«ALCANÇAR uma longa risada e espantar a tristeza de pacientes hospitalizados torna-se o maior desejo dos palhaços terapêuticos, pessoas de grande sensibilidade humana e nobreza extraordinária, capazes de gerar relações de cumplicidade e carinho em pacientes com longa estadia hospitalar», explicou ao Granma Internacional a mestre em Ciência, Aniet Venereo Pérez-Castro, que também interpreta a palhaça Celeste.
Ela definiu os palhaços terapêuticos como pessoas que usam o nariz vermelho, como uma máscara representativa, para proporcionar através de sua arte momentos de lazer e relaxamento àqueles que sofrem de patologias crônicas e estão em um estado de vulnerabilidade.
A esta troca soma-se profissionais de diferentes especialidades, como médicos, fisioterapeutas, psicólogos, artistas e outras pessoas com uma vocação que oferecem voluntariamente seus talentos para fortalecer àqueles que sofrem e fornecer a esperança necessária que possa contribuir para a rápida recuperação e cura. Eles também trabalham em lares de idosos, hospitais psiquiátricos, centros psicopedagógicos e instituições para adultos com doenças crônicas.
Na primeira aproximação com o paciente, uma relação de aceitação e segurança deve ser cultivada. Pode ser o caso de crianças com medo ou pacientes apáticos e o artista não impõe a participação, mas quando entra em outros quartos da mesma sala e consegue a interação, aquele que o rejeitou fica curioso até que gradualmente cede.
«Em Cuba, existe uma academia de palhaços, localizada na província oriental de Las Tunas, onde se formam licenciados nessa arte, e já foi proposto incluir um módulo de terapeutas. Nós nos formamos depois que nos visitou, no ano 2012, a canadense Joan Barrington, diretora da Therapeutic Clowns International Foundation, que ministrou um curso e preparou vários instrutores. Posteriormente, eles foram responsáveis por multiplicar o conhecimento em todo o país, apoiados pelo Ministério da Saúde Pública de Cuba», ressaltou a coordenadora do grupo de palhaços terapêuticos em todo o país.
Em uma segunda viagem de Joan Barrington a Cuba, outro curso de aperfeiçoamento foi aberto, no qual incluíram artistas de circo. «Estes treinamentos serviram para assumir a metodologia da fundação de palhaços terapêuticos internacionais e adaptá-los às nossas tradições. Também ligamos isso às técnicas de educação popular e geramos nossos próprios cursos e oficinas», acrescentou Venereo Pérez-Castro.
O ponto de partida para a aprendizagem é o contato visual, razão pela qual as pessoas são treinadas para se conectar através da observação do outro. O palhaço trabalha com o absurdo e o ridículo, portanto, quem assumir esse papel deve olhar em sua história pessoal para o personagem a ser representado para que o artista nasça.
O processo de treinamento como palhaços terapêuticos começa com uma oficina básica em que são realizados debates sobre comunicação, técnicas de atuação aprendidas e trajes construídos com seus próprios recursos. Embora seja impossível mensurar os resultados deste projeto com números, a melhora do humor, a aceitação dos tratamentos e a adaptação à internação hospitalar pelos pacientes, principalmente crianças, são palpáveis.
Hoje Cuba tem mais de 200 palhaços treinados em 11 províncias, que trabalham nas instituições de saúde e podem relatar experiências, testemunhos e provas para compartilhar com outros profissionais do mundo, por isso um Congresso Internacional foi realizado em outubro de 2018 para associar a ciência com a arte e ter um espaço para se reunir em grupo na tomada de decisões para construir o futuro. Esse evento teve 116 delegados, dos quais 90 foram cubanos. Foram 25 apresentações, 12 oficinas, 8 pôsteres e duas conferências magistrais.
Houve consenso ali para apoiar um nível médio de técnico na profissão, a ser ensinado na Faculdade de Tecnologia da Saúde. Justificado pelas experiências alcançadas nas instituições de saúde, pois em algum momento assumiram o trabalho dos assistentes sociais diante dos cuidados paliativos exigidos pelo paciente, pelo qual acompanharam a família naquele momento difícil. No conclave, três perfis foram debatidos: ciência, cultura e trabalho social.
É o que nos diz Reyna de La Paz Campos Falcón, que interpreta a personagem Manteiga. Ela garante que o palhaço não é valorizado por seu traje, mas pela felicidade que proporciona. «Ensinamos aos nossos colegas em treinamento que a essência desse tipo de atividade está dentro das pessoas, externalizada no ato de troca com o paciente. Trabalhamos muito perto da criança para abandonar todos os medos que surgem em face de um palhaço. Para mim foi uma experiência muito gratificante, o que me ajudou a superar situações difíceis enfrentados na minha vida», apontou a atriz.
Nestes cursos de formação aprende técnicas de Clowns, incluindo atuação, mímica, equilíbrio, mágica, manipulação de bonecos, a variedade de cores e globoflexia (arte de torcer balões). Algo fundamental é se identificar com as patologias de cada paciente, pois elas não funcionam com base em um roteiro, mas preparam as apresentações respondendo às necessidades do paciente. Nem o espetáculo se impõe, mas o espectador programa o ato artístico na medida em que o aprecia.
«Nós visitamos salas de oncologia, de doenças cardíacas e de hematologia. No primeiro contato visual com o paciente deve surgir um rapport (fenômeno em que duas ou mais pessoas sentem que estão em «sintonia» psicológica e emocional) necessário para desenvolver a atividade. Ao deixar o paciente decidir o ato artístico, por um momento eles deixam de cumprir os regulamentos médicos. O rapport cria uma união que nos envolve com a família. Muitas das crianças hospitalizadas vivem em outras províncias e pertencem a famílias disfuncionais. Vemos mães solteiras que devem prestar atenção a uma criança e os outros ficaram em casa, então no ato paramos de fazer aquela terapia de palhaço para nos envolvermos em sermos assistentes sociais, daí a necessidade de um palhaço bem treinado», destacou Campos Falcón.
Este critério também é assumido pela canadense Melissa Halland: «Sou uma palhaça terapêutica porque entendo que estar em um hospital é um momento difícil para qualquer ser humano. Para curar o corpo é fornecida a dor em muitos casos. Eu penso que a mente e as emoções são importantes para ter uma melhora antes de uma doença. Este ator ou atriz acaba por ser uma pessoa que ajuda a aliviar os males, que provoca alegria e sentimentos de amor nos seres humanos», disse quem interpreta o personagem de Fifi diante dos doentes das cidades de Montreal e Quebec.
Ela relatou ao Granma Internacional que seu país tem uma rede de palhaços terapêuticos em cada cidade integrados a diferentes associações humanitárias, que oferecem a sua arte de graça nas instituições de saúde, mas são financiados por contribuições não-governamentais e de solidariedade das pessoas, para cobrir as transferências e outras despesas geradas pela atividade.
Para ela, vir a este Congresso em Cuba foi maravilhoso e «tocou meu coração. Eu vi o interesse demonstrado pelos Ministérios da Saúde, Educação e Cultura para apoiar esta atividade, algo que está faltando no Canadá», disse Melissa Halland.
Com ela coincidiu a colombiana Iliana Levy, visitando pela primeira vez a Ilha maior do Caribe. Ela estudou Literatura e Linguística, mas tem trabalhado na arte de fazer palhaçadas há mais de dez anos, focada no trabalho social de um palhaço terapêutico em hospitais e outros ambientes não convencionais.
«A experiência do Congresso foi um sonho tornado realidade. Sou muito grata à organização dos palhaços terapêuticos de Cuba que nos fizeram sentir em casa. Eu sinto que há uma alegria e uma vitalidade que compartilhamos. Eles me deram a oportunidade de atuar com os pacientes cubanos e acabou por ser uma experiência extraordinária», expressou empolgada a palhaça Gladys Banana.
Algo também observado pela cubana Karelia León Despaigne, que disse que seu filho Yasier, sete anos, mostrava-se muito triste por ficar no Hospital Cardiológico Pediátrico William Soler a ser operado através de uma complexa cirurgia para removerem seu coração uma comunicação interauricular. «Nossos filhos precisam daquele fôlego trazido pelos palhaços terapêuticos, vieram com seus balões e fantasias extravagantes. Eles até presentearam narizes vermelhos para que os outros se sintam como palhaços também», apontou a mãe.
Esses artistas compartilham o sonho de que, no futuro, os hospitais sejam um centro cultural-sanitário onde, juntamente com tratamentos e cuidados médicos, os pacientes tenham a possibilidade de estar em contato com a arte, de criar e para continuar com seus sonhos.





