Novas oportunidades estão surgindo na agricultura para produzir mais alimentos, incorporar áreas inexploradas e fazer melhor uso das capacidades existentes
Quem possui terras e solicita mais terras deve ter as terras que já possui cultivadas.Photo: Juvenal Balán
A recuperação da produção agrícola foi definida como uma prioridade fundamental do Programa Econômico e Social do Governo para 2026, bem como nas transformações econômicas e sociais recentemente aprovadas.
Nesse contexto, o vice-primeiro-ministro, Jorge Luis Tapia Fonseca, e o ministro da Agricultura, Ydael Pérez Brito, realizaram um amplo intercâmbio com membros de cooperativas e produtores da zona oeste de Havana, um espaço que transcendeu a explicação normativa para se tornar um exercício de escuta ativa daqueles que trabalham a terra diariamente.
As discussões revelaram um consenso generalizado: é imprescindível eliminar os obstáculos históricos que têm limitado o setor. No entanto, o verdadeiro desafio começa agora: garantir que as transformações cheguem a todos os municípios, empresas, bancos e entidades responsáveis por implementá-las tão rapidamente quanto foram concebidas.
Tapia Fonseca insistiu que essas decisões não podem ser analisadas isoladamente; elas fazem parte dos 23 pilares das transformações econômicas e sociais e colocam os produtores como atores-chave dentro de uma transformação muito mais ampla do modelo de gestão do país.
MAIS TERRAS EM PRODUÇÃO E MENOS BUROCRACIA
A modificação do regime de uso e exploração da terra despertou o maior interesse. Sem alterar o princípio de que a terra permanece propriedade socialista de todo o povo, as novas normas estabelecem que o direito real de usufruto, por prazo indeterminado, poderá ser concedido a pessoas físicas e jurídicas, sejam elas estatais, privadas ou mistas, com base no projeto produtivo apresentado. A extensão do usufruto não dependerá mais de limites predeterminados, mas sim das necessidades reais de cada proposta.
O vice-primeiro-ministro explicou que a empresa estatal gestora assumirá um papel muito mais ativo: deixará de ser um ator distante e passará a ser a responsável pela gestão da entrega, pela coordenação com as cooperativas e pela garantia do cumprimento dos prazos.
O procedimento pode ser concluído em 20 a 25 dias, utilizando mecanismos simplificados com o auxílio de ferramentas geoespaciais que agilizam a demarcação de terras. Enquanto o marco legal está sendo finalizado, a administração provisória permitirá que os produtores iniciem os trabalhos sem precisar aguardar a conclusão de toda a documentação legal.
Além disso, aqueles que solicitarem terrenos poderão optar entre aderir a uma cooperativa ou ingressar diretamente em uma empresa estatal, ampliando assim as alternativas de organização.
O ministro Pérez Brito explicou a lógica por trás dessas mudanças: cerca de 80% das terras em Cuba são administradas por empresas estatais em nome do povo, o que justifica sua responsabilidade na concessão de direitos de usufruto.
No caso das Cooperativas de Produção Agrícola (CPAs), onde a terra é propriedade privada dos membros, qualquer transferência deve ser aprovada pela Assembleia Geral, respeitando a sua autonomia. Daqui para a frente, as empresas devem consultar as cooperativas localizadas nas áreas pretendidas e supervisionar todo o processo desde o início.
A participação das cooperativas foi um dos aspectos mais fortemente apoiados. Gaspar Palermo, presidente de uma Cooperativa de Crédito e Serviços, afirmou: «A cooperativa sabe quem são seus melhores produtores, quem merece e quem não merece. Nosso envolvimento, tanto na prevenção de uma possível extinção por indisciplina quanto na garantia do uso eficiente da terra, é o mais importante que aconteceu. Lutamos por isso há anos».
Questões legais também foram abordadas. Pedro Rodríguez Viamontes, vice-presidente da cooperativa 28 de Enero, perguntou se os atuais certificados de usufruto permaneceriam válidos. A resposta foi categórica: os usufrutos já concedidos permanecem plenamente válidos e serão automaticamente regidos pelas novas normas.
Rodríguez Viamontes observou que muitas dessas decisões respondem a antigas reivindicações dos agricultores nos congressos da Associação Nacional dos Camponeses (ANAP): «Estamos todos satisfeitos com essas medidas. Agora, o importante é continuar capacitando os bancos e todas as instituições para que ninguém possa nos impedir. É hora de seguir em frente: trabalhar e produzir alimentos para o povo».
As novas regulamentações também introduzem mudanças relativas à herança, benfeitorias e imóveis vinculados ao usufruto, e transferem os direitos de herança para os tribunais. Tapia Fonseca resumiu o objetivo comum: «Se não produzirmos mais, se não colocarmos mais pessoas para trabalhar a terra, não avançaremos».
DE PRODUTOR A EMPREENDEDOR
As transformações não se limitam ao acesso à terra. Elas reconhecem uma realidade já existente: produtores que administram grandes extensões de terra, geram empregos e mantêm níveis de produção comparáveis aos de muitas empresas.
Com base nisso, as novas disposições permitirão a criação de empresas agrícolas privadas. Tapia explicou que os proprietários de terras com dezenas de hectares dedicados ao fumo, árvores frutíferas ou bananas, que empregam mais de cem trabalhadores, poderão se registrar formalmente como empresas e ter acesso aos poderes concedidos a esse tipo de entidade.
Além disso, os poderes das cooperativas estão sendo ampliados, incluindo a capacidade de realizar operações de comércio exterior diretamente, importar tecnologias e insumos, combustíveis e gerenciar financiamento externo. Embora esse tema tenha gerado menos intervenções, foi apresentado como uma ferramenta para fortalecer a autonomia econômica e ampliar as capacidades de gestão do setor.
OFERTA: UMA DEMANDA HISTÓRICA COMEÇA A SER ATENDIDA
A disponibilidade de insumos continua sendo um dos fatores que mais impactam os resultados. Há anos, os produtores apontam as dificuldades na aquisição de fertilizantes, bioprodutos, combustível e peças de reposição. As reformas aprovadas estipulam que qualquer agente econômico pode importar, produzir e comercializar insumos agrícolas, tanto em moeda estrangeira quanto em pesos, incluindo cooperativas, empresas estatais, micro, pequenas e médias empresas (MPMEs) e trabalhadores autônomos.
Tapia Fonseca destacou as valiosas experiências na produção de biofertilizantes e fertilizantes orgânicos desenvolvidas por coletivos de trabalhadores. Agora, essas iniciativas podem crescer e se tornar negócios plenamente reconhecidos: «Qualquer pessoa que queira produzir biofertilizantes, bioestimulantes ou fertilizantes orgânicos pode fazê-lo. Podem firmar parcerias com empresas no exterior, estabelecer contratos ou criar jointventures».
Além disso, o plano inclui a criação de mercados de entrada de moeda estrangeira com participação nacional e estrangeira, e mecanismos bancários para facilitar transações via cartões, transferências e comércio eletrônico. Essas medidas serão acompanhadas de incentivos fiscais, com reduções significativas em tarifas e direitos aduaneiros.
Apesar dessa abertura, Yoel Barreto Rodríguez, presidente da cooperativa Arides Estévez, alertou para a necessidade de simplificar os procedimentos administrativos. Ele relatou que sua cooperativa precisava de cerca de seis meses para concluir a documentação necessária para a obtenção do código exigido para importações.
Ele reconheceu as dificuldades objetivas do país, mas insistiu: «Às vezes, os processos de legalização são muito demorados. Precisam ser simplificados, tornados mais práticos. Assim como estamos discutindo as empresas hoje, precisamos discutir isso no âmbito do governo municipal».
Sua intervenção resumiu a preocupação compartilhada: que a burocracia não acabasse limitando os resultados esperados.
MAIOR AUTONOMIA PARA EXPORTAR, IMPORTAR E COMERCIALIZAR
As novas regulamentações permitem que as cooperativas exportem e importem diretamente suprimentos, equipamentos e tecnologias, além de gerenciar financiamento externo e abrir contas bancárias em Cuba e no exterior. Essa abertura ao comércio exterior representa uma mudança significativa rumo à integração dos produtores cubanos nos mercados internacionais.
Em termos de marketing, a formação de preços é descentralizada e o papel do mercado é reconhecido. Entidades estatais, cooperativas e produtores poderão participar da definição de preços, superando os sistemas centralizados que desestimulavam a produção.
FINANCIAMENTO PARA PRODUÇÃO E O DESAFIO DA IMPLEMENTAÇÃO
As mudanças incluem a descentralização territorial do Fundo de Desenvolvimento Agrícola e a criação de um Banco de Desenvolvimento Agrícola, especializado no apoio a projetos de produção de alimentos. Os produtores concordaram com a importância de as instituições bancárias estarem plenamente cientes das novas regulamentações para evitar atrasos ou interpretações equivocadas.
Ao longo da conversa, ficou claro que essas transformações representam uma das mudanças mais significativas dos últimos anos com o objetivo de estimular a produção agrícola. No entanto, tanto as autoridades quanto os produtores concordaram que o sucesso dependerá de uma implementação eficaz.
O ministério da Agricultura terá que atualizar mais de uma dezena de regulamentos, mas os participantes insistiram que todas as agências, governos locais e instituições financeiras devem estar plenamente cientes das mudanças e agir de acordo.
Mais além das disposições legais, o objetivo permanece o mesmo: produzir mais alimentos, incorporar novas áreas e aproveitar melhor as capacidades existentes.
Esse é um projeto que proporciona soberania tecnológica, uma vez que, em caso de obsolescência, quebra ou bloqueio, soluções rápidas podem ser fornecidas, pois se trata de uma interface desenvolvida no país