovens armados partiram para atacar o Quartel Moncada, tomar o Palácio da Justiça e o Hospital Saturnino Lora, na cidade de Santiago. Em uníssono, em Bayamo, dirigiam-se para o quartel Carlos Manuel de Céspedes.

Antes dos ataques, Fidel falou para seus companheiros: «Poderão vencer em poucas horas ou ser derrotados; mas em todo caso, ouçam bem, camaradas! O movimento triunfará de qualquer forma. Se vencermos amanhã, o que José Martí aspirou será mais cedo. Se ocorrer o contrário, o gesto servirá de exemplo ao povo de Cuba para levar a bandeira e seguir em frente. As pessoas nos apoiarão no Oriente e em toda a ilha. Jovens do Centenário do Apóstolo! Como em 1868 e 1895, aqui no Oriente damos o primeiro grito de Liberdade ou morte! Vocês já conhecem os objetivos do plano. Sem dúvida é perigoso e todo aquele que saia comigo esta noite deve fazê-lo por sua vontade absoluta. Ainda estão na hora de decidir. De qualquer forma, alguns terão que ficar por falta de armas. Aqueles que estão determinados a ir deem um passo à frente. A consigna não é matar, mas por última necessidade».

Os 131 combatentes vestidos com uniformes do exército organizaram-se em três grupos: o primeiro direcionava seus esforços ao prédio principal: o quartel Moncada. O resto, liderados por Abel Santamaría e Raúl Castro, tentariam tomar o Hospital Civil e o Palácio da Justiça, respectivamente.

Tudo começou. Fidel, encarregado do primeiro grupo, chegou como planejado até seu objetivo. A chegada inesperada de uma patrulha de rota provocou um disparo prematuro que alertou as tropas e permitiu a mobilização do exército para o interior do quartel.

Sobre os acontecimentos daquele dia, rememora Fidel na entrevista feita pelo escritor e jornalista espanhol Ignacio Ramonet, para seu livro Biografia a Duas Vozes:

«Um carro me resgata no final. Eu não sei como ou por que, um carro vem na minha direção, chega onde estou e me pega. Ele era um jovem de Artemisa, que dirigindo um carro com vários companheiros entra onde eu estou e me resgata (...) Eu sempre quis falar com aquele homem para saber como ele entrou no inferno dos tiroteios lá».

Abel e Raul triunfaram em seus objetivos, no entanto, o inimigo era superior em armas e homens, e pôde rejeitar o ataque.

Em Bayamo aconteceu a mesma coisa. O plano era baseado no fato de que um residente da cidade, bem conhecido pela guarnição do quartel, acompanharia o chefe do ataque e conseguiria entrar no local. Uma vez lá dentro, desarmariam o vigilante e iriam forçá-lo a abrir o portão de entrada para que o resto pudesse entrar no local. O plano não aconteceu como planejado, porque a pessoa que atuaria como guia nunca apareceu e tiveram que tentar o ataque de outra maneira.

Os eventos que aconteceram naquele dia não triunfaram, mas alcançaram o objetivo de marcar o início de uma nova etapa na luta revolucionária contra a ditadura pró-americana de Fulgencio Batista.

Essas ações lideradas por Fidel Castro Ruz manifestaram ao povo que a luta armada seria o caminho a ser usado para conquistar a vitória, depois trouxe a expedição do iate Granma em 2 de dezembro de 1956, que abriu uma frente de guerrilha na Serra Maestra.

Em 1 de janeiro de 1959, a fase insurrecional da Revolução culminaria com a derrubada da tirania e a tomada do poder político. Atualmente, o antigo Quartel Moncada é a Cidade Escolar 26 de Julho, e parte dessa edificação foi condicionada como museu para que essa epopeia nunca fosse esquecida. •

FONTES: Jornais Granma e El Artemiseño, Revista Bohemia e livro Biografia a Duas Vozes de Ignacio Ramonet.

QUADRO:

• PARA Fidel, a vida de Abel tinha um valor inigualável, pelo qual foi confiado a ocupar o Hospital Civil Saturnino Lora e não o quartel, onde sua vida estava em risco, decisão de que ele não gosta, pela qual protestou perante o chefe da ação:

— Eu não vou para o hospital — diz ele —. O hospital para as mulheres e o médico, eu tenho que lutar se houver uma briga, que outros passem os discos e distribuam as proclamações.

Ao que Fidel riposta com energia:

— Você tem que ir ao hospital civil, Abel, porque eu ordeno; Você vai porque eu sou o chefe e eu tenho que ir à frente dos homens, você é o segundo, eu provavelmente não vou voltar vivo.

Perante a ordem, Abel responde:

— Não faremos como Marti, você ir para o lugar mais perigoso e se imolar quando todos nós precisamos mais de você.

É então quando Fidel, entendendo a preocupação do segundo chefe da ação, coloca as mãos nos ombros e diz persuasivamente:

— Eu vou ao quartel e você vai ao hospital, porque você é a alma desse movimento e se eu morrer você me substituirá.

FONTE: O julgamento do Moncada de Marta Rojas