
EM 16 de julho deste ano, toda a obra de Fernando Ortiz foi declarada Patrimônio da Nação. Foi um momento emocional, carregado com uma eletricidade espiritual particular, que compartilhamos com Miguel Barnet, Eusebio Leal, Manuel Torres-Cuevas e outros colegas. Um ato de justiça em relação a esse componente essencial dos fundamentos de nossa cultura e da própria pátria.
No ensaio Los factores humanos de la Cubanidad, escrito em 1949, Ortiz afirma: «Há cubanos que não querem ser cubanos e até se sentem envergonhados e se recusam a ser». Neles, «a cubanidade carece de plenitude, foi castrada. Não é suficiente», insiste Ortiz, «ter em Cuba o berço, a nação, a vida e o aspecto». Algo mais está faltando: «são precisos a consciência de ser cubano e o desejo de querer ser». E faz diferença entre «a cubanidade, condição genérica do cubano e a ‘cubania’ plena, sentida, consciente e desejada».
Outros intelectuais nossos identificaram na República neocolonial diferentes formas de sentir-se e assumir-se como cubanos.
Elías Entralgo diferencia a «’cubania’ progressista" da «cubanidade estacionária", conservadora. Esta última, diz ele, foi a que «permitiu formar os corpos de voluntários sob o domínio espanhol, em face das insurreições de 1868 e 1895».
José Antonio Foncueva opõe o «patriotismo abnegado, compreensivo e clarividente» ao «míope», «falso» e «declamativo», e acusa «aqueles que, sendo traidores dos mais altos e legítimos interesses do país, fingem possuir uma delicada sensibilidade patriótica».
Jorge Ibarra estudou o «mito de Roosevelt», promovido por certos setores influentes da Ilha por causa da morte do político e militar ianque, em 1919. Como um suposto lutador pela liberdade de Cuba, como «pai» amoroso da República surgida da Emenda Platt, houve aqueles que até chegaram a comparar Theodore Roosevelt com nossos maiores heróis. Nada está mais longe da ‘cubania’ do que essa idealização vergonhosa.
No mesmo ano de 1919, José Antonio Ramos afirma que as visões pseudofolclóricas coloniais ainda estão viventes na República. Para muitas pessoas, diz ele, a única coisa genuinamente cubana era o que a colônia nos permitiu: «o negrinho, a mulata, a rede, o charuto, a ‘guajira’, a rumba, a gracejante cantúa e a admiração e adesão a tudo o estrangeiro».
Há anexionistas engraçados e fãs da rumba que dominam um repertório picante do cubanismos, apreciam o rum, o dominó, o bom charuto, o café forte, riem com as piadas do Pepito, choram ouvindo um bolero e sempre carregam uma medalha da Caridade do Cobre em volta do pescoço. São praticantes ativos da cubanidade externa; mas são essencialmente alheios à ‘cubania’.
Conheço um caso notável: Guillermo Cabrera Infante, muito cubano em sua narrativa, em sua pirotecnia linguística e francamente anexacionista na alma e no pensamento. Sua coleção de artigos Mea Cuba (1992) é escandalosamente pró-ianque. Ele faz uma crítica feroz, sem qualquer fundamento, de qualquer pensamento antiimperialista que tenha surgido em Cuba e na nossa região. O próprio conceito da «América Latina» é para ele «mais um clichê da esquerda profissional».
Ele desqualifica José Martí, como um fanático que buscou «a morte romântica» em Dos Ríos, em «um suicídio calculado». Interpreta a alusão ao «Norte conturbado e brutal» como o germe de outro «clichê» esquerdista: a dualidade Norte-Sul. Lembra-nos que Cuba está «sempre a 90 milhas da costa norte-americana», o que define nosso destino e fatalmente nos condena à subordinação. «A geopolítica é mais decisiva do que a política», repetiu uma e outra vez Cabrera Infante. Alguém que usou seu talento e senso de humor para brincar literariamente com os sinais exteriores de nossa cultura; mas pertencia à espécie da «cubanidade castrada».
Acho que têm que ser muito escassos os nascidos em Cuba (que morem aqui ou em qualquer outro lugar do mundo), capazes de ofender José Martí e de promover a anexação de seu país aos Estados Unidos. Eu conheço muitos emigrantes que defendem diariamente sua identidade, não com rituais vazios, mas como algo cheio de sentido e são portadores da mais prezada ‘cubania’.
Fernando Ortiz nos convidou a estabelecer nossa condição de cubanos com base em um compromisso ético com os esforços coletivos desse povo, a trabalhar por um projeto comum e a nos identificar com a «‘cubania’ plena, sentida, consciente e desejada». Vamos ouvi-lo e continuar a nutrir-nos de sua obra feita.





