O Comandante da Revolução, Ramiro Valdés Menéndez, viverá para sempre em cada menino que segura um livro, em cada operário que constrói uma usina de açúcar, em cada soldado que vigia a fronteira...
Photo: Juvenal Balán
Artemisa, 1932. Não havia luxo em seu berço. Ali, no suor da cidade e do bairro, nasceu um menino que a história aguardava. Ramiro Valdés Menéndez aprendeu antes mesmo de andar que a pátria não se pede, se constrói. Sua mãe, seguidora de Carlos Manuel de Céspedes e José Martí, colocou em suas mãos, mais do que pão, uma ideologia.
A vida o transformou em um eletricista de linhas de transmissão. E do alto dos postes, ele enxergava o mapa das injustiças com mais clareza. Ele não era um trabalhador qualquer: era um guardião da dignidade. Quando o golpe de Estado de 1952 ecoou pela noite cubana, ele não estava no escritório de um burocrata: estava na usina de açúcar, com um facão no ombro e terra nos sapatos. Mas a usina não era o seu destino; as montanhas, sim.
Ele atendeu ao chamado de Fidel, assim como atendeu à missão que lhe foi confiada no dia em que – sem que lhe tivessem dado o endereço – o jovem advogado apareceu de repente em sua casa para descobrir com quantos amigos do bairro ele poderia contar para tornar Cuba digna.
Como tantas pessoas de Artemisa que, naquele 26 de julho de 1953, transformaram o quartel Moncada no primeiro grito de liberdade, ele estava lá. Não foi apenas mais um ataque: foi o batismo de fogo para uma geração que preferia a prisão à vergonha. Prisioneiro em Isla de Pinos, exilado no México, marinheiro no iate Granma… a odisseia estava apenas começando.
Na serra Maestra, o Comandante Ernesto Che Guevara, a quem ele considerava como um irmão, o queria ao seu lado como segundo em comando da Coluna nº 8. E ele não decepcionou. Ali, em meio à neblina e às balas, forjou-se a têmpera de um Comandante — um Comandante que não precisava de patente para liderar, porque liderava pelo exemplo. Quando a vitória chegou em 1º de janeiro de 1959, Ramiro já era uma lenda.
Mas a Revolução não era para descanso; a Região Central, a Segurança do Estado, os dias da invasão pela Baía dos Porcos, cada responsabilidade foi um degrau em seu compromisso. Ministro do Interior, primeiro vice-ministro das Forças Armadas Revolucionárias, ajudante do Comandante-em-chefe, presidente do Grupo Industrial de Eletrônica, ministro da Tecnologia da Informação e Comunicações, vice-presidente dos Conselhos de Estado e de Ministros, vice-primeiro-ministro… e em cada posição, a mesma palavra: lealdade.
Mas quem pensava que seu título o distanciava dos aspectos práticos da situação jamais conheceu Ramiro. Nós, jornalistas, testemunhamos, em mais de uma ocasião, sua natureza exigente. Não a exigência de alguém que intimida, mas a de quem monitora meticulosamente o funcionamento de uma usina termelétrica ou o andamento de um projeto de investimento crucial para o desenvolvimento do país com a paciência de um relojoeiro e o olhar atento de um oficial militar. Ele não levantava a voz; não havia necessidade. Com a sabedoria de quem sabe ensinar, ele examinava minuciosamente cada válvula, cada número, cada cronograma atrasado.
Ele questionava cada detalhe como um especialista experiente, porque era um. E em suas perguntas, sem alarde, residia a exigência mais profunda: a de alguém que sabe que tempo perdido em um projeto é tempo roubado das pessoas; porque Ramiro não vinha da altura de sua posição, mas da altura do conhecimento e da história.
Não havia, porém, missão mais nobre do que aquela que o levou à Bolívia. Buscar, localizar, exumar e transferir os restos mortais de Che Guevara e seus companheiros não era uma tarefa burocrática: era um ato de justiça poética. Ramiro foi para devolver à história o que a história lhe havia roubado.
Fundador do Comitê Central do Partido e de seu Bureau Político, e membro da Assembleia Nacional, ele foi, acima de tudo, um homem de convicções. Não conheceu o desânimo nem a traição. Em cada batalha, em cada trincheira, esteve ao lado de Fidel e Raúl, com uma lealdade que transcende o tempo e as tendências.
Hoje, quando a notícia de seu falecimento dói como a perda de um pai, Ramiro Valdés Menéndez continua vivo em cada jovem que segura um livro, em cada operário que constrói uma usina de açúcar, em cada soldado que vigia a fronteira. Seu exemplo não é uma estátua: é essa juventude que impulsiona o país para frente hoje.
Cuba, 2026. A Revolução perde um dos seus, mas ganha um mito. E mitos, como Che Guevara, Fidel Castro e Camilo Cienfuegos, não morrem: multiplicam-se. Ramiro Valdés, como disse a um colega em entrevista, continuará crescendo com força, através do seu exemplo.
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