ÓRGÃO OFICIAL DO COMITÊ CENTRAL DO PARTIDO COMUNISTA DE CUBA
Evo Morales, presidente da Bolívia. Photo: Jose M. Correa

JÁ eram as 5 horas da manhã e Fidel tinha estado conversando horas a fio. Evo Morales só podia pensar em uma coisa: «quando é que ele me vai falar de Revolução?»

Era o ano 2002 e o líder boliviano ocupava o cargo de deputado pelo combativo departamento de Cochabamba. Tinha visto Fidel quase uma década antes, em vários desses eventos que reúnem em Havana lutadores sociais do mundo todo; mas foi impossível se encontrar com ele, pessoalmente, naquela oportunidade.

«O grande desejo de qualquer jovem de então era conhecer Cuba, como era a Revolução e o Comandante», relata Evo na entrevista exclusiva com o jornal Granma, de Santiago de Cuba, onde esteve mais uma vez junto ao povo cubano, nos momentos mais difíceis.

Quando ficou perante Fidel, depois de escutá-lo falar várias horas, acerca da saúde e as responsabilidades do Estado, fez-lhe a pergunta que tinha pensado desde seus tempos de líder sindical. Pensava que o guerrilheiro da Serra Mestra falaria de armas e como organizar o povo para a luta, mas a resposta que recebeu foi muito diferente: «Evo, agora vocês têm que fazer como Chávez e conseguir a Revolução com o povo».

Pouco tempo depois, Evo seria eleito o primeiro presidente indígena na história de seu país e a Bolívia se somaria com força ao movimento progressista que iniciou uma mudança de época na América Latina, a partir da vitória bolivariana na Venezuela do Comandante Hugo Chávez.

«Quando quase era uma certeza que nossa Revolução Democrática viria triunfar na Bolívia, reuni-me com várias autoridades. Preocupava-me, caso vencermos as eleições, como poderíamos evitar um bloqueio econômico igual que o que os Estados Unidos impuseram contra Cuba. Todos diziam que devia ter muito cuidado, que os Estados Unidos eram vingativos; que tivesse calma», lembra.

Contudo, Fidel lhe disse outra coisa. «Em primeiro lugar, vocês não estão sozinhos; aqui está Cuba, Chávez na Venezuela, Lula no Brasil, Kirchner na Argentina. Em segundo lugar, vocês têm muitos recursos naturais. E terceiro, não são uma ilha e contam com países vizinhos».

Dessa conversa, refere Evo, saiu convicto da necessidade de nacionalizar os recursos naturais. Só com o petróleo e os derivados conseguiram receitas de bilhões de dólares para o desenvolvimento do país, durante a última década, quando antes de sua presidência as receitas eram apenas de umas poucas centenas de milhões e as transnacionais ficavam com a maior fatia dos lucros.

«As palavras de Fidel sempre foram muitos orientadoras, firmes e consequentes», assegura. Aproximadamente 700 mil bolivianos foram operados gratuitamente, graças à Missão Milagre, uma ideia conjunta de Fidel e Chávez que chegou a milhões de pes-soas no mundo. «Pensei que tinha escutado mal o número, quando falavam em operar 100 mil pessoas», lembra.

Perante mais de um milhão de pessoas, reunidas na Praça da Revolução, de Havana, Evo confessou que sentia imensa saudade de Fidel. «Quem me ensinará? Quem me fará refletir? Quem me cuidará?», disse.

Quatro dias depois voltou ao nosso país e esteve junto a Raúl, em Santiago de Cuba. Quando morreu o Comandante Chávez também acompanhou, em todo momento, os familiares e líderes venezuelanos. Depois, liderou a marcha que levou os restos do líder bolivariano até o Quartel da Montanha.

«A melhor homenagem aos nossos heróis como Chávez, Kirchner e, especialmente, Fi­del, é a unidade e mais unidade», refere.

Parafraseando as palavras de Raúl, em 3 de novembro, Evo assegura que «sim se pode» conseguir uma América Latina com soberania e unidade. «Perante qualquer conspiração de classe, política militar ou cultural, o importante é estar sempre com o povo. Essa é minha pequena experiência como presidente».

«Nunca mais vamos ver Fidel em pessoa ou fisicamente, mas suas ideias são para sempre», afirma. «O mais importante é que morreu invicto, apesar dos muitos atentados e tamanhas acusações».

O presidente boliviano está convencido de que as futuras gerações continuarão falando do líder cubano e se inspirarão em seu exemplo. «Tal como continua transcendendo a imagem de Che Guevara, agora está a imagem de Fidel. Eles serão como uma dupla ideológica, que não está presente fisicamente, mas continuarão suas lutas e suas ideias no mundo todo. Isso significa que há Fidel para a eternidade».

«Com o que já vi em Havana e em Santiago de Cuba, tenho certeza de que o falecimento de Fidel se tornou uma fortaleza, não uma fraqueza. É uma oportunidade para relançar todas as revoluções».