ÓRGÃO OFICIAL DO COMITÊ CENTRAL DO PARTIDO COMUNISTA DE CUBA
O doutor Diego Vázquez Carrillo junto a seus pais Luz Marina e Germán, consideram Cuba como a pátria afetiva de sua família.

O colombiano Diego Vazquez Carrillo quer que Cuba seja o lugar para descansar seus restos mortais, porque a sua ligação com a ilha caribenha ultrapassa os limites da profissão da medicina, que estudou aqui, e para ele as pessoas não escolhem o local de nascimento, mas aquele onde vão morrer.

Este jovem define a Ilha maior das Antilhas com palavras como solidariedade, humanismo e dignidade. Reconhece que as ditas palavras ainda não descrevem todos os seus sentimentos em relação a esse povo, que o recebeu em 2002, quando decidiu formar-se como médico na Escola Latino-Americana de Medicina (ELAM), em Havana.

Resolveu estudar em Cuba, porque um primo dele o fez anteriormente e lhe contou histórias sobre o rigor acadêmico necessário para estudar uma carreira. Soube do projeto ELAM através de seus pais, simpatizantes da Revolução Cubana e membros de organizações de solidariedade baseadas na Colômbia.

«Apresentei os documentos e depois uns professores cubanos me fizeram uma entrevista, os quais perguntaram sobre minha vocação para a profissão. Lembro-me que houve uma primeira concessão de 80 bolsas de estudo, mas, por algum motivo, não foram cobertas por volta de dez delas. Ligaram-me uma segunda-feira para me apresentar no aeroporto na sexta-feira, 22 de março. A família organizou a viagem muito rapidamente, em meio à tristeza de minha mãe e meu pai. Saí com a mochila cheia de sonhos», conta Diego, hoje urologista.

Seu primeiro impacto ao chegar em Havana foi uma súbita mudança de temperatura, ele se despediu do frio em Bogotá e recebeu um grande calor em Havana. «Alguém me perguntou se eu tinha trazido comida e naquele momento percebi que tinha de me adaptar a um lugar diferente, com diversos hábitos e costumes. Chamou minha atenção o fato de que nos edifícios da reitoria da Universidade das Ciências Médicas Victoria de Girón, em Havana estivessem tremulando as bandeiras dos 19 países que participavam do programa da ELAM e eu procurei a minha. Então muitas lembranças vieram à minha mente», evoca o médico.

«Nas primeiras semanas tivemos que cumprir rigorosamente o tratamento antimalárico. Acabei entendendo o zelo dos cubanos para não permitir a entrada de doenças endêmicas vindas do continente, já erradicadas na Ilha. Eu achei difícil me ajustar a viver com o rigor de uma bolsa, organizada, cumprindo horários disciplinares, quando a luz é apagada durante a noite para descansar e ligada nas manhãs, o cumprimento dos horários das aulas, do refeitório e o autoestudo.

No meu quarto convivemos 12 garotos e todos nós tínhamos uma cultura diferente. Não é o mesmo um natural de Bogotá, que um da Antioquia ou de outra região. O essencial está no apoio e solidariedade que pode ser alcançada», acrescenta.

Como foi o primeiro ano da carreira?

«Nos primeiros meses, é preciso adotar um ritmo de estudo ágil. O curso pré-clínico nos prepara para começar a universidade e é muito válido para aprender a ouvir outra cadência de voz da usual. Na carreira, a demanda está no topo. Gostei do tempo de rotação no consultório do médico de família, no primeiro ano. Lá, eles nos mostraram os exames clínicos preliminares, que um paciente toma e tratá-lo humanamente. Recebemos os livros gratuitos escritos por professores cubanos, que também nos ensinaram e é por isso que percebemos que tínhamos os melhores acadêmicos do país.

«Tive a oportunidade de ver o Comandante-em-chefe Fidel Castro quando visitou a ELAM em várias ocasiões. Primeiro o vi acompanhado do ex-presidente dos EUA, Jimmy Carter. Depois, com o cineasta Steven Spielber. Eu valorizei a força de Fidel, seu apego ao povo e percebi que ele era uma pessoa capaz de mudar o mundo».

«A partir do terceiro ano, os alunos são distribuídos pelas diferentes faculdades de medicina do país».

Onde continuou a carreira?

«A minha turma coube-lhe a província oriental de Santiago de Cuba, mas mudei-me para Santa Clara, província de Villa Clara, porque queria um lugar mais perto da capital. Além disso, há o mausoléu, que guarda os restos mortais do guerrilheiro argentino-cubano Ernesto Che Guevara».

«No terceiro ano, dividimos as salas de aula com os estudantes cubanos. Conheci colegas de alto valor humano, capazes de oferecer até a casa deles. Também troquei com professores de grande conhecimento, dispostos a ensinar-nos a todo o custo. Fizemos longas rotações no terceiro e quarto ano da carreira e depois na quinta, mais curta pelas diferentes especialidades da Medicina. Constatei a dedicação dos professores para ensinar, mesmo que tivessem que sacrificar seu próprio tempo; por isso o relacionamento se tornou amizade. Eu acho que em Santa Clara eu fiz os melhores amigos. Eu até tenho uma família adotiva, a senhora eu a chamo de mãe e seu nome é Carmen».

«Além disso, tive a oportunidade de viajar por todo o país. Eu viajei de trem, de ônibus e até andei de carona na estrada. Nas férias aproveitávamos para visitar todos os lugares em Cuba, que eu almejava conhecer. Chamou nossa atenção a segurança em todo o país, com aldeias muito tranquilas e uma grande harmonia entre as pessoas».

A graduação?

«Esse momento foi o mais empolgante da minha vida. Lá estavam meus parentes, pai, mãe e uma tia. Também esteve lá a senhora Carmen que se encarregou de encontrar um lugar para celebrar e nos encontrarmos todos. Acabou sendo o último espaço em que meus colegas de equipe convergiram. Os estrangeiros retornaram aos seus países de origem e os cubanos, com melhores resultados acadêmicos, partiram para cumprir uma missão internacionalista em outras nações do mundo. Naquele dia nos despedimos e nunca conseguimos nos encontrar todos ao mesmo tempo».

Por que escolheu fazer uma especialidade em Cuba?

«Voltei para a Colômbia e me juntei ao serviço rural. Em uníssono, investiguei a possibilidade de estudar Medicina Geral Integral em Cuba, liguei para a ELAM e me disseram que devia me apressar para não perder o curso. Fiz toda a papelada no menor tempo possível e saí para aprender sobre medicina comunitária».

«Assim que cheguei, propuseram-me estudar no município de Guines, cidade próxima à capital cubana, mas pertencente a outra província. Lá fomos nós, vários hondurenhos, um paraguaio, um amigo argentino e eu. Coube-me ser o médico da família de uma pequena vila chamada Camarra, onde há uma fábrica de tijolos e várias cooperativas agrícolas.

«Lá eu senti o amor dos meus pacientes, eles me protegiam, traziam-me comida e doces. Interagi com quase todos os moradores, eles me receberam em suas casas com elogios e carinho. Eram pessoas acostumadas a dar mais do que receber. Fazia meus plantões médicos em uma policlínica localizada na cidade de Catalina de Guines e fiz o exame final no município de San Nicolás de Bari. Nessa fase dos estudos comecei a acalentar o sonho de fazer outra segunda especialidade. Terminei a MGI e me candidatei para a especialidade de Urologia, no Ministério da Saúde Pública de Cuba».

Como foi o treinamento na especialidade de Urologia?

«Estudei na Faculdade do hospital Manuel Fajardo, em Havana. Recebemos muito bom treinamento. O doutor Ernesto Rodríguez Verde nos ensinou sobre cirurgias de acesso mínimo. Eu aprendi sobre cirurgia endoscópica e laparoscópica».

«Penso que a especialidade da urologia nos últimos dez anos avançou muito em matéria de tecnologia. Nenhum professor escondeu o conhecimento e deu-o com grande modéstia para que pudéssemos aprender tudo. Eles são capazes de se afastar de sua faceta como médicos para mostrar a de seres humanos».

«Meu amigo, o doutor Damaso, chefe do serviço de urologia do hospital Fajardo disse algo assim: ‘O urologista é um médico que faz cirurgias, portanto deve conhecer muito da especialidade clínica».

«A clínica é adquirida por confrontar o paciente e dar-lhe confiança para expressar seu sofrimento, sem preconceito e medo. Eu terminei meus estudos em Cuba em 2015, hoje trabalho no Centro Policlínico Olaya, no sul de Bogotá».

O Granma Internacional também conversou com Luz Marina Carrillo Amaya, a mãe.

«A etapa inicial da partida de Diego foi muito difícil. Ele foi o primeiro filho a ser separado da família, com apenas 19 anos de idade. Ouvi falar de Cuba desde que era nova e senti muita alegria por ele ter ido para lá, que conhecesse a Revolução e que pudesse ajudar de alguma forma».

«Todos os membros da família tivemos algum motivo para visitar a Ilha. Assisti ao ato de 1º de maio de 2006 como membro de uma brigada de solidariedade. Eu estava muito perto de Fidel Castro. Eu também cantei o hino A Internacional, na Praça da Revolução, em Havana. Meu aniversário é em 1º de maio e esse foi meu melhor aniversário».

«Lembro-me da graduação dele, foi um dos eventos mais emocionantes que tivemos. Nós visitamos Santa Clara, aquela cidade emblemática que faz lembrar Che Guevara. A formatura foi dedicada a esse lendário guerrilheiro. Chorei com a emoção de pensar sobre a humildade em que ele foi treinado e que se formou. Aqui na Colômbia, ser médico seria impossível».

O padre Germán Vázquez Ovaye também foi entrevistado

«A partida de Diego foi difícil para a família. Antes de sair, eu o pressionei e exigi que estudasse, quando ele foi selecionado para a bolsa eu estava feliz, mas estava preocupado, pensando em como iria estudar sem qualquer pressão. Eu me lembro de perder peso e esteve ansioso por ter notícias dele».

Naquela época não havia Internet, nem e-mail e nos comunicávamos por cartas. Eu lhe enviava dentro dos envelopes algumas notícias dos jornais. Fiquei consolado pelo fato de Diego estar em um país como Cuba, que é um exemplo de dignidade para o mundo».

O que aconteceu quando ele disse que estudaria a especialidade em Cuba?

«Na verdade, eu o encorajei a voltar a Cuba para fazer a especialidade. As condições na Colômbia não são favoráveis ​​para este tipo de estudos, é um processo muito complexo, onde centenas de estudantes concorrem por menos de dez vagas por especialidade».

«Eu estive no exercício final para ele se formar como urologista. Eu vi a maneira em que eles os examinam, e os alunos devem expor com domínio os assuntos. Eu vi o rigor das avaliações e como os alunos são capazes de fazer uma defesa loquaz e precisa do seu exame. Sou formado pela Universidade Nacional de Bogotá e tive que passar por esse tipo de exercício, mas lá vi mais qualidade naquele exame. Cuba traz excelência na formação de profissionais».