ÓRGÃO OFICIAL DO COMITÊ CENTRAL DO PARTIDO COMUNISTA DE CUBA
Pôster de Gretter Domínguez Pérez. Projeto I am everywhere, ISDI, 2024-2025. Photo: ISDI

A principal característica sociopolítica da República de José Martí é, sem dúvida, a conquista de uma forma democrática de governo.

A PESSOA DE CADA CUBANO É SAGRADA

 Para José Martí, «a independência de um povo consiste no respeito que as autoridades públicas demonstram por cada um de seus filhos, o que está diretamente ligado ao interesse nacional, uma vez que a gestão do poder deve ser dirigida de tal forma que a pessoa de cada cubano seja respeitada como uma pessoa sagrada, e se reconheça que nos assuntos do país não há outra vontade que não seja a expressa pelo país, nem deve ser considerado outro interesse que não seja o seu».

UNIDADE DE PENSAMENTO, NÃO SERVIDÃO À OPINIÃO

 Para o Apóstolo, «a unidade de pensamento, que de modo algum significa a servidão da opinião, é, sem dúvida, uma condição indispensável para o sucesso de qualquer programa político e de todos os tipos de empreendimentos, especialmente aqueles que, por meio da força, da novidade e da oportunidade do pensamento, se aproximam mais do sucesso do que quando não vão em outra direção senão a da paixão ou do desejo desordenado (...)».

EXAME E ACONSELHAMENTO CONSCIENTES E CONSTANTES

 Com relação ao papel da crítica, vale a pena citar um de seus textos mais representativos: «O povo deve viver criticando uns aos outros, porque a crítica é saúde; mas com um só peito e uma só mente. Abaixar-se até os infelizes e levantá-los em seus braços! Com o fogo do coração descongelar a América coagulada! Derramar, borbulhando e fervendo, pelas veias, o sangue natural do país!»

 O que chama a atenção é o papel que Martí prevê para a oposição em uma República justa, onde «o governo é o decoro da pátria, e a pátria não deve ter inimigos em seus próprios filhos». Nesse sentido, Martí considera que, «se o governo erra: ele é advertido, o erro é apontado, o remédio é apontado, ele é argumentado e explicado; – as intenções não são distorcidas, os fatos são falsificados, são forjadas decisões que não existem, e os oponentes são fracos ao atacar uma administração existente, – seus pequenos defeitos são abusados, ou uma administração defeituosa é criada à vontade, sobre a qual custa pouco declamar e lutar. Não deve haver uma oposição constante; deve haver uma conscientização constante de exame e aconselhamento. Sem essa elevação de espírito, ninguém pode aspirar ao respeito comum, ao domínio firme e duradouro».

 Ao mesmo tempo, Martí reconhece a existência de «...necessidades da vida, que em nossos povos nascentes forçam homens de cultura inútil a ocupações parasitárias ou oposição interesseira (...)». E adverte que «não há homens mais dignos de respeito do que aqueles que não se envergonham de ter defendido a pátria com honra: nem há sujeitos mais desprezíveis do que aqueles que usam os tumultos públicos para servir, como flertes, à sua fama pessoal ou para promover, como jogadores, seus interesses privados».

 Nesse sentido, Martí critica uma vida patriótica que tem «ódio ao apoio, o esquecimento indecoroso das ofensas e a convivência com a censura escorregadia e senil dos “tiranos que espremem [a Pátria], os arrogantes que preferem o domínio estrangeiro à distribuição da justiça entre os seus! E os covardes, que são os verdadeiros perpetradores da tirania!»

O USO HONESTO DE TODAS AS ENERGIAS

 A compreensão dessa grande diversidade de bases sociais com potencial revolucionário influencia diretamente a concepção de José Martí sobre as elites, aqueles grupos que se oporão à Revolução ou buscarão acomodação para fazer uso dela. A esse respeito, é impressionante notar as cinco principais bases do programa apresentado por Martí a Máximo Gómez, já em dezembro de 1887, no qual ele propõe «a fundação de uma Comissão Executiva provisória para organizar a nova luta», que teria, entre seus objetivos, «unir todas as emigrações em um espírito democrático e em pé de igualdade; evitar que as simpatias revolucionárias em Cuba sejam distorcidas e escravizadas por qualquer interesse de grupo, pela preponderância de uma classe social, ou pela autoridade excessiva de um grupo militar ou civil, ou de uma determinada região, ou de uma raça sobre outra».

 Outro exemplo representativo é seu discurso fundador conhecido como “Com todos e para o bem de todos”. A guerra que está sendo preparada não busca, «neste novo sacrifício, meras formas, nem a perpetuação da alma colonial em nossa vida, com novidades de uniforme ianque, mas a essência e a realidade de um país republicano como o nosso, sem medo da expressão saudável de todas as ideias e do uso honesto de todas as energias (...) É claro que os mesquinhos da política, que se esquecem de como é necessário contar com o que não pode ser suprimido (...), recuarão de nós».

 Em seu próprio discurso, Martí analisa as condições em que todas as ideias e todas as energias podem ser incorporadas.  Nele, denuncia os «lindoros» que desprezam a Revolução, os «olimpos de pisa papel e os alzacolas – oportunistas que usam situações de crise e a ignorância popular a seu favor e se aliam ao lado que lhes traz mais influência e lucros; bajuladores populistas, demagogos e, especialmente, aqueles que procuram desacreditar a guerra e fazê-la parecer uma ação bárbara e sangrenta, bem como semear discórdia e divisão».

 Em outro discurso excepcional, proferido no dia seguinte, saúda «com inefável gratidão, como um símbolo misterioso da força patriótica, do poder oculto e seguro da alma crioula, aqueles que, ao primeiro som da morte, ergueram-se sorridentes, do apego e da covardia da vida comum, para o heroísmo exemplar».

 Como expressão dessa rica ideologia democrática, uma das contribuições mais importantes de José Martí foi a criação do Partido Revolucionário Cubano (PRC) em 1892. Com as Bases e Estatutos do Partido, Martí buscou, como um de seus objetivos fundamentais, evitar a repetição dos erros dos estágios anteriores da luta e «desde a raiz salvar Cuba dos perigos da autoridade pessoal e das dissensões em que, devido à falta de intervenção popular e de hábitos democráticos em sua organização, caíram as primeiras repúblicas americanas».

CONSTRUIR A PÁTRIA COM FORMAS VIÁVEIS

 O estudo dos erros do passado, bem como dos medos e preconceitos do presente, permitiu que Martí entendesse que «a pátria deve ser construída a partir de suas raízes com formas viáveis, e a partir de si mesma, para que um governo sem realidade ou sanção não a leve à parcialidade ou à tirania».

 Para tanto, Martí encontrou na esfera jurídica a capacidade de dar forma à independência, de «encarnar o novo espírito e de lançar as bases de uma nacionalidade viva e gloriosa», razão pela qual características das leis da nova República podem ser identificadas em vários textos, como Los Códigos Nuevos (1877) e Cartas de Martí: Historia de la caída del partido republicano en los Estados Unidos y del ascenso al poder del partido demócrata (Cartas de Martí: História da queda do Partido Republicano nos Estados Unidos e da ascensão ao poder do Partido Democrata). -História, transformações e significado atual dos partidos... (1885).

 Para as pessoas de boa vontade em todas as latitudes, a ideologia do Mestre é uma arma emancipadora e um ponto cardeal no grande empreendimento humano: alcançar o equilíbrio do mundo.

 Em nível da nação, aqui em Cuba, refletir sobre os princípios fundamentais do pensamento e do exemplo de Martí é uma oportunidade de redescobri-lo como um revolucionário radical, contemporâneo e universal diante dos desafios urgentes que ele enfrentou em seu tempo e que continuam ameaçando a nossa humanidade hoje.

Citações de José Martí: Obras Completas

*Diretora Adjunta do Gabinete do Programa sobre José Martí