ÓRGÃO OFICIAL DO COMITÊ CENTRAL DO PARTIDO COMUNISTA DE CUBA
Recepção dos médicos cubanos que trabalharam no Brasil até o final de dezembro do ano passado.Foto: Ismael Batista

COM várias mensagens de solidariedade a Cuba e ao Brasil, mais de 145 ativistas políticos integraram a caravana «60º aniversário da Revolução», que comemorou junto ao povo cubano, o triunfo da Revolução que se tornou realidade em 1º de janeiro de 1959

Eles levaram mensagens de liberdade para o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, preso por mais de oito meses sob acusações sem argumentos legais, em um processo legal destinado a impedir que ele seja eleito presidente. Também exigiram o fim do criminoso bloqueio econômico, comercial e financeiro imposto pelos Estados Unidos há quase 60 anos à Ilha maior das Antilhas.

Em um ato realizado na sede do Instituto Cubano de Amizade com os Povos (ICAP), os caravanistas emitiram um comunicado denunciando as ações retrógradas do novo presidente Jair Bolsonaro, exigindo a cessação de todas as tentativas de ingerência imperialista dos Estados Unidos na soberania de Cuba, Venezuela e outros países do Sul, e também destacando os sucessos do socialismo e da Revolução Cubana.

O Granma Internacional conversou com vários membros do contingente brasileiro. O médico geriatra, Deoclides Cardoso Olivera Junior, disse que seu povo está enfrentando um processo muito difícil com o atual governo e, portanto, procuram construir um amplo front de luta em que se insiram todas as forças políticas que se oponham ao governo fascista, neoliberal homofóbico, representado por Bolsonaro.

Acrescentou que já visitou Cuba duas vezes antes e participou das brigadas de solidariedade de 1993 e 1996. Nesta terceira oportunidade veio com outras pessoas que querem conhecer a construção social da maior Ilha do Caribe, o que os reforça, rejuvenesce e impõe energias positivas para enfrentar a situação política lá.

«Acompanhamos o povo cubano nas festividades pelo 60º aniversário da Revolução, acabamos de visitar a cidade de Santa Clara, lugar que me tocou muito. Explicaram-nos como os cubanos enfrentaram o exército do ditador Fulgencio Batista e derrotaram-no», comentou o ativista que pertence à Associação Cultural José Marti do estado Salvador da Bahia.

Sua colega Cristiane Amado Figueredo, asseverou que participou da caravana para dar apoio e solidariedade ao povo cubano. «Queremos levar o legado desta Revolução porque o Brasil está precisando de um exemplo para se inspirar na luta», sentenciou a psicologista de profissão.

Ela milita no Partido Comunista Brasileiro e transmitiu uma mensagem aos cubanos: «os brasileiros vamos superar este momento e por muito cruel que for, vamos estar lutando o tempo todo». Como um membro da caravana visitou as províncias de Santiago de Cuba, Havana, Matanzas, Villa Clara e Sancti Spiritus. «Todo mundo nos mostrou apoio para nossas lutas», afirmou.

Acrescentou que no seu país estão unindo forças para enfrentar este novo governo que não aceitam que tome medidas contra as garantias sociais alcançadas.

Enquanto isso, Maria Socorro Ferreira veio do Estado do Pará, município de Belém, localizado na Amazônia. Ela valorizou como uma honra vir na caravana que testemunhou o ato de 1º de janeiro, no cemitério de Santa Ifigênia em Santiago de Cuba junto à pedra que contém os restos do Comandante-em-chefe Fidel Castro.

«Quero dizer a este povo que estamos nos organizando nos bairros e nos movimentos sociais para enfrentar o atual governo vergonhoso. Vamos nos mobilizar e com certeza faremos protestos para não nos deixar arrancar as conquistas sociais. Vamos nos posicionar entre mulheres, organizações políticas e populares. Vamos lutar contra a entrega da Amazônia e contra a destruição dos direitos dos trabalhadores. Vamos trabalhar muito na frente político-ideológica», enfatizou a também militante comunista.

Os três qualificaram de vergonhosa e dolorosa a partida dos médicos cubanos após as declarações desrespeitosas, depreciativas e ameaçadoras do presidente recém-eleito Jair Bolsonaro. Comentaram o exemplo dado pelos médicos cubanos, que trataram seus pacientes com grande humanismo e todos concordaram em dizer que esses profissionais são muito necessários em comunidades rurais e indígenas onde estavam trabalhando.

OS MÉDICOS CUBANOS

Anteriormente, o Granma Internacional entrevistou vários profissionais que trabalharam no Brasil no momento da chegada ao país, depois de uma longa e perigosa viagem.

Alexei del Toro Parra, de Villa Clara, trabalhou no estado do Piauí desde 2016, no município Patos de Piauí servindo uma população de grandes carências materiais, que na partida dos médicos cubanos choraram e sentiram o fervor de protestar contra as autoridades locais.

«As patologias frequentes foram diarreia, por hábitos de higiene terríveis, parasitas intestinais e doenças respiratórias agudas que derivaram em pneumonia ou tuberculose. Também outras doenças da pele já erradicadas em Cuba», asseverou o médico, trabalhador da policlínica Marta Abreu, da cidade de Santa Clara.

Ele não escolheu o lugar onde trabalhou no Brasil, foi designado pelas autoridades brasileiras e antes de sair de Cuba recebeu um intenso treinamento em língua portuguesa que terminou com um exame nesse idioma com conteúdo de Medicina, principalmente no nível primário de saúde. Quando chegou, fez outro curso de pós-graduação em medicina comunitária, ministrado pelas universidades do país sul-americano.

A havanesa Lissett de los Ángeles López García trabalhou no município de Monsenhor Hipólito, no estado do Piauí. Assegurou que, como requisito para ser selecionado para a missão devia ser formado na especialidade de Medicina Geral Integral com vários anos de prática profissional.

Ela atendeu a quase 9 mil habitantes e para isso elaboraram um horário das consultas para visitar as comunidades rurais das redondezas, incluindo as visitas às casas e a exploração dos lugares mais distantes para estabelecer uma avaliação. «Os trabalhadores do meu posto médico ficaram muito impressionados com o trabalho estruturado que fizemos em termos de realizar controles estatísticos detalhados para projetar ações de prevenção de doenças», acrescentou a entrevistada.

Lissett sente muito que seus pacientes tenham que ficar sem a atenção sistemática de um médico novamente. Adverte que nunca pararam de atender àqueles que vinham ao consultório durante o dia, mesmo que já excedessem o horário de trabalho. Todos eram ouvidos atentamente e palpados para explorar as patologias no exame clínico.

Do município Amparo, do estado do Pará vem a doutora Yamilka Inés Guevara Ramón satisfeita pelo dever cumprido e grata, pois a Brigada Médica Cubana também facilitou o retorno de seu marido, Yordan Coronado Gálvez, que estava lá de férias.

Por seu lado, a doutora Ana Margarita Beltrán Cintra trabalhou por quatro anos no estado de Maranhão, no nordeste do país, no município de Vacabala.

Para ela, a população foi responsável por desmentir que os profissionais cubanos não tivessem preparação para atendê-los, porque estão contra todos os critérios expostos pelo presidente Jair Bolsonaro e outras autoridades quanto ao programa Mais Médicos.

«Nunca houve uma queixa contra os médicos cubanos por negligência ou abuso de um paciente. Eles lutaram para receber assistência médica e quando saímos queriam protestar para que não levassem o médico. A melhor resposta foram as manifestações espontâneas da população, que lamentou nossa partida e pediu nosso rápido retorno».