ÓRGÃO OFICIAL DO COMITÊ CENTRAL DO PARTIDO COMUNISTA DE CUBA
Pintura intitulada Pátria, de Kamyl Bullaudy 

A partir da posição ética de José Martí, passamos a momentos desafiadores e decisivos. A Pátria, acima de tudo, nos convida a manter a unidade revolucionária e o espírito de luta daqueles que, tal como o Apóstolo, a conceberam a partir da necessidade de sacrifício, como um altar e não um pedestal, para servi-la e não para servir a si mesmos.

São momentos em que as paixões se chocam e surgem as contradições (necessárias para entender os fenômenos e buscar soluções para os problemas). Alguns, com intenções explícitas ou dissimuladas de minar nossos fundamentos éticos, herdados da tradição de luta revolucionária, aproveitam os delírios, os confrontos entre patriotas que não levam a nada de bom, os venenos inoculados como a intriga, a ociosidade, a humilhação; tudo o que pode nos dividir e, obviamente, nos fazer sucumbir.

Diante dessa realidade, voltamos ao homem que é dono de um temperamento que o define, porque nele há respostas, sinais, conduta digna, comportamento ético de altura transcendental.

José Martí teve que responder com veemência, movido pelo sangue cubano que corria em suas veias, pelo impulso de seu caráter, pela necessidade de deixar clara sua posição e sua masculinidade.

As ofensas em certos episódios tornaram necessário que ele mostrasse não uma fanfarronice vulgar (como alguns poderiam pensar), nem um escândalo humilhante ou um abuso de poder ou autoridade; nada disso. Era simplesmente a exibição de um caráter, de uma convicção profunda, de uma verdade.

José Martí não era um homem que gostava de brigar com os outros (coisa muito diferente da polêmica de ideias, de critérios, de pontos de vista, sempre baseada na ética, no respeito e no decoro), não era um homem de excessos ou extremismos; era muito radical, mas porque ia à raiz dos problemas. Nunca ficava na superfície, ia até as profundezas.

Um exemplo disso é a maneira como Martí lidou com os ataques de uma das figuras mais notórias do Partido Liberal Autonomista. Trata-se de Nicolás Heredia, que certa vez discutiu com Martí sobre a situação em Cuba.

É claro que o autonomista não simpatizava com a proposta de emancipação para a independência, com a Revolução. Naquela discussão, as palavras de Martí foram lapidares:

«Somente os cegos ou tolos são incapazes de ver como a Revolução redentora está se aproximando, Don Nicolás. O que a indignação ou o patriotismo não fizerem, o homem se encarregará de fazer; Yara foi o ensaio e esta será a encenação da tragédia...».

Foi interrompido pelo poeta José María Heredia, que lhe disse: «Senhor Martí, o senhor é um romancista brilhante, mas não tenho a sua inventividade e vejo a atmosfera calma». E com o gênio e a agudeza que sempre definiram José Martí, respondeu:

«Você enxerga a atmosfera, senhor, mas o que importa é o subsolo». A questão cubana, a independência, a Revolução, não era uma questão de superfície, mas de algo mais importante, de essência.

José Martí tinha detratores, era criticado, questionado e até mesmo vítima de insultos, ressentimentos e desentendimentos. Sua proposta foi rejeitada, também por patriotas, que não entenderam o alcance da palavra de Martí, a mesma palavra que convenceu muitos, inclusive alguns daqueles que o diminuíram, ofenderam e questionaram.

O poder da palavra de Martí é impressionante, sua arma na batalha redentora, na luta revolucionária, o portador de suas ideias, inseparável de sua caneta pró-independência banhada em ética. Vamos relembrar aquela cena em que o caráter do homem digno foi claramente visto:

Apesar de seu rompimento com Máximo Gómez e Antonio Maceo, em Nova York, em 1884, por discordar de seus planos revolucionários, José Martí compareceu mais tarde a uma grande assembleia patriótica em Tammany Hall.

O primeiro orador, Antonio Zambrana, fez alusão a Martí, afirmando que aqueles que não apoiavam o movimento estavam com medo e, por isso, usavam saias em vez de calças. Martí irrompeu na multidão como uma bola de fogo e, chegando à tribuna, pediu a palavra.

Quando chegou a sua vez, e depois de começar pedindo a Máximo Gómez que se preservasse para a investida final, para o ataque astuto e coordenado que acabaria irremediavelmente com o domínio espanhol sobre Cuba, confrontou Zambrana, dizendo-lhe:

«E o senhor pode entender que não só não posso usar saias, como também sou um homem que não cabe em minhas calças».

E se aproximando de seu detrator, acrescentou com uma atitude violenta:

«E digo-lhe que posso provar isso a você como e quando quiser, e se for agora, tanto melhor».

Antonio Maceo e Flor Crombet intervieram, impedindo que o incidente tomasse proporções maiores.

Uma questão de masculinidade ou de caráter? Como podemos definir a atitude de José Martí, do homem que escolheu se dedicar inteiramente ao seu país, que assumiu um dever, o de fazer a Revolução, que foi aquele que, aos 15 anos, deu um grito de independência, que também foi um patriota de 68. Essa é a sua coragem, impulsionada por fontes profundamente éticas; por uma virilidade, a da coragem e da integridade, a da moralidade. Sua ética, que também marcou sua condição humana, o elevou. Aprendamos com José Martí, com seu apelo à unidade, a olhar para o subsolo, a respeitar-nos e admirar-nos uns aos outros.